“Polvo mais antigo do mundo” não era polvo, revela estudo

Publicado em 08/04/2026, às 21h39
Desenho de reconstrução de Pohlsepia mazonensis, fóssil de molusco atribuído a parente antigo dos polvos - Thomas Clements/Universidade de Reading

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Um dos fósseis mais famosos da paleontologia, considerado, por décadas, como o polvo mais antigo do mundo, foi reclassificado após novas análises, conduzidas por uma equipe internacional de pesquisadores. O exemplar de cerca de 300 milhões de anos, conhecido como Pohlsepia mazonensis, revelou ser, na verdade, um parente dos náutilos, que é um grupo de cefalópodes com concha externa ainda existente hoje.

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Descrito originalmente em 2000 a partir de um achado em Illinois, nos Estados Unidos, o fóssil foi interpretado como um polvo primitivo por apresentar estruturas semelhantes a braços, nadadeiras e até um possível saco de tinta. Essa identificação, no entanto, sempre levantou dúvidas por antecipar em cerca de 150 milhões de anos o surgimento conhecido dos polvos. Daí a importância da descoberta, cujos detalhes foram publicados nesta quarta-feira (8) em um artigo da revista Proceedings of the Royal Society B.

Exame revela a pista decisiva

A reviravolta veio com o uso de imagens de sincrotron — uma técnica que utiliza feixes de luz extremamente intensos para examinar o interior de materiais. Comparado pelos pesquisadores a um “exame forense” aplicado a um fóssil de 300 milhões de anos, o método permitiu identificar estruturas invisíveis a olho nu no interior da rocha, sem danificá-la no processo.

O resultado foi a descoberta de uma rádula, uma estrutura alimentar composta por fileiras de dentes microscópicos, típica de moluscos. A contagem desses dentes foi determinante: o fóssil apresentava pelo menos 11 por fileira, um número incompatível com polvos, que possuem entre sete e nove, mas próximo ao padrão dos nautilóides, que têm cerca de 13.

“Descobrimos que o fóssil de polvo mais famoso do mundo nunca foi um polvo de verdade. Era um parente do náutilo que estava em decomposição há semanas antes de ser enterrado e, posteriormente, preservado em rochas. Foi essa decomposição que o fez parecer tão convincentemente com um polvo”, explica Thomas Clements, autor do estudo, em comunicado.

Impacto na evolução dos cefalópodes

A reclassificação tem implicações profundas para a compreensão da evolução dos cefalópodes. Ao retirar o P. mazonensis da linhagem dos polvos, os cientistas eliminam uma evidência que sugeria uma origem muito mais antiga para esse grupo.

Com isso, ganha força a hipótese de que os polvos surgiram apenas no período Jurássico, e que a divergência entre eles e outros cefalópodes, como as lulas, ocorreu durante a era Mesozoica. Ou seja, muito mais recentemente do que se supunha até então.

Para além disso, o fóssil passa a ocupar um novo lugar de destaque, já que ele representa o registro mais antigo conhecido de tecido mole de um nautiloide. Esse espécime supera o recorde anterior em cerca de 220 milhões de anos.

“É incrível pensar que uma fileira de minúsculos dentes escondidos na rocha por 300 milhões de anos mudou fundamentalmente o que sabemos sobre quando e como os polvos evoluíram”, destaca Clements. O caso também reforça o papel das novas tecnologias na revisão de interpretações científicas consolidadas. “Às vezes, reexaminar fósseis controversos com novas técnicas revela pequenas pistas que levam a descobertas realmente empolgantes”, observa o pesquisador.

Mais do que corrigir um erro histórico, o estudo evidencia como processos como a decomposição, frequentemente negligenciados, podem distorcer evidências fósseis e influenciar a forma como a história da vida na Terra é reconstruída pela ciência.

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