Terra
Além de ser conhecida como a casa do time de revelou o Rei Pelé, a cidade de Santos, no litoral de São Paulo, também atrai turistas e chama atenção pelos mais de 300 prédios tortos na cidade, sendo 65 somente na avenida da praia. Mais recentemente, a prefeitura e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) passaram a discutir a proposta de reaprumo das edificações.
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A reunião ocorreu no último dia 25, onde foram apresentadas soluções de engenharia para a situação das edificações, localizadas entre as praias dos bairros Gonzaga e Aparecida, além de discutir propostas de financiamento para tirar o projeto do papel e resolve as declividades resultantes do tipo de fundação utilizada na cidade há mais de 60 anos, associada às condições do solo.
“Naquela época, a metodologia desses prédios foi o uso de sapatas a aproximadamente 5 metros de profundidade. Hoje, o que é usado nas diversas obras, inclusive obras públicas, são estacas que chegam a 50 metros de profundidade em busca de um solo mais firme”, afirma o prefeito Rogério Santos ao Terra.
Segundo o chefe do Executivo, a administração acompanha de perto esses prédios, que não oferecem risco iminente para os moradores, mas que tem um alto custo de manutenção, como em elevadores e rede de esgoto.
Mas por que os prédios ficaram tortos?
Para explicar essa questão, o engenheiro Paulo Pimenta, responsável pelas obras de reaprumo de quatro edificações da cidade e que também está envolvido neste novo projeto, aponta uma semelhança do solo da região com o de Pisa, na Itália, onde está localizada a Torre de Pisa.
Na cidade italiana, há uma camada de argila mole por baixo da torre, que tem menos de 15 metros de espessura. Já no município litorâneo paulista, a cama de areia é de 10 metros de espessura, mas, abaixo dela, há também uma de argila marinha, de mais ou menos 50 metros.
“Ou seja, é uma argila que se acumulou ao longo dos milhares de anos dentro do mar. E ela é muito mole, cheia de água. Na hora que você comprime essa argila, a água sai e deforma muito. Ela recalca, como a gente diz em engenharia.”
Ocorre que na década de 50 até 70, os engenheiros achavam que os prédios iam descer por causa dessa camada de argila, mas ninguém pensou que pudessem inclinar, segundo Pimenta. Isso acontece porque um edifício interfere no outro, principalmente quando são construídos na mesma época. “Há uma tendência de um se inclinar na direção do outro”, enfatiza.
É possível fazer essas obras?
Pimenta afirma que sim. Um dos modelos usado como prova é a correção da inclinação do edifício Núncio Malzoni, que estava 2,2º graus desaprumado em um dos blocos e de 1,8° em outro. “Para você ter uma ideia, a torre de Pisa é 4º, mas é mais baixinha”, usa a comparação novamente ao dizer que a edificação é de alvenaria intertravada, não possuindo grandes vãos, sem vigas ou pilares. “Os prédios não aguentam 4º”, aponta.
A obra, executada nos anos 2000 e custeada pelos próprios moradores, consistiu em fazer uma estrutura por baixo do prédio, abraçando os pilares e jogando o preso nas estacas escavadas na lateral do edifício, uma espécie de apoio. Também foram colocados macacos hidráulicos para o reaprumo, para a suspensão, que permitiu a execução da nova fundição e reaprumo. Inclusive, quem vê o prédio hoje em dia, nem imagina que ele já foi torto.
O resultado desse estudo foi apresentado para o BNDS, para tentar viabilizar esse financiamento, que caso ocorra, será inédito. “A gente entregou a documentação para o BNDES esse BNDES, que está buscando um formato jurídico para apresentar a proposta, porque não é a finalidade do Banco as questões habitacionais e também existe toda uma dificuldade em relação a esse tipo de financiamento”, explica Rogério Santos.
É preciso mesmo fazer essa obra?
Para além da qualidade de vida dos moradores, as obras são importantes para manter a estrutura no lugar. Pimenta diz que não é um problema tão iminente de segurança, ou seja, os prédios que estudados têm de 10 a 15 anos de vida ainda útil, se não mais até, dependendo de como evolui a encenação.
“Mas é um problema que precisa estar atento. Acho que não se pode falar, ‘ah, então você está seguro, então vamos esperar 10, 15 anos’. Mais lá na frente, você vai ter um ano para fazer a obra e olha lá, e sem dinheiro ninguém faz”, finaliza.
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