Por que as memórias ficam menos nítidas conforme envelhecemos

Publicado em 25/08/2026, às 21h38
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Galileu

Com o passar dos anos, lembrar de uma experiência do passado pode se tornar mais complexo do que simplesmente “abrir um arquivo” guardado na memória. Segundo um novo estudo feito por pesquisadores da Universidade de East Anglia, na Inglaterra, o envelhecimento está associado não apenas à perda de detalhes das lembranças, mas também a mudanças na maneira como diferentes tipos de memórias são recuperadas.

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A pesquisa, publicada em 27 de julho na revista Psychology and Aging, indica que, conforme envelhecem, as pessoas tendem a se lembrar menos de elementos específicos de acontecimentos passados, como imagens, sons e emoções associados a determinado momento. No entanto, informações mais gerais e interpretações sobre essas experiências ganham espaço. Assim, uma lembrança vívida e específica pode dar lugar a uma versão mais ampla do que aconteceu.

“À medida que envelhecemos, nossas memórias tendem a se tornar menos detalhadas e mais gerais, focando na história como um todo em vez de momentos específicos”, explica o professor Louis Renault, da Escola de Psicologia da Universidade de East Anglia, e principal autor do estudo, em comunicado. Segundo ele, essa transformação está relacionada a alterações na forma como o cérebro recupera informações.

Diferentes tipos de memória

Para investigar o fenômeno, os pesquisadores analisaram as chamadas memórias autobiográficas — experiências pessoais que ajudam a construir a história de vida de cada pessoa. Elas podem ser lembranças de acontecimentos únicos e específicos, como uma festa de aniversário, ou experiências gerais e recorrentes, como o trajeto habitual até o trabalho.

Participaram do estudo 74 pessoas: 37 estudantes e 37 adultos mais velhos. Os voluntários receberam palavras-chave, como “mercado”, e foram convidados a recordar os dois tipos de memória.

Primeiro, eles precisavam recuperar cada categoria separadamente. Depois, foram instruídos a alternar entre lembranças específicas e categóricas. A segunda tarefa exigia maior controle cognitivo, já que os participantes precisavam mudar constantemente o tipo de memória que estavam buscando. Os pesquisadores avaliaram tanto se os participantes seguiam corretamente as instruções quanto o nível de detalhes apresentado em cada resposta.

Alternar entre memórias pode ser mais difícil

A capacidade de alternar entre os dois tipos de lembrança teve um custo para participantes de todas as idades. O desempenho da memória diminuiu quando era necessário mudar de uma categoria para outra, como apontam os autores.

Os adultos mais velhos, porém, foram particularmente afetados na recuperação de memórias repetitivas e corriqueiras. Quando precisavam alternar entre os diferentes tipos de lembrança, tiveram menor precisão ao recordar experiências como o trajeto para o trabalho.

Já as memórias de acontecimentos específicos, como uma festa de aniversário, foram menos afetadas pela tarefa de alternância. Para os pesquisadores, isso sugere que determinados mecanismos de recuperação podem ser mais vulneráveis ao envelhecimento quando a pessoa precisa lidar simultaneamente com diferentes demandas cognitivas.

Menos detalhes, mais conhecimento geral

A diferença mais marcante apareceu quando os cientistas analisaram o conteúdo das lembranças. Ao recordar acontecimentos específicos, os participantes mais velhos apresentaram narrativas com menos detalhes ligados às características sensoriais e emocionais da experiência.

Isso significa que elementos como imagens, sons e emoções associados ao momento tendem a aparecer com menos riqueza. Ao mesmo tempo, os adultos mais velhos apresentaram mais detalhes "semânticos" — informações gerais ou interpretações relacionadas ao acontecimento.

O mesmo padrão apareceu nas memórias categóricas. Em vez de preservar tantos detalhes ligados a uma experiência particular, as lembranças passaram a depender mais de um conhecimento generalizado sobre aquele tipo de situação.

Para os pesquisadores, os resultados mostram que o envelhecimento da memória é mais complexo do que um simples processo de esquecimento. A questão não seria apenas quantas informações permanecem armazenadas, mas também como elas são acessadas e expressas.

“Quando os idosos recordam eventos, a riqueza dessas memórias pode ser reduzida”, afirmou Renoult, em comunicado. De acordo com o pesquisador, essa transformação pode refletir alterações nos sistemas cerebrais envolvidos na recuperação de informações contextuais detalhadas e no gerenciamento de tarefas cognitivas complexas.

As mudanças também podem ter consequências no cotidiano. Situações que exigem alternar rapidamente entre diferentes tipos de lembranças ou adaptar o pensamento — como contar histórias, tomar decisões e resolver problemas — podem se tornar mais difíceis com a idade.

Por outro lado, depender mais de informações gerais não necessariamente representa apenas uma desvantagem. Segundo a equipe de pesquisa, memórias mais generalizadas podem contribuir para a formação de conhecimento, o reconhecimento de padrões e uma comunicação mais eficiente. Assim, embora detalhes de experiências passadas possam ficar menos vívidos, parte do conhecimento extraído dessas experiências permanece.

Agora, os autores esperam que os resultados da pesquisa contribuam para novas abordagens voltadas à promoção de um envelhecimento cognitivo mais saudável.

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