A apenas seis meses da eleição que escolherá futuro presidente da República, o Brasil assiste, até agora inerte, às propostas dos principais concorrentes ao cargo.
Até agora, nenhuma delas despertou nos brasileiros a certeza de que, enfim, vamos ter alguma coisa de concreto que nos leve a um país melhor.
Se o governo se mostra incapaz de propor algo consistente, a oposição também não oferece até agora algo que transmita credibilidade, confiança e otimismo.
Texto do jornal "O Estado de São Paulo":
"Estamos acompanhando nos últimos dias a entediante novela da escolha do candidato do PSD à Presidência da República.
Em razão dos prazos eleitorais, estamos prestes a saber quem será o ungido de Gilberto Kassab, se o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, ou o governador de Goiás, Ronaldo Caiado – o terceiro postulante nessa disputa, o governador do Paraná, Ratinho Jr., tido como favorito de Kassab e mais bem colocado nas pesquisas, desistiu em razão de problemas políticos paroquiais a administrar.
Quem quer que vá para a disputa, no entanto, já sabe que terá chances remotíssimas ante a cada vez mais cristalizada polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro. Ainda assim, ou talvez até por isso mesmo, qualquer candidatura alternativa de centro precisa se diferenciar decisivamente de Lula e Bolsonaro, que não disputam a eleição senão para satisfazer seus projetos pessoais de poder.
E essa diferenciação se dá justamente na oferta de um projeto factível e sólido de país, conduzido com base no diálogo com diferentes forças. Essa oferta pode não ser capaz de ganhar a eleição, mas ao menos deixará claro que há no País quem queira recuperar a capacidade de fazer política – longe do embate estéril entre as duas forças retrógradas que ora engessam o Brasil – e de pensar nas gerações futuras. Seria um ganho enorme para os brasileiros.
Coube ao governador gaúcho chamar a atenção para isso, em entrevistas recentes, nas quais procurou se diferenciar de seu concorrente goiano. Se é Eduardo Leite quem encarna esse ideal, ainda saberemos, mas ele merece ser ouvido quando diz que é preciso construir uma candidatura capaz de escapar do atoleiro do debate sobre anistia a Bolsonaro, como defende Caiado, e oferecer ao Brasil uma alternativa real de centro.
'Quero muito que a gente possa ter a opção da candidatura de centro, e não simplesmente uma candidatura na esquerda e três candidaturas do lado da direita mais radicalizada', resumiu o governador à CNN, referindo-se às candidaturas dele próprio, de Caiado e do governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo).
O recado é direto: o campo não lulista corre o risco de se fragmentar enquanto parte de suas lideranças permanece presa, por cálculo eleitoral, à órbita do bolsonarismo.
Em outra entrevista, à GloboNews, Leite reforçou a defesa de uma candidatura genuinamente de centro – a única que, segundo ele, ainda não está representada na disputa. Tem razão. Mais do que evitar a dispersão, o País precisa recuperar “o bom senso” e voltar-se ao debate sobre 'um novo Brasil'. Isso exige uma alternativa que se descole tanto do populismo da esquerda quanto da vassalagem ao bolsonarismo, à qual nomes de centro e de direita ainda se mostram atados.
Partidos como o PSD e lideranças como Ratinho Jr., Caiado, Zema e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, precisam decidir que papel desejam exercer: ou assumem a condição de forças políticas com identidade e projeto próprios, ou seguirão como linha auxiliar do bolsonarismo. Não há mais espaço para essa ambiguidade.
A política não pode se limitar à disputa entre um populismo já conhecido – que aposta na expansão desmedida do Estado sem o devido lastro e um modelo que se repete há décadas – e uma reação que se agarra a lideranças e agendas personalistas e golpistas. Essa dicotomia corrói a capacidade de formular soluções e impede o amadurecimento democrático.
Por isso, não se trata apenas de discutir a viabilidade eleitoral, pura e simples, de uma alternativa. A candidatura de centro, para ter razão de existir, deve ser expressão de uma ideia nova, baseada na conciliação de diferentes perspectivas e que tenha os olhos no futuro. Ainda que não triunfe, cumpre papel essencial ao qualificar o debate.
Consolidou-se no Brasil a ideia de que só importa o que vence. Eis o equívoco. Democracias maduras também se constroem a partir de ideias que sobrevivem às derrotas e elevam o nível da discussão pública.
Mais do que disputar eleições, isso significa devolver sentido à política."