O que acontece com a proteína quando você cozinha demais? Estudo encontra efeito inesperado

Publicado em 17/09/2026, às 20h33
- Reprodução

Galileu

Cozinhar os alimentos trouxe uma série de vantagens para os seres humanos: além de facilitar a digestão, o processo pode eliminar microrganismos prejudiciais e até deixar a comida mais saborosa. Quando o assunto é proteína, no entanto, exagerar no calor pode provocar mudanças capazes de reduzir seu valor nutricional, segundo um novo estudo da Universidade de Quioto, no Japão.

LEIA TAMBÉM

Publicado na revista npj Science of Food, o trabalho investigou o que acontece quando proteínas submetidas a altas temperaturas são consumidas durante um período prolongado. Embora cientistas já suspeitassem que esse tipo de processamento pudesse contribuir para deficiências nutricionais, ainda não estava claro como a ingestão contínua dessas proteínas poderia afetar respostas fisiológicas e comportamentais.

“O que acontece com as moléculas derivadas dos alimentos depois que as ingerimos?”, questionou Tomoko T. Asai, primeira autora do estudo, em comunicado. Segundo a pesquisadora, a intenção era descobrir se o processamento dos alimentos poderia modificar tanto a absorção das proteínas quanto seus efeitos biológicos.

Teste com proteína de soja

Para investigar a questão, os pesquisadores prepararam uma solução aquosa com 10% de proteína isolada de soja e a aqueceram a 121°C durante 20 minutos. Em seguida, realizaram uma digestão in vitro (técnica que simula o processo digestivo humano ou animal) para analisar a composição de aminoácidos e a digestibilidade do material.

Depois de avaliar as mudanças provocadas pelo aquecimento, a equipe forneceu a proteína tratada a camundongos durante seis semanas e acompanhou os efeitos fisiológicos e comportamentais da dieta.

Os resultados mostraram que o tratamento térmico de 20 minutos reduziu os níveis de aminoácidos e aumentou a quantidade de proteínas insolúveis e de peptídeos solúveis maiores presentes no isolado de soja.

Nos animais, isso se refletiu em níveis mais baixos de aminoácidos no sangue, indicando uma redução da biodisponibilidade — ou seja, da quantidade dessas substâncias que pode ser absorvida e usada pelo organismo.

“Claramente, a mesma quantidade de proteína nem sempre significa a mesma disponibilidade nutricional”, afirmou Asai.

Efeitos além da nutrição

As consequências observadas não ficaram restritas à disponibilidade de aminoácidos. A dieta com proteína de soja submetida ao calor também reduziu os níveis periféricos de serotonina (quantidade de serotonina que circula fora do sistema nervoso central) dos camundongos e alterou o chamado comportamento de novidade social, relacionado à maneira como os animais respondem a indivíduos desconhecidos.

Outros comportamentos avaliados, como ansiedade e sociabilidade, não apresentaram alterações. Ainda assim, os pesquisadores se surpreenderam ao identificar mudanças na resposta à novidade social.

Os achados indicam que o aquecimento intenso durante o processamento de alimentos pode não apenas diminuir a disponibilidade de aminoácidos e a digestibilidade das proteínas, mas também produzir efeitos fisiológicos e comportamentais mais amplos — ao menos nas condições avaliadas em camundongos.

Agora, os cientistas pretendem identificar com mais precisão quais alterações ocorrem nas proteínas quando elas são submetidas a temperaturas elevadas.
A equipe também quer investigar condições de processamento que possam diminuir esses efeitos sem comprometer a segurança dos alimentos.

Gostou? Compartilhe

LEIA MAIS

HPV: dose é indicada a vítimas de violência sexual a partir de 2 anos Anvisa vai abrir consultas públicas sobre imagens de alerta em cigarro Hospital do Idoso de Alagoas entra em funcionamento com diversas especialidades médicas Ministério da Saúde vai ofertar pneumo20 para quem tem mais de 85 anos