Carnaval é mesmo festa de velho?

Publicado em 15/02/2026, às 11h00

Flávio Gomes de Barros

Texto de Luciana Bugni, no portal UOL:
 
"É domingo, último fim de semana antes do Carnaval. Um bar tradicional de São Paulo prepara seu trio com banda para desfilar por quatro horas nas ruas de Pinheiros. O pré-Carnaval paulistano ferve. Na rua vizinha ao cemitério, homens e mulheres de mais de 40 anos desfilam fantasias improvisadas, meias arrastão rasgadas, shorts de paetês que engancham em outros shorts de paetês. Quanto riso, quanta alegria.
 
Eu estou escorada no muro do cemitério, indiferente ao rastro das baratas que provavelmente andaram por ali à noite. O que os olhos não veem, o desespero não sente. São 11h da manhã, faz calor demais e uma mulher quase desmaia ao meu lado. Fazemos uma força-tarefa de mulheres para reanimá-la antes que caia no chão. Algumas das pessoas dividem-se entre abaná-la com uma mão e segurar um bebê no colo com a outra. Todo mundo tem muito Carnaval nas costas e conhece os preceitos mínimos para manter a ordem naquela balbúrdia: liberar passagem para crianças, se manter em movimento quando o bloco sai, não atravancar caminho, não ficar no celular.
 
"Peraí, deixa eu dar um beijo nessa moça", diz uma mulher vestida de água viva. A moça sou eu e demoro alguns segundos para reconhecer a ex-namorada de um amigo debaixo da fantasia. Nos abraçamos longamente. "Essa história de gostar de alguém já é mania que as pessoas têm."
 
"Taí", aliás, a música de Carmem Miranda, tem um século de vida. Como é que pode algo durar tanto tempo e ainda fazer as pessoas rebocadas de glitter girarem em torno de si em uma rua fechada pela CET, sorrindo para o nada com dois dedinhos indicadores apontados para o alto?
 
"Carnaval é festa de velho", diz um amigo sobre o bloco na segunda vez que nos encontramos. Não vejo ninguém mais novo que 38 nas proximidades, de fato. Espalharam-se nos shows de um cantor gringo cujo nome me foge, em evento repleto de grades na Consolação. O pessoal que nasceu até 1985 prudentemente embarcou em outros rolês menores, em que é possível andar com uma boia de plástico como fantasia e ninguém te aperta — sou meio contra o conceito de boia no Carnaval, embora ninguém tenha me perguntado.
 
A teoria do meu amigo foi corroborada por uma pesquisa da Atlas que diz que 85% dos jovens da geração Z declaram não gostar da festa. Realmente, no ano passado, encontrei apenas um filho de amigo que teve a decência de me chamar de Lu e não de tia no bloco. O resto, meus contemporâneos, ex-colegas de trabalho, amigos de faculdade e gente que a gente vai encontrando pela vida. Todo mundo já era nascido no governo Sarney.
 
A pesquisa me lembrou o texto de Michel Alcoforado, que meus velhos (em todos os sentidos) amigos compartilharam à exaustão essa semana. O tema era justamente esse: o cansaço dos quarentões tentando permanecer jovem…
 
Como permanecer jovem? De várias maneiras: adotar pets em vez de ter filho, adotar samambaias em vez de ter pets, adotar videogames em vez de ter samambaias e se livrar, assim, de qualquer obrigação parecida com a vida adulta.
 
Mas e quem não fez nada disso e vive as responsabilidades da maturidade desde antes dos 20 anos? Aqueles que, por 361 dias do ano, acordam, ligam a máquina de lavar roupas, esperam bater fazendo mil coisas, penduram no varal, fazem musculação (pra aguentar pegar a mala na esteira do aeroporto, que seja), batem o whey, levam filho na escola, fazem almoço, fazem home office, fazem reunião, pegam filho na escola, levam filho na natação enquanto fazem reunião, pegam filho na escola, levam filho na natação enquanto fazem reunião, refazem trabalho, soltam nota fiscal, choram no chuveiro para otimizar o tempo, dormem com 15 minutos da série porque não aguentam nada, lembram que não jantaram só quando acordam com fome às 3h da manhã e...
 
Bem, não é bem o Carnaval que nos deixa exausto. Mas uma ótima maneira de dar uma pausa no ciclo da maturidade que cansa (cansa mesmo, Michel), é colocar uma meia rendada e um maiô por cima, completar o look com seu pior tênis e sair sambando pra rua. Aí, meu amigo, pode rodar 17 km atrás do bloco, sob o Sol, ou subir 200 degraus. Quem corre porque quer não cansa, não. O complicado é correr todo dia, sem querer."
 
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