'OnlyFans de marmotas': cientistas recorrem a site de conteúdo adulto para salvar pesquisa com marmotas

Publicado em 24/07/2026, às 22h38
- Daniel Blumstein/Instituto de Meio Ambiente e Sustentabilidade/UCLA

Galileu

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Uma iniciativa inusitada criada pela Universidade da Califórnia em Los Angeles, nos Estados Unidos, transformou marmotas em verdadeiras estrelas da internet. Diante dos cortes no financiamento federal para a ciência no país, os pesquisadores responsáveis por um dos estudos mais longos do mundo sobre mamíferos silvestres lançaram uma página no OnlyFans — plataforma conhecida pela venda de conteúdo adulto exclusivo mediante assinatura — para divulgar vídeos dos animais e arrecadar recursos para a continuidade de suas pesquisas.

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Nomeado de "OnlyMarms", o projeto reúne imagens de marmotas-de-barriga-amarela (Marmota flaviventer) brincando, escavando tocas, carregando plantas e interagindo com seus filhotes. Mais do que levantar dinheiro, a iniciativa busca ampliar o interesse do público pela conservação da espécie e pelos efeitos das mudanças climáticas sobre a fauna das Montanhas Rochosas, no estado do americano do Colorado.

“Estamos tentando isso por frustração com um cenário de financiamento extremamente desafiador”, afirma Daniel Blumstein, professor de ecologia e biologia evolutiva e líder do projeto, em entrevista ao site Live Science. “Se tivermos sorte, isso pode ajudar a arrecadar dinheiro para suprimentos e algumas despesas, embora não substitua completamente o financiamento federal.”

Estudo atravessa gerações

O monitoramento das marmotas-de-barriga-amarela começou em 1962, no Laboratório Biológico das Montanhas Rochosas, próximo à cidade de Crested Butte, no Colorado. O trabalho acompanha animais identificados individualmente ao longo de décadas, permitindo aos cientistas entender mudanças no comportamento, na reprodução e na sobrevivência das populações.

Trata-se do segundo estudo contínuo mais antigo do mundo com mamíferos marcados individualmente, atrás apenas das pesquisas iniciadas pela primatóloga Jane Goodall com chimpanzés, na Tanzânia.

As marmotas pertencem ao grupo dos esquilos terrestres e podem atingir o tamanho de um gato doméstico. A espécie estudada vive em regiões montanhosas do oeste dos Estados Unidos, é ativa durante o dia e costuma viver em grupos, características que facilitam a observação científica.

Mudanças climáticas ameaçam população

A preocupação dos pesquisadores vai além da falta de recursos financeiros. No último inverno, mais de 100 marmotas monitoradas pelo projeto morreram, configurando a segunda maior mortalidade já registrada pela equipe.

“Tivemos a segunda maior mortandade de animais da nossa história. Estávamos monitorando cerca de 160 animais no final do ano passado, e esse número caiu para cerca de 60 no início deste ano”, lembra Blumstein ao 9NEWS.

Os cientistas acreditam que a baixa cobertura de neve tenha desempenhado um papel decisivo. Embora possa parecer contraditório, a neve funciona como uma espécie de isolante térmico natural durante a hibernação.

“Acreditamos que isso se deve principalmente ao fato de a camada de neve estar muito rasa, o que impediu a formação desse isolamento térmico”, explica Katie Adler, colaboradora do projeto, ao 9NEWS.

Para além disso, a seca registrada no Colorado reduziu a disponibilidade de vegetação. Como as marmotas obtêm grande parte da água a partir das plantas que consomem, alterações no ambiente podem comprometer diretamente sua sobrevivência.

Ciência, criatividade e engajamento

Apesar do nome provocativo e do estigma associado à pornografia do Onlyfans, o OnlyMarms oferece apenas conteúdo apropriado para todas as idades. “É quase todo conteúdo livre: marmotas brincando, sendo fofas, cavando e levando plantas para suas tocas. Uma briga ocasional acrescenta um pouco de emoção”, brinca Blumstein.

Até o momento, os resultados financeiros são modestos. A página registrou centenas de visitas e algumas dezenas de seguidores, mas arrecadou pouco dinheiro. Ainda assim, a equipe considera a iniciativa bem-sucedida por aproximar o público do trabalho científico.

“Esta pode ser uma maneira incrível de ensinar as pessoas mais sobre o comportamento social dos animais, algo que às vezes é difícil de observar”, indica Emily Renkey, também colaboradora da iniciativa. “Até nós estamos aprendendo mais sobre as marmotas graças às imagens captadas pelas câmeras.”

O grupo também investe em outras estratégias de divulgação, como um concurso anual chamado "Semana da Marmota Gorda", que premia simbolicamente o animal que ganhou mais peso antes da hibernação.

“Não deveríamos ter que criar uma conta no OnlyFans para nossas marmotas para conseguir financiamento. Mas é a situação em que nos encontramos. Precisamos encontrar maneiras criativas de financiar este projeto”, observa Renkey.

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