Por que o futebol era proibido para mulheres no Brasil até 1979?

Publicado em 12/06/2026, às 22h37
- Thais Magalhães/CBF

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Pela primeira vez, a Copa do Mundo Feminina será sediada no Brasil, de 24 de junho a 25 de julho de 2027. A expectativa é que o mundial reúna mais de três milhões de torcedores, beneficiando os setores de turismo, serviços e infraestrutura de oito cidades-sede: Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.

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Em 1º de junho, o Presidente Lula sancionou uma lei que reúne as medidas necessárias para que o país possa sediar o evento. A legislação consolida um ambiente de segurança jurídica, bem como estabelece princípios voltados à promoção da igualdade de oportunidades entre homens e mulheres no esporte.

Mas nem sempre o futebol feminino foi algo apoiado no Brasil. Você sabia que, por mais de 40 anos, as brasileiras foram proibidas de jogar futebol? A proibição começou na ditadura do Estado Novo (1937-1945), quando o então presidente Getúlio Vargas assinou, em 1941, um decreto-lei removendo o direito das mulheres de praticar esportes considerados no período “incompatíveis com as condições de sua natureza”.

Para as autoridades, era inaceitável que as brasileiras trocassem o lar pelo gramado. Sob a lógica machista da época, acreditava-se que elas eram "delicadas demais" para o esporte e que a violência dentro de campo poderia "impedi-las de serem mães". Uma cotovelada no seio, por exemplo, prejudicaria a amamentação; uma bolada no útero as deixaria estéreis; já os xingamentos e as jogadas desleais levariam a uma suposta degeneração moral do “sexo frágil”.

Enrijecimento após o golpe de 64

Devido ao veto, o Conselho Nacional de Desportos (CND), subordinado ao Ministério da Educação cancelou vários jogos femininos. Houve até partidas encerradas à força pela polícia. Como várias mulheres desobedeciam, o órgão enrijeceu a proibição em 1965, na ditadura militar. Enumerou vários esportes "incompatíveis" com o sexo feminino: além do futebol, o futsal, futebol de praia, polo aquático, rúgbi, beisebol, halterofilismo e qualquer tipo de luta.

No período militar, os jogos de várzea eram vistos como indesejáveis, mas não eram oficialmente vetados. A proibição era voltada sobretudo para partidas em estádio, abertas ao público e organizadas profissionalmente. Ainda assim, em alguns casos, mulheres foram presas por praticar o esporte e outras foram acusadas de serem cafetinas.

"O principal efeito da proibição, porém, não foi apenas policial", explica à GALILEU a historiadora Aira Bonfim, autora do livro Futebol Feminino no Brasil: entre festas, circos e subúrbios, uma história social (1915-1941). "Ela produziu um ambiente de medo, invisibilidade e precariedade. As atletas não podiam contar com clubes estruturados, campeonatos oficiais, categorias de base ou reconhecimento federativo. Em muitos casos, jogavam sabendo que estavam desafiando uma norma estatal".

A historiadora conta que, para contornar as restrições do governo, partidas beneficentes, festivais e jogos amistosos eram frequentemente anunciados como atrações de entretenimento. Ela acredita que, sem a resistência das jogadoras, dificilmente a modalidade teria conseguido se reorganizar após o fim das restrições legais. "O que a história revela é que o futebol feminino brasileiro não surgiu com a regulamentação. Ele sobreviveu a ela", diz.

CPI da Mulher

Em 1977, uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) formada por senadores e deputados passou a questionar a proibição. Como não havia uma estrela nacional feminina nos gramados, a CPI mista não escutou nenhuma jogadora de futebol, mas recebeu a ex-nadadora Maria Lenk, segundo informa a Agência Senado.

Lenk argumentou que o esporte não esteriliza e nem anula as características femininas das mulheres. Citando o especialista americano Kenneth Cooper, que nos anos 1960 ganhara fama por defender os exercícios aeróbicos — assim como a corrida hoje chamada “cooper” — ela destacou que a prática esportiva é benéfica para a saúde, consequentemente, ajudando no aspecto reprodutivo feminino.

