Revista Crescer
Tudo começou com um bilhetinho imaginário. Quando Joana Sepreny se formou em psicologia, carregava uma vontade muito clara: trabalhar com gestantes e bebês pequenos. Só que, na época, a psicologia perinatal ainda não era um campo reconhecido no Brasil, e ela não sabia bem como colocar esse desejo em prática. Guardou a ideia, foi para a área infantil, atendeu crianças, fez orientação de pais, trabalhou em escolas e hospitais. Até que duas coisas aconteceram ao mesmo tempo: uma amiga londrina mencionou um curso chamado HypnoBirthing, e a irmã de Joana ficou grávida e pediu que ela a acompanhasse no parto. Ali, a gavetinha abriu.
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O curso que a amiga havia descrito existia em Londres. Joana fez a mala, foi até lá — ainda sem estar grávida — e se formou na metodologia. Quando voltou ao Brasil, começou a atender mulheres em grupos e sessões individuais, e logo percebeu que precisava de mais: a parte emocional que o HypnoBirthing não cobria inteiramente era exatamente onde sua psicologia entrava.
A formação em psicologia perinatal veio logo depois e foi assim que Joana construiu uma abordagem própria, que une técnica, ciência e cuidado emocional numa única proposta para acompanhar a mulher do começo da gestação ao puerpério.
O que é HypnoBirthing e quando começar
Ao contrário do que muita gente imagina, o HypnoBirthing não é uma técnica restrita ao momento do parto. É um preparo que começa desde o início da gestação e vai até o puerpério, cobrindo desde respiração e relaxamento até a compreensão de como o corpo funciona no trabalho de parto, quais são suas fases e o que esperar em cada uma delas.
"Desde a hora que você engravida, começam as transformações no seu corpo. Desde esse primeiro momento você deve começar a se preparar", diz Joana.
O método foi desenvolvido por Marie F. Mongan, fundadora e criadora do Instituto HypnoBirthing. No entanto, elas se baseou nas filosofias e publicações de pioneiros do parto natural, como o Dr. Gregory White e a Dra. Gantly Dick-Read.
Um ponto importante é que a metodologia parte de um princípio simples: a maioria dos medos relacionados ao parto vem do desconhecido. Quando a mulher entende o que está acontecendo no próprio corpo, o medo vai diminuindo. "A gente tem mais medo daquilo que não conhece. Quando você já conhece, quando você entende, esse medo vai baixando."
A preparação envolve técnicas de respiração profunda, exercícios de relaxamento e um trabalho de escuta ativa dos próprios medos. Joana costuma pedir que as mulheres escrevam e falem sobre tudo o que as assusta em relação à gestação, ao parto e ao pós-parto.
"A gente vai conversar depois sobre esses medos e tentar dissolver um pouco, entender de onde eles vêm." Na prática, a comparação que ela usa é com qualquer treino físico: assim como ninguém começa a correr e já faz uma maratona, o corpo precisa de tempo para aprender a relaxar, a respirar de forma mais profunda, a soltar a tensão acumulada.
A psicologia que entrou pelo que faltava
O que Joana trouxe de diferente para o método foi justamente a dimensão emocional. Em grupos com gestantes, ela via mulheres que queriam falar mas não conseguiam, que sentiam vergonha de admitir que a gravidez estava sendo difícil, que tinham medo de "estragar a alegria de todo mundo".
"Eu tô grávida, mas estou me sentindo feia, enjoada, cansada, emocionalmente bagunçada e não posso falar isso para ninguém, porque todo mundo tão feliz", é o tipo de relato que ela escuta com frequência.
A resposta que essas mulheres, geralmente, recebem quando tentam se abrir é exatamente o que as faz calar: "não fala assim, imagina, você tá linda, o bebê tá bem, você tem que ficar feliz."
O espaço terapêutico que Joana cria, seja individual ou em grupo, é o oposto disso. "Ela pode se expressar exatamente da forma que ela tava se sentindo e se sentiu acolhida, não só pela terapeuta, mas também pelas colegas ali."
