Tulio Kruse e André Fleury Moraes / Folhapress
Comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo, o coronel José Augusto Coutinho disse nesta quarta-feira (18) que a prisão do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto é uma mácula na imagem da corporação.
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"Obviamente a PM sai maculada disso. Um de seus integrantes está preso preventivamente acusado de feminicídio", afirmou. "Ainda assim", continuou Coutinho, "a gente corta na própria carne para mostrar que não há diferenciações quanto ao autor do crime".
As declarações foram dadas durante entrevista concedida pela cúpula da SSP (Secretaria de Segurança Pública) horas após a prisão de Geraldo Leite, detido na manhã desta quarta-feira sob a suspeita de assassinar a soldado Gisele Alves Santana, 32, com quem era casado.
Ao lado do comandante-geral estava o número 2 da SSP, o coronel Henguel Ricardo Pereira, para quem este talvez seja o primeiro caso de feminicídio envolvendo um oficial que ocupa um alto posto da Polícia Militar. "É um caso emblemático, um caso que me chocou bastante", afirmou.
A prisão do oficial da PM foi decretada pela Justiça Militar a pedido da Corregedoria da PM de São Paulo, que apontou indícios de que o oficial da Polícia Militar tem envolvimento na morte da esposa.
Há ainda um outro pedido de prisão contra ele, este da Polícia Civil e endereçado à Justiça de São Paulo, que segue pendente de decisão.
A Folha de S.Paulo ligou e encaminhou mensagens ao advogado que defende o oficial da PM, mas não obteve retorno até a última atualização deste texto.
Na terça (17), ao ser questionada sobre o pedido de prisão feito pela Polícia Civil, a defesa declarou que Neto estava à disposição das autoridades. Afirmou também não ver elementos que justificassem eventual prisão preventiva (sem prazo).
Gisele foi encontrada morta com um tiro na cabeça na sala da casa em que o casal morava no Brás, região central de São Paulo, na manhã de 18 de fevereiro. O caso foi registrado inicialmente como suicídio, mas foi reclassificado como morte suspeita e depois como homicídio. Agora, é tratado como feminicídio.
O tenente-coronel foi quem chamou o resgate e a polícia no dia da ocorrência dizendo que a mulher havia atirado na própria cabeça.
O boletim de ocorrência elaborado no 8º DP (Brás) horas depois da morte, no entanto, já apontava que havia dúvidas sobre o que havia acontecido. O documento trouxe um aviso de que havia "dúvida razoável quanto a tratar-se de suicídio".
A mudança na classificação do caso ocorreu a partir de laudos periciais da cena do crime e informações do relacionamento conturbado do casal para o pedido de prisão, segundo a polícia.
Um exame de corpo de delito pelo IML (Instituto Médico Legal) identificou lesões no pescoço e no rosto de Gisele, indício que contraria a tese de suicídio. Além disso, policiais colheram relatos de comportamentos abusivos e violentos por parte do oficial da PM.
A perícia confirmou que as marcas no pescoço foram feitas por uma segunda pessoa, mas que Gisele não chegou a ser asfixiada antes do tiro.
As principais evidências contra o tenente-coronel envolvem a posição da arma, encaixada na mão do cadáver, algo incomum em casos de suicídio, segundo depoimento de um socorrista, e marcas de sangue no apartamento em local distante do ponto onde o corpo foi encontrado.
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