Galileu
O mundo vive uma corrida pelo emagrecimento, com dezenas de milhões de pessoas recorrendo a soluções injetáveis como Ozempic, Wegovy e Mounjaro. Criadas para tratamento de diabetes tipo 2, as canetas se tornaram símbolo das promessas de perda de peso rápida e objeto de desejo impulsionado pelas redes sociais.
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Não à toa, estima-se que um em cada três lares brasileiros já teve contato com medicamentos para emagrecer à base de análogos dos hormônios GLP-1 e GIP, segundo le- vantamento do Instituto Locomotiva. Só no ano passado, a importação das canetas teria movi- mentado cerca de R$ 9 bilhões no Brasil, alta de 88% em relação a 2024.
Por aqui, o uso dessas substâncias para fins estéticos cresce, muitas vezes sem acompanhamento médico, e alimenta um mercado paralelo de versões manipuladas em larga escala, falsificações e produtos contrabandeados, sobretudo do Paraguai. A expansão acelerada desse circuito irregular já pressiona, inclusive, autoridades sanitárias.
Entre janeiro e abril, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) apreendeu mais de 1,3 milhão de unidades de medicamen- tos injetáveis irregulares, e emitiu ao menos 11 medidas de restrição à importação, venda e uso desses produtos.
O sucesso das canetas é resposta a uma demanda global: dados apontam mais de 1 bilhão de pessoas com obesidade no mundo, número que pode atingir 4 bilhões até 2035, segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2026, da World Obesity Federation. No Brasil, onde mais de um quarto da população é obesa, três quartos poderão viver com excesso de peso nas próximas décadas, segundo projeção apresentada em 2024 no Congresso Internacional sobre Obesidade (ICO).
Foi a tempestade perfeita para que os medicamentos injetáveis passassem a ocupar um espaço inédito: ao mesmo tempo em que representam um avanço no tratamento da obesidade, também levantam discussões sobre banalização do tratamento com medicamentos, pressão estética, riscos à saúde e o símbolo de uma nova “era do emagrecimento” – cujos efeitos a longo prazo ainda não são conhecidos por completo.
Como as canetas funcionam
Os análogos de GLP-1 e GIP atuam imitando hormônios intestinais que regulam o açúcar no sangue, consequentemente reduzindo o apetite e retardando o esvaziamento do estômago. Com o tratamento, a sensação de barriga cheia, típica de uma refeição farta, permanece por mais tempo, e a vontade de comer desaparece consideravelmente.
Estudos recentes também apontam benefícios cardiovasculares, para doenças crônicas nos rins e no fígado. Em dezembro do ano passado, a Anvisa aprovou inclusive o uso do Wegovy para tratar gordura no fígado com inflamação. Meses depois, autorizou também a indicação para reduzir o risco de infarto e AVC em adultos obesos ou com sobrepeso e doença cardiovascular. Há estudos, inclusive, que apontam potencial de análogos do GLP-1 para proteção contra demência.
Essa ponte neurológica existe porque o princípio ativo das canetas tem ação forte no cérebro. A semaglutida – princípio ativo do Wegovy e do Ozempic – é uma molécula “agonista do GLP-1”, hormônio ligado ao controle da glicose e da fome. “[O GLP-1] é um hormônio produzido pelas nossas células do intestino, que age no pâncreas aumentando a produção de insulina glicose-dependente e também no hipotálamo, estimulando a saciedade”, explica a metabologista e endocrinologista Elaine Dias, PhD em endocrinologia pela Universidade de São Paulo (USP).
“Fazia tudo certinho, e o peso não mudava. [...] Dos emagrecimentos que tive, é o primeiro que vejo como sustentável” — Camila Teixeira, e sua experiência de usar Mounjaro para tratar obesidade de grau 2.
Já a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, atua sobre dois hormônios simultaneamente: GLP-1 e GIP. Além do controle glicêmico e da saciedade, o medicamento interfere na forma como o orga- nismo utiliza energia e armazena gordura.
A cantora e influenciadora fluminense Camila Teixeira (@oficialmilah), de 32 anos, superou uma obesidade de grau 2 com o uso do Mounjaro. Ela pesava 104 kg quando decidiu mudar. “Ver três dígitos na balança me impactou muito. Eu estava em uma fase depressiva e entendi que precisava fazer alguma coisa por mim”, conta, em entrevista à GALILEU.
