GILSON MONTEIRO
As redes sociais nasceram para conectar pessoas, mas acabaram se tornando um território de desinformação, discursos de ódio, consumo excessivo e corrida infinita por atenção. Mas em meio a todo esse ruído, as mesmas plataformas também podem ser espaços de solidariedade e ajuda.
Um clique nunca foi tão poderoso. No Brasil, as redes sociais deixaram de ser apenas vitrines de vidas editadas para se tornarem pontes reais entre quem pode ajudar e quem precisa de ajuda. Doar, hoje, também é um gesto digital.
A força da imagem e da narrativa curta transforma histórias individuais em causas compartilhadas. Uma foto, um vídeo ou um depoimento gravado no celular são suficientes para mobilizar milhares de pessoas, atravessar bolhas sociais e converter empatia em ação concreta.
ONGs, coletivos e movimentos sociais se adaptaram à linguagem das novas plataformas. Com isso, campanhas que antes dependiam de longos processos agora ganham alcance em larga escala em poucas horas. Vaquinhas digitais viralizam, emergências são compartilhadas em tempo recorde e a doação deixa de ser um ato distante para se tornar acessível, possível e imediato. Com isso, as redes sociais encurtam caminhos entre a intenção e o gesto de doar.
No vasto universo digital, projetos, entidades e páginas trabalham para angariar doações, incentivar o voluntariado, transformando as redes em um espaço realmente social.
Projeto que nasceu como uma página de conscientização, o SP Invisível se transformou em uma das maiores ONGs do ramo.
No Instagram, a entidade transforma a tela do celular em um espaço de escuta, encontro e humanidade. No lugar do luxo e ostentação, dramas e vivências sem glamour. Ao invés das selfies em paraísos turísticos ou humor de um cotidiano ensaiado, registros de uma realidade crua e sem filtros, mas que precisam ser mostrados.
Cada história publicada é um convite a enxergar além das calçadas; cada vida compartilhada rompe o silêncio e o anonimato impostos à população em situação de rua. São rostos, nomes e trajetórias reais que ganham voz e revelam não apenas as dificuldades e rupturas que levaram alguém à rua, mas também sonhos, afetos, resistência e a luta cotidiana por dignidade e sobrevivência.
O @spinvisivel provoca empatia, mobiliza afetos e convoca à ação. Um trabalho que hoje conta com mais de 2 mil voluntários.
A ONG atua nas ruas da capital paulista com várias frentes, como o projeto Fome Invisível, que distribui refeições balanceadas três vezes por semana, promovendo acolhimento e dignidade. Também oferece acolhimento durante o inverno, com kits de frio e apoio psicossocial, e desenvolve iniciativas de capacitação e reinserção no mercado de trabalho por meio da Escola Invisível, que busca autonomia para quem vive em situação de rua.
😢Histórias que sensibilizam e educam
Com quase meio milhão de seguidores, é impossível passar ileso pelo feed da SP Invisível. Uma rede que não busca likes, mas sensibilizar, educar e conscientizar.
Quando o engajamento desperta empatia e se transforma em ação, acaba contribuindo com projetos como o SP Invisível. Criada em 2014, a ONG tem números expressivos: São mais de 1400 histórias contadas, 242 mil pessoas atendidas e 755 ações realizadas (dados até 2024)
“As redes são utilizadas para promover empatia e reflexão, sempre priorizando o protagonismo das pessoas retratadas. As histórias são contadas com consentimento, cuidado e respeito, evitando qualquer abordagem sensacionalista. O objetivo é gerar compreensão social e mobilização consciente", contou, em entrevista ao TNH1, o cofundador da entidade, André Soler.
"Ao contar histórias de pessoas em situação de rua com cuidado e respeito, a SP Invisível busca ampliar a compreensão da sociedade sobre o tema, dar visibilidade a indivíduos historicamente invisibilizados e provocar reflexões mais profundas sobre desigualdade, direitos e cidadania. Esse processo contribui para uma mudança de percepção social que não se mede apenas em números", ressalta Soler.
O feed da SP Invisível traz histórias como a de Júlio, de 29 anos, que há 10 anos vive nas ruas. “Carrego muito barulho dentro de mim, não consigo silenciar. Choro escondido, porque aqui lágrima é fraqueza”, diz o jovem que segue tentando sobreviver à perda da mãe.
