Plano de saúde lança atendimento por videoconferência à revelia de regras do CFM

Publicado em 08/07/2019, às 23h07
Pexels -

Folha Press

A Amil lança nesta segunda (8) um atendimento médico por videoconferência a despeito de o CFM (Conselho Federal de Medicina) vetar consultas a distância, tema alvo de polêmica no país.

LEIA TAMBÉM


O serviço virtual será prestado pela equipe do Hospital Albert Einstein (SP). É destinado aos 180 mil clientes da linha premium da operadora (Amil One) e vai funcionar 24 horas, sete dias por semana.
Segundo Claudio Lottenberg, presidente do United Health Group Brasil, controlador da Amil, o serviço deve ser expandido a outras categorias de planos conforme a demanda e os resultados da primeira fase de implantação.


O objetivo é atender queixas de baixa complexidade, como gripe, resfriado, tosse, dor de garganta, diarreia, náusea, alergia, dores nas costas e de cabeça. Caso julgue necessário, o médico recomendará atendimento presencial.


De acordo com Lottenberg, o objetivo não é restringir consultas presenciais, mas trazer uma ferramenta de comodidade ao usuário, evitando deslocamentos desnecessários e facilitando o atendimento médico em caso de viagens.


Maior operadora do país, com mais de 4 milhões de usuários, a Amil toma a dianteira na polêmica que cerca serviços de telemedicina desde fevereiro, quando o CFM apresentou resolução que permitia consultas, diagnósticos e cirurgias a distância. O texto previa a possibilidade de consultas pela internet após o primeiro atendimento presencial ou em casos de áreas remotas.


Porém, críticas de conselhos regionais sobre a definição de quais seriam essas áreas, além do temor de banalizar consultas online e afastar médicos e pacientes, acabaram levando à revogação da norma. Agora, o conselho recolhe até o dia 31 deste mês sugestões para que uma nova versão possa ser elaborada. Ainda não há previsão de quando o novo texto será apresentado. Nova versão do Código de Ética Médica, publicada em abril último, manteve o veto às consultas virtuais.


Questionado se o novo serviço da Amil não fere regras do CFM, Lottenberg diz que não há nada de ilegal na iniciativa. "No Brasil não há nenhuma lei que proíba expressamente a prática. Ao contrário, a Constituição brasileira assegura ao médico o livre e responsável exercício da prática profissional."


Segundo ele, as discussões no CFM sobre telemedicina precisam evoluir. "O atendimento virtual é uma evolução da medicina. [A resolução] foi decidida de uma forma, depois teve um imbróglio de natureza política e essas questões políticas travam o país."


Para Lottenberg, o CFM deveria estar focado em dois aspectos que envolvem a telemedicina, a segurança dos dados de saúde do paciente e a qualidade do serviço prestado. "São duas preocupações permanentes nossas e estarão presentes [no serviço]. Estamos trabalhando com um grupo restrito de usuários e com um parceiro, o Einstein, que tem tradição e sabe fazer isso. Telemedicina não é para médico inexperiente, é para médico bem formado", diz.


O serviço de telemedicina do Einstein existe desde 2012 e oferece atendimentos virtuais em diversas áreas para pacientes (reeducação alimentar e cessação do tabagismo), empresas (seguimento de pacientes crônicos) e hospitais (urgência e emergência, teleoncologia e teleneurologia). "A telemedicina já esta acontecendo principalmente para quem tem recurso. Quem não tem acesso, é porque não tem recurso. A sociedade quer isso. Imagina o quanto essa ferramenta ajudaria o país."


Procurado para opinar sobre o novo serviço da Amil, o CFM preferiu se manifestar por meio de nota. Diz que o atendimento presencial e direto do médico em relação ao paciente é regra para a boa prática médica prevista no Código de Ética Médica. "O CFM, como ente autorizado a disciplinar o exercício da medicina, reitera sua percepção de que o exame médico presencial é a forma eficaz e segura de se realizar o diagnóstico e o tratamento de doenças", diz a nota.


O conselho diz que trabalha para atualizar a norma de 2002 sobre telemedicina. "Até a aprovação de novas regras, as que estão em vigor devem ser observadas pelos profissionais e estabelecimentos de saúde, sendo que o desrespeito deverá ser alvo de apuração e outras providências", diz o comunicado.


No estado de São Paulo, 82,6% dos médicos já usam tecnologias no dia a dia para a assistência aos pacientes, segundo pesquisa da APM (Associação Paulista de Medicina) e do Global Summit Telemedicine & Digital Health.


A maioria (78,7%) é favorável à utilização do WhatsApp e ferramentas semelhantes na relação com os pacientes.
No vácuo da regulação, médicos e pacientes estão expostos a situações de risco, desde o vazamento de dados nas mídias sociais até erros de interpretação da conduta médica sugerida pelo profissional.

Entenda o atendimento médico a distância

Como era até então

Telemedicina era realizada apenas entre médicos, como uma segunda opinião. Alguns hospitais universitários já usavam a modalidade, mas em caráter experimental

O que estava em análise pelo CFM

Nova resolução definia a prática de teleconsulta e estabelecia regras, como necessidade de que o primeiro atendimento fosse presencial. Estabelecia ainda intervalo de no máximo quatro meses para consultas presenciais –para pacientes crônicos, por exemplo.


Também previa que atendimento fosse gravado e armazenado seguindo critérios, com proteção garantida para sigilo. Caso paciente não concordasse com a gravação, consulta não poderia ser realizada
Caso o médico prescrevesse exames e medicamentos, documento deveria conter dados de identificação, registro de data e hora e assinatura digital do médico


Na telecirurgia, os procedimentos deveriam ocorrer em espaços com infraestrutura, com médico que operasse equipamento robótico e outro que acompanhasse o paciente no local

Gostou? Compartilhe

LEIA MAIS

Bolsonaro: médicos relatam piora das crises de soluço e pedem mais exames Feriado ou ponto facultativo? Entenda a diferença e o que muda no seu salário Laudo revela causa da morte de menino após comer bolo em festa da avó TCU cria novo penduricalho para servidores após ver brecha em decisão do STF