Pesquisa aponta que 49% das mulheres brasileiras pretendem deixar seus empregos em até dois anos

Publicado em 17/03/2026, às 18h19
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Revista Crescer

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Conciliar carreira e maternidade ainda é um dos maiores desafios para as mulheres brasileiras e, em muitos casos, o ponto de ruptura que leva à saída do mercado de trabalho. Um levantamento global da Deloitte, com recorte no Brasil, revela que fatores como falta de rede de apoio, sobrecarga doméstica, saúde mental fragilizada e baixa flexibilidade são decisivos para a permanência (ou não) das mulheres nas empresas.

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Os dados fazem parte do estudo Women @Work 2025, que ouviu 7.500 mulheres em 15 países, incluindo 500 brasileiras. O cenário nacional chama atenção por ser mais crítico em temas estruturais, especialmente quando a maternidade entra na equação.

Maternidade, carreira e o peso invisível da sobrecarga

Embora o debate sobre equidade de gênero tenha avançado, a realidade dentro de casa ainda pesa — e muito. No Brasil, 59% das mulheres seguem como principais responsáveis pelos cuidados com os filhos, enquanto 54% assumem a maior parte das tarefas com outros adultos da família. Na prática, isso significa jornadas duplas ou até triplas.

Mesmo quando são as principais provedoras financeiras, 51% das brasileiras continuam liderando as tarefas domésticas, o que evidencia um desequilíbrio que impacta diretamente suas escolhas profissionais.

Nesse cenário, a maternidade deixa de ser apenas uma fase da vida e passa a influenciar decisões de carreira, como aceitar (ou recusar) promoções, reduzir a carga de trabalho ou até deixar o emprego.

Falta de rede de apoio limita permanência no trabalho

A ausência de uma rede de apoio estruturada — seja familiar, pública ou privada — aparece como um dos principais entraves para mulheres que desejam seguir ativas no mercado.

Custos elevados com creche, dificuldade de acesso a cuidadores e pouca participação de parceiros na divisão das tarefas tornam a rotina ainda mais desafiadora. Não por acaso, 48% das brasileiras apontam o custo de cuidados como uma preocupação central, acima da média global.

Sem suporte, muitas mulheres acabam fazendo escolhas que impactam diretamente sua trajetória profissional, mesmo quando há desejo de crescer na carreira.

Flexibilidade e crescimento: o que faz uma mulher ficar ou sair

O estudo identifica cinco fatores principais que influenciam a permanência feminina no mercado de trabalho:

  • suporte à saúde feminina
  • equilíbrio entre vida pessoal e profissional
  • flexibilidade
  • oportunidades de progressão de carreira
  • cultura organizacional segura e inclusiva

No Brasil, esses pontos ganham ainda mais força, especialmente a flexibilidade e as oportunidades de crescimento.

A falta desses elementos aparece diretamente nos índices de rotatividade: 49% das mulheres brasileiras pretendem deixar seus empregos em até dois anos, número bem acima da média global.

Entre os principais motivos, está justamente a rigidez das empresas. A falta de flexibilidade é apontada por 37% das entrevistadas, um índice significativamente maior do que o observado em outros países.

Saúde mental em alerta entre mulheres trabalhadoras

Outro fator que atravessa a experiência feminina no mercado de trabalho, e se intensifica com a maternidade, é a saúde mental.

No Brasil, 47% das mulheres apontam o tema como uma de suas principais preocupações e 40% relatam aumento do estresse no último ano.

Além disso:

  • 34% avaliam seu bem-estar mental como ruim
  • 21% já precisaram se afastar do trabalho por esse motivo
  • apenas 29% se sentem confortáveis para falar sobre o tema com gestores

A sobrecarga, somada à pressão profissional e às responsabilidades familiares, cria um cenário de exaustão silenciosa, que, muitas vezes, culmina no afastamento ou na saída definitiva do mercado.

O dilema moderno: querer crescer, mas não a qualquer custo

Diferentemente de gerações anteriores, muitas mulheres, hoje, não querem escolher entre carreira e maternidade. Elas querem ambos, mas em condições mais sustentáveis.

Há um desejo claro de crescimento profissional, independência financeira e realização pessoal. No entanto, esse projeto esbarra em estruturas que ainda não acompanham essa transformação.

A pesquisa mostra que estabilidade financeira, custo de vida e acesso a cuidados estão entre as maiores preocupações das brasileiras, o que reforça a importância do trabalho não apenas como realização, mas como necessidade.

Ainda assim, quando o ambiente corporativo não oferece flexibilidade, segurança ou apoio, a permanência se torna insustentável.

Cultura organizacional e segurança ainda são desafios

O ambiente de trabalho também influencia diretamente a decisão de ficar ou sair. No Brasil, 41% das mulheres relatam ter sofrido microagressões no último ano, um índice bem superior ao global.

Além disso, questões como segurança psicológica, inclusão e respeito seguem como pontos críticos

Por outro lado, o país se destaca em um aspecto: 94% das mulheres que sofreram assédio sexual afirmam ter denunciado os casos, o que indica maior conscientização, mas também reforça a necessidade de ambientes mais seguros.

O que precisa mudar para reter mulheres no mercado

Para especialistas, os dados deixam claro que a permanência feminina no mercado de trabalho não depende apenas de escolhas individuais, mas de mudanças estruturais.

Entre os caminhos possíveis estão:

  • ampliação de políticas de trabalho flexível
  • incentivo à divisão mais equilibrada das tarefas domésticas
  • acesso a creches e redes de cuidado
  • programas de apoio à saúde mental
  • políticas de crescimento e liderança para mulheres

Como resume a liderança da pesquisa, colocar o bem-estar feminino no centro das decisões corporativas não é apenas uma pauta social, é também uma estratégia de retenção de talentos.

A trajetória profissional das mulheres no Brasil continua sendo moldada por múltiplos fatores, muitos deles fora do controle individual.

Entre ambição, maternidade e exaustão, o que emerge não é falta de vontade de trabalhar, mas falta de condições para permanecer.

E talvez a pergunta não seja mais por que as mulheres saem do mercado, mas o que ainda falta para que elas possam, de fato, escolher ficar.

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