☰
✕

Os modernos guetos sem muros

Publicado em 18/10/2026, às 11h00

Flávio Gomes de Barros

 
David Gertner, escritor:
 

"Em 29 de março de 1516, o Senado de Veneza determinou que os judeus da cidade vivessem numa área restrita de Cannaregio. Durante o dia, podiam sair para exercer as atividades que lhes eram permitidas. À noite, os portões se fechavam, vigiados por guardas pagos pelos próprios moradores.

Ali funcionara uma fundição. Uma explicação bastante difundida associa a palavra gueto ao veneziano geto, nome ligado à fundição e ao trabalho de fundir metal. A origem exata do termo, porém, continua em debate. O que não se discute é que, a partir de Veneza, a palavra passou a nomear uma forma de separação: manter um grupo à parte, perto o bastante para que sua presença seja útil, longe o bastante para que não seja preciso reconhecê-lo como igual.

Veneza não inventou a segregação. Deu-lhe um endereço, uma administração e um nome. O gueto atendia a uma conveniência: era possível aceitar o trabalho e os serviços de uma comunidade sem acolhê-la plenamente. A proximidade podia ser tolerada desde que permanecesse sob controle.

Séculos depois, o nazismo deu à palavra um sentido ainda mais sinistro. Os guetos da Europa ocupada, como o de Varsóvia, foram parte de um processo de isolamento, fome, exploração, deportação e extermínio. Por isso, é preciso cuidado ao empregá-la hoje. Nem toda desigualdade é um gueto, e nenhuma bolha social deve ser comparada levianamente a Varsóvia. As experiências não são equivalentes. Mas a lógica da separação sobreviveu aos muros derrubados.

As formas contemporâneas de segregação raramente têm portões que se fecham ao anoitecer. Seus limites são traçados pelo preço dos imóveis, pela qualidade das escolas, pela cor da pele, pela origem dos imigrantes, pela falta de transporte, pela violência e pelo abandono do poder público. Há pessoas que podem sair juridicamente de seus bairros, mas encontram poucas oportunidades para escapar das condições que as mantêm confinadas.

Há também formas de isolamento construídas por quem pode escolher onde viver. Condomínios cercados por muros, câmeras e guaritas prometem proteger seus moradores da cidade que os sustenta. De um lado, pessoas têm poucas condições de partir; de outro, pessoas pagam para reduzir o contato com o que existe ao redor. Uns são impedidos de sair. Outros fazem o possível para que ninguém entre.

A cidade fragmentada deixa de ser um espaço comum. O pobre conhece o mundo dos ricos pelas vitrines, pelas telas e pelas promessas. O rico conhece o mundo dos pobres pelas estatísticas, pelas notícias policiais e pelo vidro fechado do automóvel. Vivem a poucos quilômetros, mas parecem habitar países diferentes. Quando se encontram, muitas vezes é numa relação de serviço, vigilância ou medo.
 

Os guetos mais recentes, porém, não ocupam necessariamente bairros. Cabem na palma da mão.

As redes sociais aproximam pessoas que compartilham gostos, opiniões e interesses. Essa afinidade pode criar comunidades, oferecer companhia e tornar visíveis experiências antes ignoradas. Mas a mesma força que reúne também pode isolar. As plataformas selecionam o que vemos a partir dos nossos hábitos e preferências, e tendem a nos oferecer mais do que já prende nossa atenção.

Forma-se então uma vizinhança invisível. Nela, encontramos vozes familiares, recebemos confirmações e ouvimos versões do mundo que raramente nos surpreendem. Aos poucos, aquilo que está fora desse círculo pode parecer estranho, suspeito ou indigno de escuta.
 

Cada comunidade pode construir sua própria coleção de fatos, referências e lembranças. A distância entre grupos deixa de ser apenas uma diferença de opinião. Passa a envolver modos distintos de interpretar o que aconteceu, de decidir em quem confiar e de escolher quais perguntas merecem ser feitas.

O gueto digital não precisa de portões. Suas fronteiras se formam com escolhas repetidas — seguir quem concorda, afastar quem incomoda, compartilhar o que confirma uma convicção — e também com sistemas que aprendem quais conteúdos nos mantêm atentos. Às vezes, o isolamento é deliberado; outras, cresce sem que percebamos, a cada busca, clique ou recomendação.

Também podemos contribuir para o próprio confinamento. Silenciamos quem nos agride, mas às vezes também quem nos contradiz. Procuramos ambientes onde nossas ideias não sejam postas à prova e podemos acabar tomando o silêncio ao redor como sinal de que estamos certos.
 

Toda comunidade precisa de vínculos e de um sentimento de pertencimento. O problema surge quando a proteção se transforma em fechamento; quando a identidade só parece segura diante da rejeição de outras; quando a diferença deixa de ser parte da vida e passa a ser tratada como ameaça.

Os guetos impostos de fora e os círculos construídos por dentro não são iguais. Um nasce da coerção; o outro pode crescer entre escolhas individuais, incentivos comerciais e hábitos que se reforçam. Ainda assim, ambos podem estreitar o horizonte, limitar os encontros e fazer com que o outro apareça apenas como uma imagem distante. A separação se aprofunda quando já não reconhecemos, por trás dessa imagem, alguém capaz de pensar, temer, errar e desejar como nós.

Durante séculos, as fronteiras foram traçadas sobre mapas e erguidas com pedra, lei ou costume. Agora também podem ser construídas por hábitos, filtros e telas. Talvez os muros mais difíceis de perceber sejam justamente aqueles que nos dão a sensação de estar cercados apenas por pessoas parecidas conosco.

Os portões do gueto de Veneza foram abertos em 1797. As fronteiras que hoje nos separam dispensam pedra, guardas e fechaduras. Às vezes, basta que cada tela nos devolva apenas o mundo que já esperávamos encontrar."

Gostou? Compartilhe

LEIA MAIS

O confronto Cordão Azul X Cordão Encarnado Conselheiro da OAB avalia situação do STF, às 8h30m, na TV Pajuçara Populismo + irresponsabilidade: R$ 300 bilhões Análise: "A orgia eleitoral de Lula"