Essa parte do trabalho tem impacto direto no puerpério. Joana é enfática: mulheres que trabalham o emocional durante a gestação têm pós-partos mais leves. Não porque o puerpério seja simples, mas porque elas chegam nele com mais recursos, mais consciência e mais ferramentas para atravessar o que vier. "Os pacientes que eu tenho desde o começo da gestação até o puerpério têm puerpérios muito mais leves."
As famosas que abriram as portas
A primeira aluna famosa de Joana chegou numa das primeiras turmas depois que ela voltou de uma pequena pausa para ser mãe. Foi Gabriela Morais, antes conhecida como Gabriela Pugliesi, influenciadora e empresária, que abraçou a metodologia e falou sobre ela abertamente. "Ela realmente gostou muito e vestiu a camisa. Quando ela deu o relato de parto, foi incrível." A partir dali, outras mulheres públicas foram chegando.
Uma das histórias mais marcantes foi a da modelo Flávia Lucini, amiga próxima de Joana, que pediu que ela a acompanhasse como doula. A preparação foi feita em conjunto com o marido, o ator Leandro Lima, e o parto aconteceu de uma forma que ninguém esperava: no carro de Joana, a caminho do hospital.
Toni, o filho de Flávia, nasceu ali, com Joana atrás, no banco traseiro, enquanto Leandro dirigia com calma. "Ela estava de quatro apoios no carro e eu estava atrás dela. Passou a primeira esquina, o Toni nasceu." O mais impressionante não foi a circunstância, mas o estado em que Flávia estava. "Ela ficou tranquila e falava: amiga, ele vai nascer, eu estou tão feliz. Por mim, eu voltava para casa", relembra Joana.
Esse episódio virou um símbolo do que o preparo pode fazer por uma mulher. Uma situação que poderia ter sido de pânico absoluto tornou-se um momento sereno e até alegre. "Se uma paciente chega com muitos medos, sem saber o que tá acontecendo, desesperada em pânico, para o médico acalmá-la naquele momento vai ser muito mais difícil", explica Joana.
Não à toa, os próprios obstetras têm procurado entender o método depois que as pacientes chegam às consultas notoriamente mais tranquilas.
O parto de Maya e o que mudou depois dele
Joana sabia muito da teoria. O parto da própria filha, Maya, hoje com cinco anos, ensinou o que nenhuma formação consegue: como é viver aquilo de dentro. "Nada como passar pela prática. A mesma coisa da terapia: uma psicóloga que não faz terapia não consegue lidar com as suas questões."
O parto de Maya não foi rápido nem sem sensações: Joana sentiu as contrações, viveu cada fase. Mas sentir de forma consciente e presente foi parte da experiência. O marido entrou na banheira com ela, a equipe médica ficou ao redor apenas observando, e Maya foi recebida pelas mãos dos dois. "Foi muito lindo."
O que mudou depois desse parto, conta Joana, foi a forma de olhar para o inesperado. Nem sempre o parto acontece como planejado. Mas, quando a mulher chega preparada emocionalmente, ela consegue receber o que vier com muito mais leveza. "Os bebês deveriam vir ao mundo de uma forma mais gentil, suave, tranquila e feliz, independente da via do parto."
Hoje, Joana atende em formato de grupos ao vivo, sessões individuais e também através de um curso gravado, disponível numa plataforma online com acompanhamento mensal. Quem está esperando um filho, em qualquer parte do mundo, pode acessar.
O próximo sonho é fazer a reciclagem em Londres e, eventualmente, tornar-se formadora, para que outros profissionais de saúde no Brasil possam aplicar o método. "Tenho essa vontade de formar mais pessoas aqui com a metodologia. Só profissionais de saúde podem entrar, como médicos, enfermeiros, psicólogos, doulas. Precisamos trazer colocar uma lupa no acompanhamento da gestante. Preocupar tanto com o físico, mas também com o mental dessa mãe, desse pai, dessa família que está se formando."
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