Primeira mulher da América do Sul a competir nos Jogos Olímpicos, em 1932, Lenk lembrou ainda que, dos atletas registrados nas federações, só 6% eram mulheres. Portanto, o veto ao futebol feminino afetava todos os esportes, inclusive aqueles já autorizados pelo governo para as brasileiras.

MDE/Divulgação/Agência Senado

 

Outros diversos participantes da CPI da Mulher, incluindo o autor da comissão, Nelson Carneiro (MDB-Guanabara), também condenaram o veto ao futebol feminino. No pedido de criação da CPI, Carneiro escreveu que a sociedade brasileira dava às mulheres “tratamento de segunda classe”.

Já em seu depoimento, a jornalista Íris de Carvalho, que tivera uma coluna sobre tênis nos diários cariocas Correio da Manhã e O Jornal, lembrou que, numa mesma modalidade, os prêmios dados às campeãs eram invariavelmente mais baixos que aqueles entregues aos campeões.

A CPI da Mulher se encerrou em outubro 1977, após seis meses de trabalho investigativo. Ironicamente, entre os 22 políticos participantes, havia apenas uma mulher, a deputada Lygia Lessa Bastos (Arena-RJ), que elaborou o relatório final com uma série de recomendações para diminuir a desigualdade de gênero no país. Em relação aos esportes, a relatora pediu a revogação das normas que limitavam aqueles permitidos às mulheres. Também recomendou maior participação delas na direção de entidades esportivas.

A liberação gradual

A ditadura militar ignorou as recomendações da CPI. A proibição só começaria a cair dois anos mais tarde, em 1979, quando a proibição legal foi revogada. Mesmo assim, as mulheres ainda encontravam barreiras.

O CND lançou uma norma estabelecendo que as mulheres poderiam praticar qualquer esporte que já estivesse regulamentado pela respectiva entidade internacional. Só que, na época, nem mesmo a Fifa (Federação Internacional de Futebol) reconhecia a legitimidade do futebol feminino. "Portanto, as mulheres continuam impedidas, por exemplo, de protagonizar partidas nos estádios brasileiros", diz um artigo do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos a respeito do tema.

No Brasil, um dos principais adversários da liberação foi o ex-técnico da seleção masculina de futebol João Saldanha, que fazia declarações machistas e duvidava da performance das jogadoras. Até Pelé se manifestou contra: "Pode até ser um passatempo, mas não um verdadeiro esporte para as mulheres", disse.

Biblioteca Nacional Digital/Agência Senado

 

Em 1983, diante de sinais de que a Fifa abriria espaço para as mulheres, o CDB aprovou finalmente a norma que as liberava jogar futebol, submetendo a modalidade às federações estaduais e à Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

À Agência Senado, a historiadora Giovana Capucim e Silva explica que a ditadura militar passou a ver o futebol feminino com outros olhos após a vitória do Brasil na Copa do Mundo de 1970, uma vez que a conquista do tricampeonato aumentou a popularidade do governo autoritário.

Já Aira Bonfim lembra que a revogação da proibição não foi resultado de uma única campanha ou de uma decisão isolada do governo, tendo ocorrido a partir de várias transformações sociais, políticas e culturais que marcaram o Brasil das décadas de 1970 e 1980. Enquanto as jogadoras persistiam organizando partidas, o país vivia um período de abertura política, com o movimento feminista ganhando força em diferentes esferas, incluindo o esporte.

Além disso, o futebol feminino crescia na Europa, Ásia e Américas, conforme os argumentos científicos usados para justificar o veto — como supostos riscos à maternidade ou à saúde feminina — passaram a ser contestados pela comunidade científica.

A especialista observa ainda que, até hoje, a proibição deixou marcas visíveis, como o atraso no desenvolvimento da modalidade, o reforço de preconceitos contra as mulheres e o apagamento da história de jogadoras e equipes, "criando a falsa impressão de que o futebol feminino é algo recente no Brasil".

"As desigualdades de investimento, visibilidade e oportunidades observadas hoje não podem ser compreendidas sem considerar esse passado", ressalta Bonfim. "Ao mesmo tempo, a trajetória do futebol de mulheres (as que jogam, trabalham, torcem, comunicam, pesquisam…) é marcada pela resistência de gerações de mulheres que continuaram atuando e lutando pelo direito de ocupar os espaços ditos 'inadequados a elas'".

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