Pesquisas de opinião indicam: a narrativa do golpe não cola mais

Publicado em 15/03/2026, às 14h00

Flávio Gomes de Barros

Jornalista José Fucs, no portal UOL:
 
"Demorou, mas parece que a narrativa dominante em relação à tentativa de golpe de Estado, que teria sido articulada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e seus aliados mais próximos, perdeu sua força. Ou, para ser mais preciso, deixou de ser dominante na sociedade.
 
De repente, três anos depois de a sanha punitiva contra Bolsonaro e seu grupo político ganhar tração, com o apoio de grandes veículos de comunicação, aquela versão propagada como verdade incontestável — que muitos temiam questionar para não acabar no xilindró nem ser rejeitados por amigos, colegas de trabalho e familiares — passou a ser renegada pela maioria dos brasileiros.
 
Segundo pesquisa Meio/Ideia divulgada na quarta-feira, 54% dos eleitores não acreditam que Bolsonaro tentou dar um golpe de Estado. Apenas 39% afirmam que ele tentou e outros 7% declaram não saber. Ao mesmo tempo, 44% dos entrevistados afirmam que o apoio ao impeachment de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) aumenta a chance de um candidato ao Senado receber seus votos e 33% dizem que não deve influenciar suas escolhas, enquanto 15,5% declaram que isso diminui a probabilidade de apoiá-lo e outros 7,5% alegam não saber.
 
As duas questões acompanharam a pesquisa eleitoral Meio/Ideia, que apontou um empate técnico no segundo turno entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, provável candidato à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência, mas tiveram pouco destaque na mídia.
 
Elas revelam muito, porém, sobre a guinada ocorrida na visão da população a respeito da suposta tentativa de golpe que levou Bolsonaro e seus aliados à prisão, assim como centenas de manifestantes responsabilizados pelos chamados "atos antidemocráticos", que, para muitos juristas, políticos e analistas, não passou de um quebra-quebra como outros promovidos pela esquerda no país. Também revelam
muito sobre o sentimento de repulsa de boa parte da população por tudo isso que está aí.
 
Na quinta-feira, duas outras pesquisas reforçaram a percepção de que a reputação do Supremo — autoconsiderado por seus ministros como paladino da democracia no país, com o aval de Lula, da esquerda, da centro-esquerda e de boa parte do chamado "centro democrático"— está em queda livre.
 
De acordo com um levantamento realizado pelo Datafolha, nada menos que 43% dos brasileiros dizem não confiar no STF, maior índice registrado desde o início da série, em 2012, e só 16% afirmam "confiar muito" na instituição. Na outra pesquisa, da Genial/Quaest, a desconfiança no Supremo chega a 49% dos entrevistados.
 
A sondagem da Quaest ainda apurou que 72% acham que o STF tem um poder excessivo e 66% acreditam que é importante votar em candidatos ao Senado comprometidos com o impeachment de ministros da Corte — um dos principais objetivos da direita e da centro-direita nas eleições de outubro para mudar o quadro político e institucional do país, já que só o Senado tem a prerrogativa constitucional de processar e julgar os ministros do Supremo.
 
Banco Master

É certo que a deterioração da imagem do STF tem a ver, em boa medida, com os escândalos do Banco Master e das fraudes do INSS, em especial com as investigações da Polícia Federal que sugerem o envolvimento dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes em negócios nebulosos com o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador da instituição. No levantamento Meio/Ideia, 35% associam o Master ao STF, mais do que ao governo e ao Congresso, e 69,9% dos que dizem conhecer o caso acreditam que ele abalou a credibilidade da instituição.
 
Isso acabou engrossando o coro contra o Supremo, que já vem sendo entoado há anos pela direita e pela centro-direita por uma série de fatores. Entre eles, destacam-se o ativismo judicial, que se acentuou no governo Bolsonaro; os privilégios ilimitados autoconcedidos pelos ministros; os questionamentos éticos à sua atuação em processos julgados pela Corte; a anulação da Lava Jato por questões processuais; e a gestão enviesada do processo eleitoral no pleito de 2022.
 
Agora, vamos combinar o seguinte: tudo isso já vem turbinando, de um jeito ou de outro, a discussão sobre a conduta e os abusos do STF e a necessidade de serem realizados ajustes na legislação para recolocar a
instituição nos trilhos. A grande novidade que surgiu foi a metamorfose detectada pela pesquisa Meio/Ideia na percepção da população em relação ao julgamento de Bolsonaro (e de seu grupo político) pela Corte, o que ajuda a explicar a ascensão de seu filho Flávio nas pesquisas e pode fazer a diferença nas eleições.
 
Com essa virada na percepção popular, a narrativa de que o Supremo agiu em "defesa da democracia", martelada em ritmo de bate estaca nos últimos anos e que muitos acreditavam que prevaleceria nos livros de história, foi para o vinagre.
 
A mudança também sinaliza que, para a maior parte dos brasileiros, o julgamento de Bolsonaro foi injusto e fruto de perseguição política, assim como os de seus aliados, com o objetivo de bani-los sumariamente da vida política nacional. E, de quebra, ainda indica que uma parcela da turma que não costuma votar em Lula e no PT, mas fez o L 'pela democracia' em 2022, e dos chamados 'isentões', que votaram nulo ou em branco por rejeitar os dois candidatos, reavaliou sua posição, em decorrência do que aconteceu de lá pra cá.
 
Abusos
Talvez, no fim, muita gente tenha se dado conta de que o risco representado por Bolsonaro e seu grupo político não era o que se dizia e de que o discurso em defesa da democracia acabou servindo como biombo para legitimar abusos em série cometidos pelo STF, principalmente por Moraes, à revelia dos ritos processuais, dos códigos legais e da Constituição, como apontou o ministro Luiz Fux em seus votos. Não apenas contra o ex-presidente e seu grupo político, mas também contra a independência dos Poderes e a liberdade de expressão garantidas pela Carta de 1988.
 
O ministro Gilmar Mendes pode até sugerir que a imprensa deve relevar eventuais equívocos ou excessos do STF e ter eterna gratidão pela sua atuação como paladino da democracia.
Pode também passar por cima do Congresso, como fez, ao determinar de forma monocrática que a aprovação do impeachment de ministros do Supremo pelo Senado precisa de maioria qualificada (2/3 dos senadores) e não de maioria simples (50% dos senadores mais um), justamente para dificultar a adoção da medida caso a direita e a centro-direita conquistem o maior número de cadeiras na Casa nas urnas.
 
Mas, independentemente de quem ganhe o pleito, Gilmar e seus pares ainda não se sobrepõem à soberania popular nem têm o poder de controlar — como o Grande Irmão em 1984, a obra imortal de George Orwell — o que pensam os brasileiros sobre o STF e os julgamentos de Bolsonaro e de seus aliados - o que pensam os brasileiros sobre o STF e os julgamentos de Bolsonaro e de seus aliados, incluindo os manifestantes do 8 de Janeiro.
 
No tribunal das ruas, a narrativa do golpe desidratou — e este é um julgamento contra o qual não cabe recurso com possibilidade de decisão monocrática."
 
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