Vieram a academia, a dieta e 12 kg a menos. Depois disso, porém, o emagrecimento estagnou. “Eu fazia tudo certinho, e o peso simples- mente não mudava”. A virada aconteceu de fato quando seu endocrinologista prescreveu o remédio injetável, ao lado do acompanhamento nutricional e dos treinos. Em poucos meses, Camila voltou a emagrecer, chegando aos 67 kg. “De todos os emagrecimentos que tive na vida, esse é o primeiro que vejo como sustentável”, afirma.
O namorado dela, Lucas, que chegou a pesar mais de 130 kg e enfren- tava obesidade grau 3, também aderiu ao tratamento. Perdeu mais de 40 kg – o que transformou os hábitos do casal. “Antes, a gente pedia uma pizza tamanho família. Depois da reeducação alimentar, passamos para a média. Agora, nem conseguimos terminar a média”, diz Camila.
Da obesidade à estética
O problema é que o sucesso no tratamento de casos de obesidade aumentou também a procura por pessoas que querem apenas “perder um quilinhos”. Análogos de GLP-1 e GIP também passaram a ser usados sem indicação clínica formal, impulsionados pela cultura da magreza, reforçada por aparições cada vez mais esguias de celebridades.
Embora muitas figuras públicas evitem associar a perda de peso ao uso de medicamentos, nomes conhecidos globalmente admitiram recorrer às canetas. Integram a lista a apresentadora americana Oprah Winfrey, a ex-tenista Serena Williams e o bilionário Elon Musk, por exemplo.
No Brasil, a atriz Giovanna Chaves, conhecida pela novela Cúmplices de Um Resgate, foi alvo de críticas no ano passado após revelar o uso de Mounjaro para perder 3,5 kg. “Meu peso atual é 53 kg e quero chegar a 49,5 kg”, declarou, nas redes sociais. Já em maio deste ano, a influenciadora Luara Bettiol ganhou atenção ao arremessar uma caixa do medicamento no lugar do buquê durante o próprio casamento, em Santa Catarina.
Médicos alertam que a banalização dessas medicações pode esti- mular transtornos alimentares, como anorexia e bulimia, além da chamada “agonorexia” – termo usado para descrever a supressão excessiva e disfuncional do apetite provocada por medicamentos. O quadro, mais comum entre pessoas sem obesidade e sem indicação clínica formal, pode aumentar o risco de sarcopenia, condição marcada pela redução da massa e da força muscular.
“A possibilidade de uma pessoa eutrófica [com peso considerado normal] desenvolver obesidade ou sobrepeso após interromper o medicamento é muito grande, porque ela está perdendo nosso maior bem, que é o músculo”, observa a metabologista Elaine Dias. Pesquisas indicam que a perda de massa magra pode representar de 25% a 39% do peso eliminado após 36 a 72 semanas de uso desses injetáveis. Segundo análise publicada na revista The Lancet, trata-se de uma redução muito superior à observada no envelhecimento natural.
A perda muscular também pode afetar a saúde dos ossos. “Tenho relatos de amigos e pacientes que estão perdendo os dentes devido à perda óssea na região da boca. Porque usam o medicamento, fazem muita restrição e não têm suplementação adequada. Essas pessoas estão investindo no envelhecimento doente”, diz a médica.
Dois estudos apresentados em março de 2026 durante encontro da Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos apontam para a mesma conclusão. Os artigos indicam que medicamentos que funcionam à base de análogos dos hormônios GLP-1 estão associados a um risco maior de osteoporose e osteomalácia (amolecimento dos ossos) em pessoas com diabetes tipo 2 e obesidade, o público-alvo das canetas.
Lista longa de colaterais
Se os efeitos a longo prazo ainda estão começando a ser conhecidos, os efeitos colaterais imediatos podem variar muito caso a caso. Na bula das canetas, os sintomas mais comuns incluem náusea, vômito, diarreia e constipação intestinal, geralmente controlados com orientação médica. “Tem pessoas que não sentem praticamente nada.
Nesse caso, a gente pode escalonar a dose conforme a bula”, explica Simone van de Sande Lee, diretora do Departamento de Obesidade da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) e coautora da mais recente Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica).
