Pesquisa da UFRN com proteína da memória abre janela para tratamento de Alzheimer

Publicado em 23/03/2019, às 18h36
Martín Cammarota coordena pesquisa no Instituto do Cérebro da UFRN | UFRN -

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E se pudéssemos apagar lembranças ruins ou recuperar informações perdidas no nosso cérebro? Este é assunto antigo nas rodas de conversa dos apaixonados por ficção científica e pauta para alguns filmes desta linha. Mas a verdade é que a ciência já tem estudos conclusivos e provas concretas de que isso é possível.

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Por exemplo, o novo estudo desenvolvido pelo Laboratório Pesquisa em Memórias do Instituto do Cérebro (ICe) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), coordenado pelos neurocientistas Martín Cammarota e Lia Bevilaqua, demonstra que é possível bloquear especificamente a incorporação de nova informação em memórias pré-existentes, como também apagar seletivamente memórias recentemente utilizadas em ratos. O trabalho foi publicado este mês no periódico científico Journal of Neuroscience.

Isso foi possível graças à inibição da proteína PKMzeta, uma proteína quinase que atua no fortalecimento das sinapses cerebrais, principalmente no hipocampo, e tem como função modular a eficácia da comunicação entre neurônios. Os pesquisadores estudaram um tipo particular de memória declarativa, chamada de memória de reconhecimento de objetos (MRO), cujo funcionamento é essencial para nosso dia a dia, já que nos permite reconhecer objetos conhecidos e distingui-los de outros incomuns ou não familiares.

Pesquisadoras Maria Caroline Gonzales e Andressa Radiske demonstram como são observados os modelos animais usados na pesquisa. Foto: ASCOM/ICE.

Dois pontos foram considerados neste novo estudo: como as memórias se modificam e como é possível alterar a durabilidade dessas memórias após elas perderem ou adicionarem novas informações. Os resultados demostram que, ao impedir o funcionamento normal da PKMzeta no hipocampo, é possível fazer com que um rato seja incapaz de incorporar informações de um objeto novo em memórias pré-existentes, conduzindo assim ao apagamento seletivo da memória de um objeto já conhecido que acaba de ser reexperimentado.

“O rato não perde a memória de todos os objetos que conhecia, mas unicamente aquela acerca do último objeto conhecido do qual se lembrou antes da inibição da PKMzeta. O interessante é que isso acontece apenas quando o objeto conhecido é lembrado na presença de um novo, totalmente desconhecido para o animal”, explica o professor Martín Cammarota. Suponhamos que um rato conhecesse um total de cinco objetos e, junto com um deles, for apresentado um sexto objeto até então desconhecido. Ao impedir o funcionamento da PKMzeta no hipocampo após essa apresentação, o rato não será apenas incapaz de formar a memória deste novo item, mas também se esquecerá do objeto conhecido que foi reapresentado junto. A memória referente aos outros quatro objetos permanecerá inalterada.

Além disso, os pesquisadores demonstraram que a amnésia induzida pela inibição da PKMzeta leva ao desaparecimento físico do traço mnemônico que sustenta a representação do objeto conhecido. Ou seja, para readquirir a memória relativa a esse objeto, o animal deverá obrigatoriamente reaprendê-la. “Estes achados contribuem notavelmente para o entendimento dos fatores que governam a persistência e a modificação das memórias declarativas e abrem uma janela promissora para o tratamento efetivo de doenças e transtornos que cursam com um notório deterioro deste tipo de memórias, como é o caso da doença de Alzheimer”, completou Martín Cammarota.

Laboratório Pesquisa em Memórias do Instituto do Cérebro (ICe) / Foto: ASCOM/ICE

Caminhos para novas pesquisas

Da mesma forma que a amnésia, que é a perda de memória, preocupa a medicina, pois dela advêm doenças como o Alzheimer, a hipermnésia, capacidade fora do comum de evocar lembranças, também inquieta, uma vez que gera ansiedade e dificuldade de adaptação dos pacientes. Ambos os casos são motivos de estudos há anos, muitos deles aplicados. O trabalho do Laboratório de Pesquisas em Memória do Instituto do Cérebro está no campo da pesquisa básica, cujo objetivo é conhecer a neurofisiologia e a neuroquímica dos processos que subjazem o processamento, modificação e armazenamento de informação. “A fisiologia precede a patologia. Não se pode restituir a funcionalidade normal de um órgão ou sistema danificado se não a conhecermos”, destaca Martín.

É por isso que a nova descoberta abre uma janela promissora para o tratamento efetivo de doenças como o Alzheimer, problema que atinge 47 milhões de pacientes em todo o mundo. Neste caso específico, segundo Martín, um dos sintomas que aparece mais cedo é a perda das memórias referentes ao reconhecimento de situações e itens corriqueiros.

“As pessoas começam a esquecer as coisas e situações que viveram e passam a confundir ou misturar nomes, circunstâncias e objetos. Conhecer as bases cognitivas, moleculares e eletrofisiológicas dos processos que sustentam este tipo de memórias, permitindo sua modificação, fortalecimento ou apagamento seletivo, é imprescindível para desenvolver terapias visando o tratamento efetivo de numerosas doenças”, completa o cientista. Ainda segundo Martín, da mesma forma que se pode fazer com que um rato esqueça seletivamente um objeto, é possível fazer com que se lembre dele melhor ou durante mais tempo. É essa perspectiva que abre possibilidades de estudos futuros sobre demências como o Alzheimer.

O estudo da PKMzeta

Os primeiros estudos relevantes sobre esta proteína começaram a ser divulgados em 1993 pela equipe do cientista Todd Sacktor, do Suny Downstate Medical Center, em Nova York. Ele criou a molécula peptídeo zeta-inibidor (ZIP), que age como um bloqueador da PKMzeta, com objetivo de apagar memórias de longo prazo em ratos.

A proposta deu certo, mas em 2013, pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, nos EUA, criaram modelos de ratos sem esta proteína e descobriram que, mesmo assim, eles continuaram formando memórias. O estudo do Laboratório de Pesquisas em Memória corrobora que a inibição da PKMzeta é amnésica, mas demonstra que, diferente do que disse Sacktor, a proteína não participa dos processos de formação e armazenamento de novas memórias, mas atua especificamente mediando a incorporação de nova informação em memórias pré-existentes.

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