Perda de parte da visão e desnutrição: jovem chega a pesar 32 kg após bariátrica

Publicado em 24/02/2026, às 08h50
- Arquivo Pessoal

g1

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Quando decidiu fazer a cirurgia bariátrica, em maio de 2021, a fotógrafa Uli Suellen, então com 30 anos, acreditava estar se prevenindo de um risco maior. Pesava 115 quilos e havia procurado um gastroenterologista por causa de refluxo. Segundo relata, ouviu que, se não operasse, poderia morrer.

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Dez meses depois, estava internada pela nona vez em uma UTI, com desnutrição severa, deficiência grave de potássio e risco de arritmia cardíaca. Ao longo desse período, perdeu 75 quilos, desenvolveu infecção renal, úlcera, anemia, perdeu parte da visão e chegou a pesar 32 quilos. Em 2022, precisou reverter a cirurgia para sobreviver.

Suellen viveu um drama pouco comum: as estatísticas mostram índices baixos de complicações severas por causa do procedimento, em torno de 0,5%, com mortalidade aproximada de 0,1%.

Em dois meses, menos 30 kg

O problema começou ainda no pós-operatório imediato. Uli conta que voltou da cirurgia com complicações respiratórias e dificuldade para engolir. No hospital, ouviu que a adaptação seria gradual. Recebeu alta.

Em casa, a situação piorou. Não conseguia ingerir água, nem mesmo saliva. A fraqueza aumentava rapidamente. Em dois meses, havia perdido 30 quilos.

Uma nutricionista que a avaliou em domicílio orientou internação imediata. No hospital, foi levada à UTI com desidratação severa e potássio muito baixo.

Cirurgião do aparelho digestivo e especialista em bariátrica, Thales Maia assumiu o caso de Uli meses depois. À reportagem, ele afirma que, quando a conheceu, ela já estava na nona internação em terapia intensiva, com desnutrição grave e hipocalemia persistente.

Segundo ele, o nível de potássio era o ponto mais crítico, uma vez que o mineral é essencial para a contração cardíaca. Alterações importantes podem desencadear arritmias potencialmente fatais.

Mesmo com reposição oral e intravenosa, os níveis não se mantinham. Diante de um quadro grave e refratário ao tratamento clínico, a reversão tornou-se a alternativa possível.

Cirurgia segura, mas intercorrências exigem investigação imediata

Diretora do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a endocrinologista Cintia Cercato explica que as intercorrências mais relevantes costumam ocorrer nas primeiras semanas após a cirurgia. Complicações maiores, ela afirma, exigem investigação imediata quando surgem sintomas persistentes.

Apesar da segurança global do procedimento, especialistas são categóricos ao afirmar que sintomas persistentes não devem ser interpretados como parte “normal” da adaptação.

Cercato destaca que vômitos contínuos no pós-operatório são sempre sinal de alerta. Podem indicar estenose da anastomose —o estreitamento da conexão cirúrgica entre estômago e intestino—, torção de alça intestinal ou obstrução.

Denis Pajecki, coordenador do Departamento de Cirurgia Bariátrica da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), afirma que a incapacidade de ingerir líquidos de forma adequada e contínua é um dos principais sinais de alerta no pós-operatório.

Nesses casos, a conduta recomendada é internação, correção dos distúrbios hidroeletrolíticos, reposição de vitaminas e investigação ativa para identificar a causa.

Ele ressalta que o acompanhamento não se encerra na alta hospitalar. A assistência no pós-operatório imediato é responsabilidade direta da equipe cirúrgica e deve incluir vigilância clínica sistemática.

Dez meses entre hospital e incertezas

Durante dez meses, Uli passou mais tempo no hospital do que em casa. Desenvolveu infecção renal por não conseguir ingerir água, precisou de transfusões de sangue, utilizou nutrição parenteral —alimentação pela veia— e sonda. Em uma das internações, após episódios de tentativa frustrada de alimentação, sofreu uma torção intestinal e precisou de nova cirurgia de urgência.

O corpo entrou em colapso progressivo. Ela perdeu parte da visão do olho direito, não conseguia ficar em pé, não tinha força para ir ao banheiro sozinha. O cabelo caiu. A pele doía ao toque.

Em meio às investigações, foram levantadas hipóteses de doenças autoimunes e síndromes genéticas. Em determinado momento, seu prontuário registrou anorexia como suspeita diagnóstica. Uli afirma que ouviu de médicos que poderia estar forçando a não comer. Parte da família passou a duvidar de seu relato. Apenas o marido permaneceu ao seu lado.

“Eu sabia que tinha algo errado. Eu queria comer. Eu tentava. A comida não passava. Nem água. E ainda assim diziam que era coisa da minha cabeça”, afirma.
O cirurgião Thales Maia avalia que, do ponto de vista técnico, a cirurgia de Uli estava adequada. Segundo ele, a principal hipótese é que o quadro pode ter envolvido uma variação individual rara na absorção de potássio.

“Esse mineral é absorvido predominantemente no intestino grosso, enquanto a técnica do bypass gástrico atua principalmente no intestino delgado. Em condições habituais, essa alteração anatômica não deveria comprometer essa absorção. No caso dela, a hipótese levantada pelos médicos é que parte relevante dessa absorção pudesse estar ocorrendo no intestino delgado. Embora isso não seja o padrão descrito, variações anatômicas individuais existem e nem sempre são previsíveis”, afirma.
A desnutrição severa precoce é considerada incomum, especialmente quando há acompanhamento multidisciplinar adequado, segundo Cintia Cercato.

Ela explica que deficiências nutricionais graves costumam estar associadas a complicações gastrointestinais que precisam ser investigadas rapidamente.

No caso de Uli, a deterioração foi tão acelerada que, meses depois, a decisão médica deixou de ser opcional. A reversão tornou-se a única alternativa para interromper o quadro.

A reversão e a recuperação

Para realizar a reversão, Uli precisou primeiro recuperar parte do estado nutricional com suporte intensivo na UTI.

A cirurgia foi feita em 2022. Segundo Maia, o trato gastrointestinal foi restabelecido com sucesso e houve melhora completa do quadro metabólico.

Na primeira semana após a reversão, ela voltou a engolir. Na segunda, começou a caminhar sozinha. A visão retornou gradualmente. O potássio estabilizou. Não voltou a ser internada.

Ainda precisou de fisioterapia por ter permanecido acamada por meses e desenvolveu transtorno de estresse pós-traumático, com crises de pânico e medo de hospital. Hoje faz terapia e mantém acompanhamento nutricional.

Para Uli, o que mais marcou foi a sensação de não ter sido ouvida.

“O que mais me traumatizou foi a falta de acompanhamento. Espero que ninguém passe pelo que passei”, afirma.

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