Na Avenida Pacaembu os voluntários encontraram Oglacir, de 89 anos. Artista circense, que hoje enfrenta fome e falta de abrigo nas calçadas paulistas. “O que eu fiz para merecer passar fome aos 89 anos? Eu era artista desde novinho como você, trabalhava em circo e conhecia vários países! Hoje, bom... você já sabe o resto, né?”, reflete o idoso.
"Aqui na rua a fome te ensina a ser humilde. A rua é professora dura", conta Tiago, de 39 anos, já há bastante tempo vivendo em situação de calçada, onde a lei da sobrevivência impera: "A Disciplina é questão de de sobrevivência, porque a rua não dá segunda chance".
"Meu nome é Douglas, tenho 25 anos, estou há 7 meses em situação de calçada", assim começa o depoimento de um jovem que foi parar nas ruas após se tornar dependente químico.
"Não me orgulho disso, nem um pouco, mas não quero trazer sofrimento para eles", conta o rapaz no perfil da ONG em das centenas de histórias contadas na página.
Outro exemplo é a Gerando Falcões. Um ecossistema de desenvolvimento social que ajuda a transformar a realidade de favelas e periferias no Brasil.Fundada em 2011, hoje com mais de 5.500 favelas impactadas em todos os estados brasileiros e milhares de líderes sociais formados, a ONG busca capacitar e empoderar moradores das comunidades para que sejam protagonistas de suas próprias mudanças, construindo um futuro com mais oportunidades, inclusão e autonomia.
"Eu acho que o futuro vai ser extraordinário. Temos um momento único na história humana: um menino que mora em uma favela pode ter um grande poder, pois tem um celular na mão. Quero estimular uma nova geração de empreendedores sociais, trabalhando com inovação e tecnologia", afirma Edu Lyra, fundador da ONG.
No perfil @gerandofalcoes você confere entre muitas histórias a do senhor Adilson (foto abaixo), que conquistou um lar por meio do projeto Favela 3D, uma das açoes da ONG. Uma casa ecológica com a estrutura, conforto e dignidade que ele nunca teve em seu antigo barraco. "É uma casa de tijolo de verdade. É outra coisa né", comemora.
📉PESQUISA REVELA IMPACTO DAS REDES NA CULTURA DA DOAÇÃO E SOLIDARIEDADE
Nesse ecossistema, o Instagram se consolidou como um dos principais catalisadores da cultura da doação. É o que mostra a Pesquisa Doação 2024, coordenada pelo IDIS - Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social e realizada pela Ipsos.
No estudo, o poder de mobilização das redes sociais e de influencers é mencionado por 15% dos doadores. Entre esses doadores, o Instagram se consolida como a rede que mais influencia 85%, seguida, de longe, pelo Facebook, que apresentou queda em relação a 2022, com 36% da preferência.
O TIK TOK fica com 10% dos doadores, o X (antigo Twitter) com 5%. Nesse “bolo” de interatividade, plataformas como WhatsApp aparece bem posicionado, com 18% dos doares preferindo o app de mensagens; seguido do Youtube com 15%.
“O formato visual contribui para que o doador possa conhecer mais sobre a organização, os beneficiários e o impacto gerado, contribuindo para dar mais segurança. A rede destaca-se também pela praticidade, com integração com links que tornam o caminho do interesse à doação muito curto”, avalia Luisa Gerbase de Lima, Gerente de Comunicação e Conhecimento no IDIS, em entrevista ao TNH1.
Outro ponto relevante do levantamento é que, além de influenciar mais, o Instagram também apresenta os maiores valores médios doados entre as redes: R$ 1.322 em 2024. A cifra supera o Whatsapp, que ocupava a primeira posição em 2022.
O LinkedIn foi a rede que apresentou o maior crescimento na média do valor doado, subindo para a segunda colocação. Já o X (antigo Twitter) aparece com a média de mais baixo valor (R$ 206).
📲REDES SOCIAIS COMO UM NOVO ESPAÇO DE SOLIDARIEDADE
Os números do IDIS desenham um processo de consolidação das redes sociais como novos “espaços de solidariedade” no Brasil. A gerente de comunicação do IDIS pondera que sim, com cautela.
“Nossa leitura é que conteúdos que combinam narrativas de impacto, autenticidade e facilidade de pagamento elevam o tíquete. Importante lembrar: o dado refere-se ao valor total doado por quem foi influenciado pela rede, não apenas a doações feitas dentro dela”, afirma Luisa Gerbase.