Com o uso indiscriminado, porém, aumentou o número de registros de efeitos colaterais leves e até de eventos graves. A Anvisa identificou quase 3 mil notificações de eventos adversos entre 2018 e 2026 – quase metade apenas em 2025. Entre os casos relatados, há desfechos graves, incluindo mortes. Embora não haja comprovação direta de causalidade, a agência aponta a falta de acompanhamento profissional e a circulação de produtos irregulares como riscos à saúde pública.
Entre os casos que mais preocupam as autoridades está a pancreatite, inflamação do pâncreas considerada rara nas versões originais dos medicamentos. Entre 2007 e 2025, mais de 1,2 mil casos foram relatados no Reino Unido. No Brasil, houve 145 notificações suspeitas e seis mortes possivelmente associadas ao quadro entre 2020 e dezembro do ano passado. Diante do aumento dos registros, a Anvisa passou a exigir, em junho de 2025, a retenção de receita na venda desses medicamentos.
Simone explica que a pancreatite não é uma consequência do uso prolongado, e reforça que é um efeito colateral raro, também ligado ao próprio processo de emagrecimento. “Quando a pessoa perde peso, existe uma probabilidade maior de formar pedras na vesícula biliar, um órgão que fica ali embaixo do fígado”, conta.
Outra complicação que entrou no radar médico é a gastroparesia, conhecida como “paralisia estomacal”, condição em que o esvazia- mento do estômago fica severamente comprometido. Em 2023, cerca de 400 pessoas chegaram a processar as farmacêuticas Novo Nordisk e Eli Lilly após sofrerem do problema. Dentre os pacientes, estava uma mulher de Louisiana, nos Estados Unidos, que teve vômitos tão graves após tomar Mounjaro e Ozempic que foi hospitalizada e perdeu dentes.
O assessor de imprensa da cantora Anitta, Paulo Dal Bò Pimenta, de 43 anos, enfrentou a gastroparesia após tomar Mounjaro mesmo com acompanhamento médico. Ele estava com sobrepeso e queria perder 10 kg para melhorar uma síndrome metabólica, doença caracterizada pela resistência à ação da insulina.
Na madrugada seguinte à primeira dose, Pimenta acordou com tremores, extremidades geladas, boca arroxeada, enjoo intenso, vômitos e refluxo. Horas depois, surgiu diarreia, desidratação e sensação de desmaio. “Na emergência, fizeram uma tomografia e viram que meu estômago estava extremamente dilatado, como se tivesse três vezes o tamanho normal”, relata. Em seguida, ele precisou passar por drenagem com sonda nasogástrica ainda acordado para retirar alimentos e gases do estômago pelo nariz.
Embora ainda seja considerado um evento adverso raro em bula, uma pesquisa da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, concluiu que o risco de gastroparesia aumenta mais de três vezes entre usuários de análogos de GLP- 1. Já o risco de obstrução intestinal é mais de quatro vezes maior, enquanto o de pancreatite pode ultrapassar nove vezes o registrado entre pessoas que não utilizam esses medicamentos.
Enquanto isso, médicos tentam separar esses eventos graves de fenômenos ligados apenas à percepção visual do emagrecimento, como a chamada “cabeça de Ozempic” e o “pênis de Ozempic” – aparente aumento na face e órgão genital. Também há estudos ainda inconclusivos, feitos em roedores, sobre uma possível relação entre essas drogas e um tipo raro de câncer de tireoide, além de relatos de mau hálito associado a alterações salivares, tema que já levou o Conselho Federal de Odontologia a publicar orientações sobre o assunto.
Uma das frentes de investigação envolve ainda efeitos oculares, como visão borrada, dificuldade de foco e oscilações na qualidade visual. O que se sabe até agora é que essas alterações incomuns estão associadas a mudanças metabólicas. “Quando o paciente tem retinopatia diabética e está com a diabetes descompensada, temos que tomar cuidado, pois aumenta a incidência de perda de visão. Em outros casos, não há comprovação científica”, esclarece Elaine Dias.
O submundo das canetas
Os riscos aumentam ainda mais com a expansão de produtos falsificados, vendidos fora dos padrões regulatórios. Um dos casos de maior repercussão ocorreu no ano passado, quando Luana dos Santos Anastácio, de 40 anos, morreu três dias após receber a aplicação de um “Mounjaro alternativo” em uma clínica de estética de Guarujá, no litoral paulista.
