Petróleo e gás devem ficar mais caros no Brasil com invasão da Ucrânia

Publicado em 24/02/2022, às 16h38
Marcelo Casal Jr / Agência Brasil -

Uol

A invasão da Ucrânia por tropas russas deve mexer com o bolso dos brasileiros por causa dos preços dos combustíveis, afirmam economistas. Segundo especialistas, além das inestimáveis perdas das populações diretamente afetadas pela guerra, o conflito vai prejudicar a oferta de petróleo, uma importante matéria-prima para a economia global.

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O receio de que o conflito no leste europeu provoque uma redução da oferta de petróleo já está influenciando o mercado internacional de commodities, onde a cotação do barril opera em alta forte nesta quinta-feira (24). Essa valorização dos contratos futuros influencia os preços dos combustíveis no Brasil por causa da política de preços da Petrobras.

E com os reajustes de preços dos combustíveis, a inflação brasileira pode demorar ainda mais para ceder, mesmo estando nos maiores patamares desde 2016.

"Combustíveis e gás de cozinha podem ficar mais caros no Brasil por causa do conflito entre Rússia e Ucrânia e pressionar a inflação aqui no Brasil porque o conflito provoca alta do dólar e do preço do barril", disse Roberto Troster, economista sócio fundador da Troster & Associados.

Por que petróleo sobe com invasão da Ucrânia pela Rússia? - A Rússia é o segundo maior exportador e terceiro maior produtor de petróleo global, respondendo por cerca de 12% da oferta global.

Mas, com as sanções econômicas que os países do Ocidente estão impondo contra a Rússia, a oferta russa de petróleo pode ser afetada, o que vai interferir nos preços. A Rússia é ainda o principal exportador e segundo maior produtor de gás natural do mundo. Essas sanções é que devem tirar do mercado parte — ou toda — a oferta de petróleo garantida pela Rússia.

Relação entre petróleo e preços de combustíveis no Brasil - Por causa da política de preços praticada pela Petrobras, os combustíveis no Brasil têm os custos definidos a partir da cotação do barril no mercado internacional. Assim, a valorização do petróleo lá fora acaba chegando às bombas de gasolina aqui no Brasil.

O preço do barril de petróleo afeta ainda o valor cobrado do consumidor para o diesel e para o gás de cozinha, destacam especialistas no setor.

Assim, dizem eles, todos os derivados do petróleo tendem a ficar mais caro. "O que determina aumento de preço na refinaria da Petrobras é câmbio e barril. E ambos estão pressionados com esse conflito. O preço do barril ninguém sabe para aonde vai porque não se sabe para aonde vai a guerra", disse Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie).

"Além dos preços dos combustíveis, o petróleo mais caro vai impactar a indústria, como por exemplo, a indústria petroquímica, que produz embalagens plásticas. E mesmo o agronegócio é afetado porque muitos fertilizantes são da indústria petroquímica", comentou André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV)

Quando esses reajustes chegam ao consumidor? - A política de preços da Petrobras determina os reajustes conforme uma média semanal de preços do barril no mercado internacional. Em tese, os preços mais elevados nas refinarias poderiam começar a valer já no começo de março.

A Petrobras informou hoje que vai avaliar os impactos da alta volatilidade dos preços do petróleo no mercado internacional, após o ataque feito pela Rússia à Ucrânia, antes de tomar qualquer decisão sobre os preços, disse o diretor-executivo de Comercialização e Logística, Cláudio Mastella.

"Não tenho uma resposta fácil nem simples neste momento, o fato é que devemos continuar observando o mercado por mais algum tempo e observando em paralelo a evolução do câmbio no Brasil", observou Cláudio Mastella, diretor-executivo de comercialização e logística da Petrobras.

Para Adriano Pires, especialista em energia, a Petrobras não deve mexer imediatamente porque há muita incerteza. "Agora, se o preço de barril ficar por algum tempo acima dos US$ 100, acredito que teremos reajustes de combustíveis", diz o diretor do Cbie.

"E em um cenário de piora, com um barril batendo US$ 150 dólares, por exemplo, eu acho que a Petrobras não vai reajustar porque o governo brasileiro, assim como outros países, poderá apertar o botão da calamidade publica, afirmou Adriano Pires, Cbie. Nesse caso, diz o especialista, o governo brasileiro poderia usar recursos do orçamento para bancar a manutenção dos preços para a Petrobras.

Inflação - Mesmo que os reajustes de combustíveis fiquem contidos por algum tempo, é opinião unânime entre os economistas que a inflação no Brasil volta a ficar pressionada.

Eles destacam que o item "combustíveis" é um dos principais responsáveis pela alta dos índices de preços desde 2020.

"O diesel mais caro também encare custos de empresas e dos transportes. E o gás de cozinha, que deve sofrer reajustes, eleva custos de empresas além de afetar o orçamento das famílias, em especial das mais carentes. Como o agronegócio também é afetado por causa de fertilizantes mais caros, os alimentos também passam a subir de preço", disse André Braz, Ibre/FGV

"Vejo mais pressão sobre a inflação agora, mesmo considerando a queda recente do dólar, que a gente viu este ano antes da invasão da Ucrânia pela Rússia. Além dos reajustes de combustíveis, temos os impactos secundários na economia e ainda nos insumos agrícolas", opinou Guilherme Moreira, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da Fipe

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