Luis Eduardo de Sousa / Folhapress
Popular nas redes sociais, a prática de misturar produtos de limpeza para supostamente conseguir resultados melhores na faxina pode gerar danos severos à saúde, principalmente à pele e ao sistema respiratório.
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Vídeos que ensinam a misturar produtos como água sanitária, desinfetante e limpa-vidros são comuns no TikTok e no Instagram. Quem os produz relata, com humor, sintomas como tontura e dificuldade para respirar ao utilizar as combinações feita em casa. Segundo médicos, esses são indícios de reação do corpo ao contato com substâncias tóxicas.
No uso doméstico, dificilmente os produtos de limpeza vendidos em supermercados vão causar problemas à saúde, desde que manuseados corretamente, explica Daiane Ribeiro, biomédica que atuou por dez anos na Unilever e hoje é responsável pela marca de produtos de limpeza de origem natural Positiv.a.
Ribeiro destaca a água sanitária, muito utilizada na limpeza doméstica. Ela explica que o produto não pode ser misturado com nada, nem submetido ao calor.
"Todo mundo faz aquela misturinha de sabão em pó com água sanitária, ou com vinagre. O problema é que ela, quando reage com qualquer ácido, libera o gás cloro. Mesmo sem a pessoa perceber, já está inalando o vapor", diz. "É um gás tóxico que em um ambiente fechado vai fazer muito mal a quem inalar."
A especialista cita outra substância que caiu nas graças dos internautas nos últimos meses: o percarbonato de sódio, utilizado para remover manchas. "É o mesmo processo do cloro. Se misturado, vai liberar gases que provocam mal-estar."
Segundo Ribeiro, se a embalagem do produto não cita a possibilidade de misturá-lo, significa que isso não pode ser feito. Produtos químicos para limpeza passam por análise rigorosa da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) antes de serem comercializados. E precisam indicar nos rótulos todos os riscos, dosagens e formas de se utilizar.
"Sempre tem um influenciador vendendo a solução perfeita, e as pessoas acabam copiando. Mas a boa prática é não misturar", afirma biomédica.
Os produtos de limpeza são classificados por seu pH ou pelo potencial de liberar gases tóxicos. Aqueles que têm pH entre 2 e 11 pertencem à escala de potencial hidrogeniônico e precisam de notificação na Anvisa para serem vendidos.
Já os de pH menor que 2 (altamente ácidos e corrosivos) ou acima de 11,5 (também altamente corrosivos, com potencial moderado a alto de causar lesões na pele e olhos) são ainda mais restritos.
Conheça os danos das misturas à saúde e saiba como evitar.
ÁGUA QUENTE
A água em alta temperatura é um catalisador das substâncias. Ou seja, vai acrescentar energia às estruturas atômicas e converter seu estado físico.
Na maior parte dos casos, a água quente não deve ser utilizada com produtos de limpeza. "Quando puder, o rótulo vai indicar, mas mesmo nessa hipótese, quem usa precisa saber a temperatura e tempo correto para o processo de aplicação do produto", diz Ribeiro.
Na lavagem do banheiro, por exemplo, não se deve utilizar água quente com cloro. A biomédica destaca que esquentar o produto não necessariamente vai elevar seu poder de ação. No caso do hipoclorito utilizado em desinfetantes, a adição de água quente pode liberar oxigênio e favorecer a propagação do fogo.
Para remoção de manchas em roupas, alguns produtos, como peróxido de hidrogênio, podem ser usados com água morna, seguindo criteriosamente a orientação do rótulo.
PRODUTOS DE COZINHA
Há receitas na internet que prometem uma acidez elevada causada pelo bicarbonato de sódio com o vinagre. A mistura, hipotéticamente, seria eficaz para diluir sujeira difícil e desentupir ralos, por exemplo. Mas ambos se anulam.
"Aquela espuminha que você pensa ser de algo potente é apenas um anulando o outro", afirma.
