Reconhece a ansiedade, mas adia a busca por ajuda? Entenda o que pode estar por trás

Publicado em 11/09/2026, às 14h30
- Medo de parecer fraco, isolamento e tentativa de resolver tudo sozinho estão entre os fatores que podem atrasar a busca por cuidado (Yalenika_art | Shutterstock)

Redação EdiCase

Reconhecer que algo não vai bem nem sempre significa buscar ajuda. Uma pesquisa do Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel, realizada com 3.266 brasileiros, mostrou que 68% dos entrevistados relataram ter se sentido nervosos, ansiosos ou muito tensos. Apesar disso, 55,8% afirmaram não ter procurado um profissional de saúde para lidar com questões relacionadas à ansiedade.

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O cenário revela um dos principais desafios quando o assunto é saúde mental: muitas pessoas identificam o sofrimento, mas continuam adiando o cuidado. Entre os motivos estão a tentativa de normalizar os sintomas, o medo de parecer frágil, a dificuldade de reconhecer que é preciso ajuda e até a falta de conexão com outras pessoas. A Organização Mundial da Saúde também aponta o estigma, a falta de informação e as dificuldades de acesso como barreiras importantes para o tratamento dos transtornos de ansiedade.

Para Erica Rodrigues, professora da DomEduc e especialista em saúde mental no ambiente corporativo, um dos primeiros obstáculos é justamente entender quando o sofrimento deixou de ser uma reação pontual e passou a interferir na vida.

“É esperado sentir estresse e ansiedade diante de situações difíceis. O sinal de alerta aparece quando essas emoções passam a fazer parte da rotina, com dificuldade para desligar, alterações persistentes no sono, irritabilidade, queda na concentração ou sintomas físicos frequentes. Quando o sofrimento começa a comprometer o trabalho, os relacionamentos, o lazer ou a saúde, ele merece mais atenção”, explica.

Já Mara Leme Martins, psicóloga e VP do BNI Brasil, chama atenção para outro fator que pode dificultar a busca por ajuda: o isolamento. “Às vezes, a pessoa está cercada de gente, mas não consegue falar sobre o que está sentindo. O medo de julgamento, a sensação de inadequação ou de inferioridade e até a dificuldade de pedir ajuda podem fazer com que ela tente resolver tudo sozinha. Reconhecer esse sentimento e construir conexões mais profundas é um passo importante para sair desse isolamento”, afirma.

Segundo as especialistas, alguns fatores ajudam a explicar por que alguém pode reconhecer que precisa de ajuda, mas continuar adiando a decisão. Confira alguns deles!

1. A pessoa se acostuma com o sofrimento

Quando a ansiedade se mantém por muito tempo, é possível que a pessoa passe a enxergá-la como parte da própria personalidade ou da rotina. “Um dos riscos é transformar o sofrimento em algo normal. A pessoa pensa ‘eu sempre fui assim’, ‘meu trabalho é muito estressante’ ou ‘todo mundo está cansado’. Mas o fato de ser comum não significa que precisa ser suportado sem cuidado. É importante observar quando a ansiedade começa a limitar a vida”, orienta Erica Rodrigues.

2. Existe medo de parecer fraco

Para profissionais acostumados a entregar resultados, admitir que precisam de ajuda pode parecer uma demonstração de fragilidade. “Existe uma cobrança muito grande para dar conta de tudo e, principalmente no ambiente profissional, algumas pessoas acreditam que precisam demonstrar controle o tempo inteiro. Pedir ajuda não significa incapacidade. Pelo contrário, reconhecer os próprios limites e buscar recursos para lidar com eles também é uma forma de responsabilidade”, afirma Erica Rodrigues.

Tentar lidar com tudo sozinho pode aumentar o sofrimento e dificultar a percepção de que é hora de pedir ajuda (Imagem: Amittzi | Shutterstock)

3. A pessoa tenta resolver tudo sozinha

A dificuldade em pedir ajuda pode fazer com que o indivíduo acumule sofrimento até que os sintomas se tornem mais intensos. “É importante saber que você não precisa enfrentar tudo sozinho. Conversar com alguém de confiança, procurar apoio e até participar de ambientes em que seja possível construir novas conexões pode ajudar. O primeiro passo é reconhecer o que está acontecendo, em vez de esconder o sentimento ou fingir que ele não existe”, destaca Mara Leme Martins.

4. Falta uma rede de apoio

A solidão pode tornar mais difícil perceber que determinadas dificuldades não precisam ser enfrentadas individualmente. “Quando conseguimos estabelecer relações em que existe confiança e espaço para falar sobre o que sentimos, fica mais fácil pedir ajuda. Ter pessoas com quem conversar, seja no trabalho ou fora dele, diminui a sensação de isolamento e pode ajudar a identificar que aquilo que estamos vivendo merece atenção”, explica Mara Leme Martins.

5. A pessoa espera chegar ao limite para procurar ajuda

Um dos equívocos mais comuns é imaginar que só existe motivo para buscar um profissional quando o sofrimento já está muito intenso. “Não é preciso esperar uma crise para procurar ajuda. O cuidado também pode acontecer de forma preventiva. Se a pessoa percebe que está constantemente exausta, ansiosa, irritada, com dificuldade para dormir ou que deixou de fazer coisas que antes eram importantes, já existe uma oportunidade de olhar para isso com mais atenção”, afirma Erica Rodrigues.

Para Mara Leme Martins, falar sobre saúde mental também passa por criar espaços em que as pessoas não precisem esconder o que estão vivendo. “Quanto mais naturalizamos a possibilidade de pedir ajuda, mais cedo as pessoas conseguem falar sobre o que estão sentindo. Muitas vezes, o primeiro passo não é ter todas as respostas, mas conseguir dizer ‘não estou bem’ e permitir que alguém faça parte desse processo”, conclui.

Erica Rodrigues reforça que o cuidado não deve ser entendido como uma tentativa de eliminar todas as emoções difíceis, mas como uma forma de desenvolver recursos para lidar melhor com elas. “Saúde emocional não significa estar bem o tempo todo. Significa ter repertório para reconhecer o que está acontecendo, entender seus limites e buscar ajuda quando aquilo começa a ultrapassar o que você consegue administrar sozinho”, finaliza.

Por Maria Carolina Rossi

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