“Com cautela, as redes — especialmente o Instagram — potencializam mobilizações, aproximam causas de públicos diversos e encurtam o funil de doação. Em 2024, as mídias sociais foram citadas como vetor relevante de influência, mas elas são meio, não fim: a comunicação precisa estar ligada a impacto real, práticas sólidas de transparência e a jornadas de relacionamento”, afirma.
André Soler, da SP Invisível, faz coro com Luisa Gerbase. "A presença digital é consequência direta da atuação cotidiana nas ruas. As redes sociais funcionam como uma ferramenta de amplificação desse trabalho. Embora o engajamento nas redes ajude a mobilizar apoios e doações, o retorno mais relevante está na dimensão cultural: a formação de uma comunidade mais consciente, o fortalecimento do debate público e a inspiração de iniciativas semelhantes", pondera.
"As redes sociais têm hoje um papel relevante como ferramenta de mobilização e conscientização. Elas ampliam o alcance das causas e facilitam o contato direto com diferentes públicos, mas não são uma solução isolada. Seu potencial está em conectar informação, emoção e ação de forma responsável", destaca André.
📳A FORÇA DO FEED: FAMOSOS CATALIZANDO SOLIDARIEDADE
No Brasil, onde a desigualdade é estrutural e a solidariedade costuma emergir em momentos de crise, as redes sociais se tornaram um atalho entre a urgência e a resposta, se tornando também palco de campanhas que arrecadam milhões.
Durante a tragédia que atingiu o Rio Grande do Sul em abril e maio de 2024, diversas personalidades e influenciadores digitais transformaram suas plataformas em canais de mobilização e ajuda humanitária. Whindersson Nunes, por exemplo, arrecadou mais de R$ 3 milhões por meio de suas redes sociais, direcionando os recursos para o envio de suprimentos e apoio às vítimas da enchente.
Um tipo de ajunda que mobiliza mesmo as pessoas que não fazem doação com regularidades. Segundo a Pesquisa Doação Brasil, 82% da população acredita que situações emergenciais justificam a doação de recursos, e 50% dos brasileiros afirmam ter doado com esse objetivo em 2024.
A modelo Gisele Bündchen, sempre ativa nas redes, colaborou com informações para que seus seguidores soubessem quais são os meios seguros de realizar doações.
A cantora americana Beyoncé usou as redes de sua 'BeyGood', instituição fundada pela diva POP, para divulgar contas bancárias e a chave Pix da Cufa para doações.
Foi pelas redes sociais que se formou também um clima de solidariedade, incentivada por imagens como a de Pedro Scooby, que mobilizou um grupo de surfistas que ajudou no resgate de mais de mil pessoas em Porto Alegre e Região Metropolitana.
Os números do Brasil nas redes sociais mostram o potencial do país nessas plataformas para impactar pessoas e causas. Segundo levantamento da Nielsen, em 2024 o Brasil ocupava a liderança mundial em número de influenciadores digitais no Instagram. No Instagram, 500 mil criadores de conteúdo possuem perfis com mais de 10 mil seguidores.
Solidariedade ou autopromoção? Em meio às tragédias, o questionamento sempre vem à tona. Com mais de 7 milhões de seguidores no Instagram, o ator e humorista Fábio Porchat defende que é preciso usar as redes para impulsionar causas e projetos. Em 2015 fundou a Abace (Associação Buriti de Arte, Cultura e Esporte), organização focada em transformar realidades de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social.
“Eu tento ser um facilitador. Eu não divulgo tudo o que eu faço, mas eu divulgo boa parte do que faço, porque acho importante que as pessoas saibam que é possível. Muita gente fala: não vou divulgar porque vai parecer que eu estou querendo crescer em cima daquilo, me divulgar em cima daquilo, mas eu acho que o público sente quando é isso, se você está querendo se divulgar”, afirmou o ator durante o 3° Seminário Doar: O Ano da Doação, realizado em 2020 pelo Instituto MOL e Movimento Bem Maior.
👨👨👧CULTURA DA DOAÇÃO NO BRASIL PASSA POR MUDANÇAS
A revolução digital e sua consequente criação de um novo espaço de solidariedade na web revela não apenas um modismo, mas algo mais profundo: uma mudança cultural.
A Pesquisa Doação Brasil 2024, do IDIS, aponta que o brasileiro não deixou de doar, mas passou a doar de forma diferente, revelando um claro processo de amadurecimento da cultura da doação no país. O estudo mostra uma recomposição mais seletiva do comportamento doador. O movimento sinaliza que, embora a base de doadores tenha se tornado mais restrita, ela também se tornou mais qualificada e consciente, como avalia Luisa Gerbase de Lima, do Instituto IDIS.