Produtos de cozinha devem, via de regra, ficar longe da faxina. Daiane afirma que eles possuem concentrações específicas para os fins indicados. Por vezes, nem serão eficientes para desinfecção microbiológica, por exemplo.
COMO UTILIZAR CORRETAMENTE CADA PRODUTO
O primeiro passo é usar cada coisa para sua finalidade. Limpa-vidros não serve para limpar o chão. Tira-limo não é desengordurante.
A especialista explica que a eficiência do produto aparece no uso incorreto. "Por isso é importante ler o rótulo, até para obter o benefício que o produto vai entregar. Se você usa um desinfetante diluído em água, por exemplo, sem a fazer a diluição correta, o único benefício será o cheiro. Vai anular todo o poder de desinfecção, e as bactérias vão continuar ali", diz Daiane.
Deve-se ainda respeitar o tempo de reação dos produtos. Aplicar e esperar o tempo para agir sobre a sujeira. Cada concentração tem um tempo específico, e adicionar outras substâncias não vai agilizar o processo.
RISCOS RESPIRATÓRIOS
O pneumologista Marcelo Ceneviva Macchione afirma que, de modo geral, todos os produtos de limpeza são irritantes para a via aérea.
O médico cita um estudo publicado em 2018 com mais de 6.200 participantes acompanhados por até 20 anos, que associou a exposição a atividades de limpeza a um declínio mais acelerado da função pulmonar em mulheres.
Uma análise sobre o trabalho estimou que a magnitude da perda era comparável à observada em pessoas que fumavam de 10 a 20 cigarros por dia.
"De modo geral, todos esses produtos são irritantes para a via aérea: irritam nariz, garganta, traqueia e bronquios. Quem já tem doença respiratória, como asma ou bronquite, precisa ter muito cuidado, pois as complicações podem ser muito rápidas e, em casos extremos, levar à morte por insuficiência respiratória", diz.
Por isso a sensação de tontura quando se mistura os produtos de limpeza; ou ainda o fechamento da garganta.
"A reação pode ser imediata, com tosse e irritação na garganta. Mas pode haver ainda uma exposição mais tardia, um broncoespasmo (contração involuntária dos músculos dos brônquios que estreita as vias aéreas e dificulta a passagem do ar para os pulmões) ou um edema pulmonar (acúmulo de líquido nos alvéolos pulmonares que reduz a oxigenação)."
COMO EVITAR PROBLEMAS RESPIRATÓRIOS
Segundo Macchione, deve-se promover a ventilação do ambiente durante o uso dos produtos. Abrir janelas e portas, por exemplo, para facilitar a circulação de ar.
"Não é necessário usar uma máscara na maioria das vezes se o uso for feito corretamente. Quando necessário o uso de alguma proteção, isso estará indicado no rótulo", destaca Daiane.
Ao sentir algum dos sintomas respiratórios, deve-se deixar o ambiente e procurar ar fresco até amenizar a situação.
CONTATO COM A PELE
O dermatologista Victor Bechara afirma que as reações dos produtos quando misturados podem resultar em dermatite, também pela irritação.
"Isso vai acontecer nos locais de contato, principalmente continuado, como as mãos e ao redor das unhas", diz.
É comum, segundo ele, que pessoas expostas frequentemente a produtos de limpeza tenham sinais na pele, como mãos avermelhadas e rachaduras. Os danos podem também atingir as unhas.
As rachaduras, quando profundas, podem facilitar infecções a partir das fissuras na pele. Recomenda-se, ao término da limpeza, uma lavagem eficiente das mãos com detergente neutro, e uso de cremes bloqueadores.
Se possível, o médico sugere usar uma luva impermeável com forro de algodão, para evitar o contato direto com os produtos. Contudo, deve-se evitar o latex que também pode causar dermatite e alergia.
Em casos mais extremos, o ideal é procurar o médico para tratar as lesões e retomar a normalidade da pele.
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