O sintoma que Titina Medeiros teve antes do diagnóstico do câncer de pâncreas

Publicado em 15/01/2026, às 16h20
- Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

Revista Quem

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Raildon Lucena, amigo de Titina Medeiros, que morreu aos 48 anos de idade no domingo (11), em decorrência de complicações de um câncer de pâncreas, diagnosticado em abril de 2025, contou no velório da atriz que, antes do diagnóstico, ela confidenciou que vinha sentindo dores constantes nas costas. A artista optou por se resguardar durante todo o tratamento e preferiu manter doença em segredo da mídia.

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"No começo do ano passado, a gente ia para o Crato, no Ceará, em um festival. E ela não foi porque estava sentindo dores na coluna. Aí depois ela compartilhou comigo que buscou o médico e que estava com a suspeita [de câncer], né? Acho que só veio confirmar no quinto exame. Dei muita força para ela, falei meu depoimento, que eu tinha superado um câncer, que, na época, disseram que eu tinha pouco tempo, dois anos [de vida]. Mas consegui superar. A gente tinha muita esperança", contou ele na despedida da artista.

Para entender como a dor nas costas pode estar associada ao câncer de pâncreas, Quem conversou com a oncologista Clarissa Baldotto, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC). De acordo com a médica, a dor abdominal ou nas costas associada ao câncer de pâncreas pode se confundir com diversas doenças mais comuns.


O principal sinal de alerta é quando se trata de uma dor persistente, que não melhora com o tempo, aumenta de intensidade, não responde bem a analgésicos leves e não está claramente relacionada ao movimento. A atenção deve ser redobrada quando esse sintoma vem acompanhado de náuseas, vômitos, emagrecimento inexplicado e coloração amarelada da pele e dos olhos (icterícia). Nessas situações, é fundamental buscar uma avaliação médica especializada.

A especialista afirma que o grande desafio do câncer de pâncreas é que, em sua fase inicial, ele geralmente não provoca sintomas. Por estar localizado profundamente no abdome, o tumor só começa a causar sinais à medida que cresce. Esses sintomas, contudo, costumam ser inespecíficos e facilmente confundidos com problemas comuns, como gastrite, hérnia de disco ou dores na coluna, especialmente em pacientes mais velhos — faixa etária em que a doença é mais frequente.


Náuseas, desconforto abdominal e dores nas costas podem ser interpretados como infecções intestinais ou alterações musculoesqueléticas. O que costuma chamar mais atenção é quando há dor intensa, emagrecimento acentuado e icterícia, sinal de obstrução do canal da bile, que passa pelo pâncreas.

A oncologista alerta ainda para um problema frequente: pacientes que procuram repetidamente serviços de emergência são atendidos por médicos diferentes e acabam sem um acompanhamento contínuo, o que dificulta perceber que se trata de uma dor progressiva, persistente e associada a outros sintomas. Por isso, ela reforça: se a dor persiste mesmo após avaliação ortopédica, é importante continuar investigando.

Quem: Em que situações a dor persistente na coluna pode estar relacionada ao câncer de pâncreas e não a um problema ortopédico comum?


Clarissa Baldotto: A dor abdominal ou a dor nas costas que pode estar associada ao câncer de pâncreas também pode aparecer em várias outras doenças. O que as pessoas precisam observar é principalmente quando se trata de uma dor persistente, que não melhora com o tempo, que vai aumentando de intensidade, que não melhora com o movimento ou que vem acompanhada de outros sintomas, como náusea, vômito, emagrecimento e uma coloração amarelada da pele, que chamamos de icterícia. Esses são sinais de alerta que devem levar o paciente a procurar uma avaliação mais especializada.


Quem: Existe alguma característica dessa dor — intensidade, localização ou duração — que costuma chamar mais atenção dos oncologistas?


Clarissa Baldotto: Como eu mencionei, são essas características: dor persistente, dor muito intensa, com dificuldade de melhora mesmo com analgésicos mais leves e comuns, e que piora à noite, principalmente ao deitar. A atenção deve ser redobrada quando essa dor vem acompanhada de outros sintomas, como icterícia, emagrecimento, náusea, vômito e perda de apetite.

Quem: Quais são os sintomas iniciais mais comuns do câncer de pâncreas que frequentemente passam despercebidos ou são confundidos com outras doenças?


Clarissa Baldotto: Os sintomas que costumam ser confundidos são justamente esses que já mencionei. O grande problema do câncer de pâncreas é que, no início da doença, ele geralmente não causa sintomas. É um órgão que fica muito escondido no abdome e, quando o tumor é pequeno, costuma não gerar nenhum sinal.


À medida que ele cresce, os sintomas acabam sendo muito semelhantes aos de doenças mais comuns na população. Pode, por exemplo, simular uma gastrite, uma hérnia de disco ou uma dor na coluna — algo frequente com o envelhecimento. O câncer de pâncreas é mais comum em pacientes mais velhos, que muitas vezes já apresentam dores na coluna.

