PF aponta que Grupo Fictor e CV usavam a mesma estrutura para fraudar bancos

Publicado em 26/03/2026, às 08h15
Rafael Góis, CEO da Fictor - Reprodução

g1

Ler resumo da notícia

Uma investigação da Polícia Federal aponta que o Grupo Fictor e células da facção criminosa Comando Vermelho (CV) utilizavam o mesmo esquema de lavagem de dinheiro, baseado em empresas de fachada, movimentações simuladas e cooptação de funcionários de bancos.

LEIA TAMBÉM

A operação, batizada de Fallax, foi deflagrada na quarta-feira (25) em três estados e investiga fraudes que podem ultrapassar R$ 500 milhões. O CEO da Fictor, Rafael de Gois, foi um dos alvos de busca e apreensão.

Em 17 de novembro do ano passado, a Fictor anunciou a compra do Banco Master, envolvendo investidores árabes e um aporte de R$ 3 bilhões, poucas horas antes de o Banco Central ter anunciado a liquidação extrajudicial do banco de Daniel Vorcaro.

Após a liquidação do banco, a Fictor enfrentou uma crise reputacional, resultando em resgates de cerca de R$ 2 bilhões por investidores, o que levou ao pedido de recuperação judicial das empresas Fictor Holding e Fictor Invest, pertencentes ao grupo.

Segundo a PF, as investigações começaram em 2024, quando foram identificados indícios de um sistema profissional de fraude bancária e lavagem de capitais desenvolvido por uma organização criminosa com ramificações no setor financeiro e conexão com o crime organizado do Rio de Janeiro.

A PF aponta que a Fictor era parte central da engrenagem, funcionando como núcleo financeiro do esquema. O grupo injetava, diz a investigação, recursos que alimentavam as simulações de fluxo de caixa, ajudava a montar empresas de fachada e operava mecanismos usados para enganar instituições financeiras.

Essa atuação, segundo os investigadores, “profissionalizou” o modelo e ampliou a eficiência das fraudes (leia mais abaixo).

Segundo a PF, células do Comando Vermelho usavam a mesma estrutura para lavar dinheiro do tráfico. Elas se aproveitavam das empresas fictícias e da contabilidade fabricada para justificar a entrada de recursos ilícitos no sistema bancário.

Depois de circular pelas firmas de fachada, o dinheiro era convertido em bens de luxo e criptoativos, o que dificultava o rastreamento. Para a PF, o compartilhamento do esquema revela um “ecossistema criminoso” usado por empresários, operadores financeiros e facções.

A Operação Fallax prendeu ao menos 15 pessoas na quarta (25). Dentre os presos, há dois gerentes da Caixa Econômica Federal e uma ex-gerente do Banco do Brasil envolvidos no esquema.

O modelo

O modelo tinha seis pilares:

O grupo investigado montou um sistema profissional de fraude bancária e lavagem de dinheiro baseado principalmente na criação em massa de empresas de fachada.

Essas pessoas jurídicas eram abertas com características padronizadas — sócio único, capital social simulado e objeto social genérico — e chegavam a cumprir obrigações fiscais nos primeiros meses para aparentar regularidade.

Para viabilizar essas aberturas, integrantes da organização cooptavam pessoas dispostas a ceder seus dados pessoais, muitas vezes sem saber a real finalidade da operação.

Depois de criadas, essas empresas passavam a receber uma contabilidade totalmente fraudada. Documentos como DRE, ECF e declarações fiscais eram manipulados para simular um faturamento alto, o que possibilitava às empresas parecerem aptas a obter crédito bancário.

Ao mesmo tempo, operadores do esquema iniciavam uma intensa movimentação financeira artificial, composta por pagamentos cruzados de boletos, transferências internas e supostas entradas de capital sem origem real.

Essa simulação gerava um histórico bancário inflado, que convencia instituições financeiras a liberar limites maiores de crédito e permitia a circulação de valores ilícitos sem levantar suspeitas.

Participação de instituições

A engrenagem só funcionava, segundo as investigações, porque havia participação direta de funcionários de instituições financeiras. Gerentes bancários inseriam dados falsos nos sistemas internos, facilitando saques e transferências indevidas, além de acelerar ou aprovar operações de crédito com base em informações manipuladas.

Segundo a PF, essa cooptação era peça essencial para dar aparência de legalidade e permitir que grandes somas circulassem rapidamente entre as empresas fictícias.

Todo o sistema era planejado para operar por um período limitado — normalmente entre um e um ano e meio. Durante esse tempo, as empresas de fachada movimentavam milhões, tomavam crédito e criavam histórico positivo.

Em seguida, a organização simplesmente abandonava as empresas, deixava de pagar os empréstimos e sumia, tornando a recuperação dos valores praticamente impossível para os bancos.

A PF afirma que instituições como Caixa, Banco do Brasil, Bradesco, Santander e Safra sofreram prejuízos milionários com o golpe.

CEO e ex-sócio do Grupo Fictor

Rafael de Gois, sócio-fundador e CEO do Grupo Fictor, foi um dos alvos da Operação Fallax.

A PF cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao executivo na capital paulista. O ex-sócio do Grupo Fictor Luiz Rubini também foi alvo de mandado na cidade de São Paulo. Contra Rubini há ainda a determinação de quebra de sigilo bancário determinado pela Justiça Federal.

Ao todo, seriam cumpridos 43 mandados de busca e apreensão e 21 mandados de prisão preventiva, expedidos pela Justiça Federal de São Paulo, em cidades dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia.

Os advogados de Rafael afirmaram que apenas um celular foi apreendido.

"Foi realizada hoje diligência de busca e apreensão na residência de Rafael Góis, CEO da Fictor, no âmbito de investigação conduzida pela Polícia Federal. Apenas o seu celular foi apreendido. Tão logo sua defesa tenha acesso ao conteúdo da investigação, serão prestados os esclarecimentos necessários às autoridades competentes, com o objetivo de elucidar os fatos", diz nota.

Já a defesa de Luiz Rubini afirmou que não teve conhecimento prévio do processo e se manifestará oportunamente.

 

Gostou? Compartilhe

LEIA MAIS

Caso Master: Vorcaro tenta escapar de crime de organização criminosa em delação Senado aprova crime de vicaricídio com pena de até 40 anos; saiba o que é Câmara aprova projeto de lei que cria lista suja do racismo no esporte Vídeo: sucuri gigante é flagrada arrastando cachorro no quintal de casa