O paradoxo: receita recorde, operação deficitária
Por trás dos números brilhantes, esconde-se a contradição central do futebol brasileiro.
Quando se retiram as receitas não recorrentes, como vendas de jogadores e premiações
internacionais, a receita recorrente do setor foi de 9,5 bilhões de reais. E o alerta do
Relatório Convocados é duro: os custos e despesas das equipes da Série A representaram
108% dessas receitas recorrentes. Em outras palavras, a operação do dia a dia é deficitária
e só fecha as contas com a venda de atletas.
Esse é o ciclo conhecido e vicioso do futebol nacional. Quando um time engrena e revela
bons jogadores, suas principais peças são negociadas para sanar o caixa. Sem elenco, o time
perde competitividade, e o processo recomeça com a próxima safra de jovens. O
endividamento líquido dos clubes alcançou 14,3 bilhões de reais, com uma dívida tributária
de 4,5 bilhões, mostrando que a saúde financeira ainda é frágil apesar do crescimento.
Um mercado que virou de mão dupla
A grande virada cultural e econômica, porém, é o surgimento de um fluxo bidirecional.
Historicamente apenas exportador, o Brasil passou a repatriar e atrair talentos em seu
auge. O Flamengo trouxe de volta Paquetá, que havia rodado por Milan, Lyon e West Ham.
Vitor Roque retornou para o Palmeiras por 25,5 milhões de euros, tornando-se a
contratação mais cara da história do Brasileirão. Oscar voltou ao São Paulo, e Philippe
Boa parte dessa transformação se explica pela Lei da SAF, a Sociedade Anônima do Futebol,
aprovada em 2021 e plenamente operacional a partir de 2023. O novo modelo permitiu que
clubes como Flamengo, Botafogo, Cruzeiro e Vasco reestruturassem dívidas, atraíssem
investidores e passassem a operar com critérios de empresa. O resultado é um Brasileirão
mais rico e competitivo, capaz de segurar talentos por mais tempo e até de disputar
contratações com clubes europeus de segunda linha.
Toda essa pujança se reflete no valor dos elencos. Os 655 atletas da Série A somavam cerca
de 2,5 bilhões de euros, o equivalente a 14 bilhões de reais. O jogador mais valioso do
campeonato era o jovem Estêvão, avaliado em cerca de 51,8 milhões de euros antes de se
transferir ao Chelsea, um símbolo da nova geração que faz o Brasil seguir relevante.
Curiosamente, Neymar, de volta ao Santos, aparecia apenas na nona posição, avaliado em
torno de 15 milhões de euros, prova de que o futuro já pertence aos garotos.
Em campo, o Flamengo foi o campeão de 2025, em um torneio com média de público de
mais de 26 mil torcedores por jogo e quase mil gols marcados ao longo de 380 partidas.
Uma potência em transição