Mais recentemente, em abril, a Receita Federal apreendeu no Paraná uma carga avaliada em cerca de R$ 500 mil em canetas emagrecedoras escondidas em potes de doce de leite. Além de problemas no transporte e armazenamento, muitos desses produtos são fabricados em condições inadequadas, sujeitas à contaminação por microrganismos e metais pesados.
O mercado paralelo também inclui manipulações ilegais em larga escala feitas por clínicas, empresas de telemedicina e farmácias. A Anvisa afirma que a prática só é permitida em casos restritos e individualizados e pretende endurecer as regras. Segundo a agência, o Brasil importou mais de 100 kg de insumos para tirzepatida entre novembro de 2025 e abril de 2026 – o suficiente para cerca de 20 milhões de doses manipuladas de 5 mg.
A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro – por ora, o único medicamento à base de tirzepatida autorizado no país –, demonstrou preocupação com versões manipuladas da substância, muitas vezes misturadas a vitamina B12 e outros compostos. “Estamos diante de uma crise sanitária, com milhões de pessoas sendo submetidas a produtos sem o rigor necessário de produção e controle de qualidade”, afirma Luiz Magno, diretor médico sênior. “Talvez, a única crise maior no Brasil tenha sido a da Covid-19.”
Magno também critica a prática das “microdoses”, que consiste no uso de manipulados com dosagens inferiores à mínima aprovada em bula (2,5 mg/0,5ml). Em alguns casos, os próprios usuários ajustam as doses pela contagem de “cliques” da caneta. “As pessoas confundem isso. A manipulação é autorizada no Brasil, desde que siga determinadas regras, mas muitas delas já não são cumpridas hoje”, afirma.
“Estamos diante de uma crise sanitária. [...] Talvez, a única crise maior no Brasil tenha sido a da Covid-19” — Luiz Magno, diretor médico da Eli Lily, sobre o uso de manipulados para emagrecer
A economia do emagrecimento
Enquanto irregularidades se espalham, o mercado das “canetas emagrecedoras” passa a influenciar hábitos de consumo e a própria economia global. Segundo o banco J.P. Morgan, o setor deve movimentar cerca de R$ 1 trilhão até 2030. Ao mesmo tempo, em- presas desenvolvem versões mais potentes, em pílulas ou novas injeções, com menos efeitos colaterais, menor perda muscular e benefícios adicionais, como maior proteção cardiovascular.
A disputa pelos medicamentos para perda de peso já afeta tanto o mercado financeiro quanto o consumo. Em fevereiro de 2026, as ações da Novo Nordisk caíram mais de 15% após a empresa anunciar que sua injeção experimental CagriSema apresentou perda de peso inferior à do Mounjaro, da rival Eli Lilly.
A corrida pela criação de opções mais baratas das canetas para emagrecer também segue firme. Em maio deste ano, a Anvisa autorizou o registro do Ozivy, primeira versão brasileira da semaglutida, mesmo princípio ativo do Ozempic, que teve a patente derrubada em março. O medicamento é fabricado pela farmacêutica EMS, que entrou com o pedido ainda em 2023 e deve começar as vendas em agosto deste ano.
O lançamento não deve ser o único: mais de uma dezena de pedidos para produção e importação de semaglutida aguardam avaliação da Anvisa. A agência anunciou que vai conceder no máximo três autorizações por semestre.
A popularização dos remédios injetáveis – muitas vezes acompanhada de desinformação – já impacta também a procura por cirurgias bariátricas, pontua o cirurgião bariátrico César De Fazzio, fundador do Instituto de Cirurgia Digestiva. O Brasil é o segundo país que mais realiza esse procedimento, atrás apenas dos Estados Unidos: no final de 2025, mais de 6 milhões de brasileiros aguardavam cirurgias do tipo.
Segundo explica De Fazzio, os dois caminhos não são rivais. Em muitos casos, as injeções funcionam como aliadas: ajudam na perda de peso antes da cirurgia ou evitam novas intervenções no pós -operatório. “Muita gente acha que é só tomar caneta, é só fazer cirurgia e está resolvido. Não, você precisa de um acompanhamen- to a longo prazo para esse paciente ficar bem”, destaca.