“Vimos um amadurecimento da cultura de doação. Segundo o estudo, o total estimado de doações institucionais chegou a R$ 24,3 bilhões, o maior da série histórica, impulsionado pelo aumento dos valores doados e pelo crescimento da incidência de doadores institucionais, ou seja, que contribuíram com valores em dinheiro para ONGs, campanhas, ou grupos organizados, que passou de 36% (2022) para 43% (2024)”, avalia.
📝 DOADOR MENOS EMOTIVO E MAIS CRITERIOSO
Outro dado central da pesquisa é a mudança no processo de decisão do brasileiro ao doar. O impulso emocional perdeu espaço para uma postura mais crítica e informada: 86% dos doadores afirmam escolher a causa com cuidado e 83% dizem buscar informações antes de contribuir, um avanço significativo em relação a edições anteriores do estudo do IDIS. A confiança passou a ser elemento-chave. Quase metade dos doadores (49%) já deixou de doar após notícias negativas sobre organizações ou campanhas.
Entre os que não doam há mais de cinco anos, o levantamento revela uma mudança inédita: pela primeira vez, a falta de confiança superou as condições financeiras como principal motivo para não doar, sendo citada por 38% contra 37% dos que alegam dificuldades financeiras. No estudo passado 47% alegavam falta de recursos e só 24%, a confiança.
“A Pesquisa revela também um doador menos emotivo e mais criterioso, que busca mais informações antes de doar e se interessa pelo impacto que será gerado. A confiança tornou-se central. O brasileiro busca clareza sobre o uso dos recursos e desiste de doar quando identifica incoerências . Para as organizações, isso significa investir em prestação de contas acessível, comunicação contínua e evidências de resultado”, afirma a Gerente de Comunicação do IDIS.
Marcus Rubortone, fundador e CEO da plataforma Solidarizando, que reúne mais de 1.400 organizações, concorda que as pessoas têm buscado mais informações antes de doar.
“Reconhecemos que as pessoas buscam mais informações antes de doar e, dentro da plataforma, elas encontram recursos para pesquisar, comparar e acompanhar as instituições. Não atuamos no julgamento de notícias ou situações individuais, pois nosso papel é viabilizar conexões responsáveis”, teoriza Rubortone.
🔎DICAS PARA DOAR COM SEGURANÇA
Antes de fazer uma doação, é fundamental adotar alguns cuidados para garantir que sua contribuição realmente chegue a quem precisa. Existem dicas práticas e ferramentas que ajudam os doadores a identificar instituições confiáveis e comprometidas.
"A confiança é um processo construído ao longo do tempo e não um atributo estático. No Brasil, assim como em outros países, o fortalecimento da credibilidade das ONGs passa por práticas cada vez mais consolidadas de transparência, prestação de contas, proximidade com o público e comunicação clara sobre resultados e desafios", ressalta Andre Soler, da SP Invisível. Confira algumas dicas:
🛜PLATAFORMAS AMPLIAM ECOSSISTEMA DIGITAL
Compartilhando causas e a cultura da doação, as redes sociais crescem dentro de um ecossistema digital onde o Instagram e demais redes se retroalimentam com outras plataformas, seja do chamado crowdfunding, em sites como “Vakinha” e “Benfeitoria” e plataformas sociais, como o Solidarizando. A plataforma usa a geolocalização para conectar quem quer ajudar (voluntários e doadores) a quem precisa (ONGs e instituições sem fins lucrativos) de forma simples, gratuita e eficiente.
Hoje, o projeto conta com mais de 150 mil usuários, mais de 1400 instituições ativas nos 27 estados, e mais de 190 mil inscrições realizadas.
As redes sociais, avalia Marcus Rubortone, fundador e CEO da entidade, têm um papel fundamental na formação de um comportamento social que venha fortalecer a cultura de ajudar ao próximo.
De forma mais ampla, entendemos que as redes têm um papel decisivo na formação de comportamento social. Mais do que incentivar a “cultura da doação”, buscamos fortalecer a cultura de ajudar o próximo e a doação passa a ser consequência natural dessa consciência”, afirma. No Instagram o Solidarizando conta com 326 mil seguidores.
As entidades citadas nesta reportagem são poucos dos milhares de exemplos entre ONGs, associações e movimentos que cruzaram os braços diariamente para mudar a realidade de muitos brasileiros.
Alguns cliques na busca da web ou nas redes podem revelar centenas de entidades e projetos precisam de sua ajuda.
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