Também pode causar náusea, um sintoma que pode ser associado a uma infecção intestinal.
O que normalmente chama mais atenção é quando a dor é muito intensa, o paciente perde peso de forma significativa e apresenta a pele amarelada, que é a icterícia. Esse sinal indica o entupimento do canal da bile, que passa dentro do pâncreas, e costuma levar o médico a suspeitar mais rapidamente.


Por isso, é importante ficar atento. Muitos pacientes procuram várias vezes a emergência por dor e, a cada vez, são atendidos por um médico diferente. Assim, nem sempre é possível perceber que se trata de uma dor persistente, que dura mais de um mês, está se agravando e vem acompanhada de outros sintomas. Eu sempre orienta os pacientes: se você está com uma dor persistente, foi ao ortopedista, ele suspeitou de um problema de coluna, mas a dor continua, siga investigando. Não se contente com apenas um diagnóstico quando o sintoma persiste ou vem associado a outros sinais.


Quem: Em que momento a dor nas costas deixa de ser considerada "normal" e passa a exigir uma investigação mais aprofundada?


Clarissa Baldotto: Apenas pelas características da dor, nem sempre é possível diferenciar, porque elas podem ser muito parecidas. O pâncreas fica muito próximo da coluna, e por isso a dor pode se confundir. Dores relacionadas ao movimento costumam estar mais associadas a problemas ortopédicos. Dores mais leves, que melhoram com analgésicos simples, também geralmente têm essa origem.

Mas não é possível diferenciar totalmente. O que chama atenção é a persistência da dor, especialmente quando se considera a idade do paciente e a associação com outros sintomas, como perda de peso, alteração da cor da pele e dos olhos, além da duração da dor por mais de quatro a seis semanas. Isso normalmente é o que nos faz suspeitar. O recado principal é: se o sintoma é persistente, é muito importante ter acompanhamento médico para que se chegue às conclusões adequadas no tempo certo.


Quem: Existem perfis de pacientes que devem ficar mais atentos a sintomas aparentemente banais?


Clarissa Baldotto: Os fatores de risco para o câncer de pâncreas estão muito relacionados aos hábitos de vida, como tipo de alimentação e tabagismo, além da idade. Também é importante ficar atento quando os sintomas são persistentes. Outro fator de risco relevante é a história familiar.

Existem alguns tipos de câncer hereditários. Esse não é o fator de risco mais comum para o câncer de pâncreas, mas há famílias com mutações genéticas que aumentam o risco da doença.

Por isso, quando o paciente vai ao médico, é importante investigar a história familiar de câncer. Hoje, esse risco pode ser identificado por exames de sangue simples. Esses pacientes têm um acompanhamento diferente, com rastreamento mais intenso, algo que não é indicado para a população geral.

Diferentemente do que acontece com câncer de mama, de intestino ou de colo do útero, não há recomendação de rastreamento populacional para o câncer de pâncreas.


Quem: Histórico familiar, idade ou hábitos de vida influenciam na atenção que esses sinais devem receber?


Clarissa Baldotto: Sim. A história familiar, a idade e os hábitos de vida influenciam diretamente a forma como o médico avalia os sintomas. Uma pessoa de 20 anos com dor persistente tem uma probabilidade muito menor de câncer de pâncreas do que alguém de 70 anos.

O médico leva tudo isso em consideração. Mas, como eu disse, o mais importante é ter um seguimento médico adequado para que, caso o sintoma persista ou surjam outros sinais de alerta, isso não seja negligenciado.

Quem: Há exames específicos que ajudam a diferenciar uma dor de origem muscular de uma dor relacionada a um tumor?


Clarissa Baldotto: Esse é um desafio, porque o pâncreas é um órgão muito escondido no abdome, e nem todo exame de imagem consegue visualizá-lo adequadamente. Os exames mais utilizados são o ultrassom de abdome, que não avalia bem o pâncreas, mas ajuda a fazer o diagnóstico diferencial com outras doenças que causam sintomas semelhantes, como cálculos ou inflamações da vesícula, que são muito comuns.


A tomografia de abdome, especialmente com contraste, e a ressonância magnética são exames que ajudam bastante a visualizar melhor o pâncreas. Após o diagnóstico do câncer de pâncreas, outros exames podem ser indicados, como o PET Scan e a endoscopia.


Existe também uma endoscopia específica, que associa o endoscópio à ultrassonografia interna, permitindo avaliar o pâncreas por dentro e realizar a biópsia. A partir disso, é possível indicar o melhor tratamento, que varia de acordo com a localização, o tipo e a extensão do tumor — se ele está restrito ao pâncreas ou se já acometeu outros órgãos.


O tratamento pode envolver cirurgia, quimioterapia e radioterapia, dependendo também da idade do paciente e das condições clínicas para suportar essas abordagens. Em muitos casos, indicamos ainda testes genéticos, que ajudam tanto a investigar a história familiar quanto a guiar o tratamento.
 

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