O Tempo
Filhos de celebridades crescem sob uma lente de comparação permanente. Deles pode ser esperada a repetição da carreira, da imagem e do repertório estético que consagrou seus sobrenomes. Entre as nepo babies mais observadas de hoje, porém, o estilo funciona menos como continuidade e mais como edição: uma forma de filtrar o legado recebido e convertê-lo em presença autoral.
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North West, de 13 anos, filha de Kim Kardashian e Kanye West, talvez seja o exemplo mais nítido de deslocamento. Enquanto Kim consolidou uma estética fundada na neutralidade, na sensualidade controlada e no acabamento impecável, North prefere cabelos coloridos, referências punk, acessórios de impacto, unhas gráficas e uma atitude alinhada às subculturas digitais. Para Carlos Moura, maquiador e diretor criativo, a força está justamente na recusa de parecer uma versão juvenil da mãe: “Ela cresceu dentro de um dos maiores impérios de imagem do mundo, mas escolheu outros códigos. O estilo dela comunica provocação, personalidade e uma vontade muito clara de ser reconhecida por uma linguagem própria.”
Blue Ivy Carter, de 14 anos, filha de Beyoncé e Jay-Z, segue pela via oposta. Sua imagem é mais contida, desenhada entre grandes palcos, eventos e aparições em família, com tranças longas, cachos volumosos, maquiagem discreta e uma postura segura. Para Carlos, “Blue não precisa de excesso para ocupar o centro. O cabelo, a presença e a forma como ela sustenta cada aparição já comunicam força. Existe uma disciplina visual que lembra Beyoncé, mas em uma versão mais silenciosa.”
A distância entre as duas está menos no nível de exposição e mais na maneira de encená-la. North aposta no impacto imediato; Blue trabalha permanência e controle. Como resume o maquiador, “uma provoca pela imagem, a outra domina pela contenção. Nos dois casos, o estilo funciona como uma maneira de dizer quem elas são antes mesmo de qualquer fala.”
Lily-Rose Depp, de 27 anos, filha de Vanessa Paradis e Johnny Depp, converteu referências familiares extremamente reconhecíveis em uma assinatura de beleza particular. Sua imagem reúne pele luminosa, olhos esfumados, lábios menos definidos e um encontro entre a elegância francesa e um romantismo gótico. Na leitura de Carlos, “ela preserva o frescor e o magnetismo da mãe, mas acrescenta uma beleza mais imperfeita, misteriosa e contemporânea. A aparente falta de esforço é, na verdade, muito bem construída.”
Sasha Meneghel, também de 27 anos, encontrou sua marca por outra via. Filha de Xuxa, uma das imagens mais expansivas e coloridas da televisão brasileira, Sasha passou a construir uma presença pautada por alfaiataria limpa, maquiagem discreta, cabelo polido, tons sóbrios e uma postura mais silenciosa. Sua atuação na moda reforça essa direção. Para Carlos Moura, “Sasha não tenta competir com o impacto visual da mãe. Ela trabalha precisão, contenção e coerência. O estilo aparece justamente na forma como reduz o excesso e transforma discrição em assinatura.”
O sobrenome pode garantir o primeiro olhar, mas raramente sustenta sozinho uma imagem memorável. O que distingue essas nepo babies é a maneira como cada uma administra o repertório que recebeu, às vezes por contraste, às vezes por refinamento, às vezes por silêncio. Como conclui Carlos Moura, “quando o público deixa de enxergar apenas a filha de alguém e começa a reconhecer cabelo, maquiagem, postura e atitude como parte de uma assinatura, o estilo já cumpriu seu papel”. A partir daí, o sobrenome deixa de ser moldura e passa a ser apenas contexto.
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