Para além do viés econômico, as mudanças na busca por emagrecimento também começam a impactar hábitos alimentares: contratos futuros do açúcar bruto de cana em Nova York atingiram o menor nível em mais de cinco anos após analistas associarem a queda ao avanço desses medicamentos e à redução no consumo de açúcar.
Pesquisas recentes indicam ainda que usuários de análogos de GLP-1 passaram a cozinhar mais em casa e diminuir o consumo de álcool. Os impactos chegam até em setores menos óbvios, como na aviação, com um estudo do banco Jefferies estimando que o emagrecimento dos passageiros de avião poderia economizar até US$ 580 milhões anuais em combustível para as quatro maiores companhias aéreas dos Estados Unidos.
Outra consequência é ambiental. O descarte inadequado das canetas tem contaminado solo e água e aumentado os riscos para trabalhadores da coleta e reciclagem. Só no Distrito Federal, quase 1,5 tonelada de materiais ligados a medicamentos injetáveis foi descartada incorretamente em lixo reciclável entre 2024 e 2025. No ano passado, foram registrados 137 acidentes com perfurocortantes entre coletores em São Paulo, 58 em Belo Horizonte e 28 no Rio de Janeiro.
Embora a Anvisa classifique as canetas como resíduos perfurocortantes, ainda não há regra que obrigue farmácias e serviços de saúde a manter pontos de coleta. Em abril, a ABES-SP (Associação Brasileira de Engenharia Sanitaria e Ambiental - Seção São Paulo) reforçou a necessidade de regulamentar pontos de entrega para descarte seguro desses materiais.
Cura da obesidade?
Para a endocrinologista Elaine Dias, o principal limite de um futuro com as novas drogas para emagrecimento é a desigualdade social. Não por acaso, apenas 7% dos pacientes com diabetes e 2% da população mundial com obesidade faz uso dessas terapias, que no Brasil podem custar entre R$ 1.400 e R$ 4 mil por mês. Embora o Ministério da Saúde avalie a incorporação desses tratamentos ao SUS e iniciativas-piloto já avancem em algumas redes públicas, como no Rio de Janeiro, o acesso ainda é limitado.“A obesidade cresce principalmente em pessoas classe C e D, porque comida saudável é cara e comida ultrapro- cessada é barata”, afirma.
Ela lembra que, apesar do avanço das canetas, grande parte do sistema público ainda depen-de de tratamentos antigos. “Quando comecei na endocrinologia, a gente tinha sibutramina, femproporex, anfepramona, medicamentos que causaram muitos efeitos colaterais. E, por incrível que pareça, em hospitais de referência, quando acaba Ozempic ou Wegovy, a gente volta para a sibutramina. Evoluímos, mas o sistema público brasileiro ainda trata obesidade como há 20 anos”.
A endocrinologista Simone van de Sande Lee acredita que esse cenário pode começar a mudar com a atual chegada de novas marcas de semaglutida após a expiração da patente da substância, o que tende a reduzir custos. Ela também cita o desenvolvimento de comprimidos com ação semelhante às canetas, mas sem necessidade de refrigeração ou restrições de uso em jejum, o que pode facilitar a produção e ampliar o acesso.
Especialistas ponderam, todavia, que os medicamentos podem ser ferramentas de auxílio, mas isoladamente não eliminam as causas mais profundas da obesidade, como a genética e o estilo de vida contemporâneo. Quando o tratamento é interrompido, parte dos pacientes volta a ganhar peso: Oprah Winfrey, por exemplo, perdeu 23 kg com o tratamento iniciado em 2023, mas recuperou 9 kg depois de interromper o uso em 2025.
O chamado “efeito rebote”, porém, não é exclusivo das canetas. Após a cirurgia bariátrica, por exemplo, é esperado um reganho de cerca de 10% do peso perdido após 18 meses, como parte da adaptação do organismo. No caso das medicações, uma revisão de 37 estudos com mais de 9 mil participantes indica que a recuperação do peso pode ocorrer até quatro vezes mais rápido do que em dietas convencionais.
Para o cirurgião bariátrico César De Fazzio, as canetas representam um avanço importante no combate ao excesso de peso, mas exigem cautela diante do uso indiscriminado e de possíveis consequências à saúde. “É uma ferramenta que vai ajudar muito no combate à obesidade, que já é uma epidemia. Mas realmente a gente tem que ter cuidado e controle para não causar outras epidemias decorrentes desse tratamento”, diz.
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