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Imagine a cena: jogo tenso, reta final e o Brasil em busca do gol da vitória. Até que, de repente, a partida é paralisada por causa de um raio que caiu a quilômetros do estádio. Isso pode acontecer na Copa do Mundo deste ano devido ao protocolo de tempestade dos Estados Unidos, e, segundo especialistas, o risco é considerado alto.
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De acordo com as regras de segurança do país, qualquer evento em estádio é interrompido imediatamente se uma descarga elétrica for detectada em um raio de cerca de 13 km. A partida, então, só pode ser retomada se nenhum outro raio for detectado nos 30 minutos seguintes. Se houver algum relâmpago neste período, o cronômetro é zerado e reiniciado até que se cumpra o tempo exigido pelo protocolo. No último fim de semana, por exemplo, o amistoso entre Arábia Saudita e Porto Rico ficou suspenso por cerca de duas horas devido ao mau tempo.
A grande preocupação da seleção brasileira com as tempestades é para o jogo contra a Escócia, pela terceira rodada do Grupo C da Copa do Mundo, no dia 24, pelo fato de ser em Miami, às 18h (horário local, e 19h de Brasília). Segundo a professora Rachel Ifanger Albrecht, do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP), o estado da Flórida é a “capital de raio dos Estados Unidos” e as tempestades tendem a acontecer no final no dia — parecido com o que acontece com as chuvas de verão no Brasil.
— Miami é uma região que depende muito do transporte de umidade, que normalmente é mais intenso no final do dia — acrescenta Marcio Cataldi, professor do Departamento de Engenharia Agrícola e Ambiental da Universidade Federal Fluminense (UFF) — Então, esse horário de 18h é bem, bem difícil. Existe uma chance grande de chuva ao longo do jogo (contra a Escócia).
No entanto, não é somente contra a Escócia que o Brasil pode ter o jogo interrompido ou até mesmo atrasado, se um raio for detectado antes de a bola rolar. Para a professora Rachel, as partidas em Nova Jersey, contra Marrocos, e na Filadélfia, contra Haiti, apresentam risco moderado de paralisação considerando o padrão de tempestades nestes locais nesta época do ano. A boa notícia para a seleção brasileira é que, até a publicação desta matéria, a previsão do tempo indica um céu limpo, sem chance de chuva, para o dia da estreia, sábado, em Nova Jersey.
Já Marcio acredita que o duelo na Filadélfia, por conta do horário, tem grande chance de ser interrompido por uma tempestade de raios.
Obs: As avaliações dos especialistas consideram o padrão de tempestades nesses respectivos locais, de acordo com o horário da partida e a época do ano, verão nos Estados Unidos. Essa não é uma previsão do tempo.
Esse protocolo é realmente necessário?
O torcedor brasileiro foi “apresentado” ao protocolo de tempestades dos EUA na Copa do Mundo de Clubes do ano passado. Na ocasião, seis das 56 partidas do torneio tiveram alguma paralisação por conta de raio, inclusive o jogo entre Palmeiras e Al Ahly, disputado no mesmo palco onde o Brasil irá enfrentar o Marrocos, em Nova Jersey.
O motivo das interrupções das partidas, no entanto, gerava certa confusão nos torcedores, que, da televisão, viam o céu limpo durante a partida, sem sinal de uma tempestade a caminho. A professora Rachel explica que isso é comum e que o protocolo é capaz de identificar raios que podem aparecer “do nada”.
— O protocolo é necessário no sentido de que é uma tempestade que está próxima, que pode estar a caminho do estádio. E não é só isso. Existe a expressão em inglês “out of the blue” (“do nada”, em tradução livre), que quer dizer exatamente um raio que vem do nada: o céu está azul e um raio acontece. Então, existe o risco. Mesmo a tempestade estando a 3 km do estádio, a olho nu você pode ver um céu azul, mas o risco do raio atingir o estádio existe.
O professor Marcio também destaca a importância do protocolo para a segurança das pessoas. Um único raio já poderia causar muitas vítimas no estádio, e por isso o ideal realmente é a prevenção: agir antes da tragédia acontecer.
— Quando há uma descarga atmosférica num campo de futebol molhado, com chuva, essa condição elétrica vai ser muito intensa e pode atingir várias pessoas. Então, é uma situação bastante complicada que pode ter múltiplas vítimas. Não adianta parar o jogo depois que um raio cair, porque pode ser que esse primeiro já faça vítimas. Então, tem que parar antes. Por isso essa regra.
Segundo o protocolo, os jogadores devem ser retirados de campo e abrigados no vestiário, enquanto os torcedores deixam as arquibancadas e são evacuados para áreas seguras dentro do estádio. Essa medida, para a professora Rachel, é essencial para salvar vidas, especialmente as dos atletas, que seriam como para-raios em uma tempestade — os pontos mais altos em um campo grande.
Contudo, como é um protocolo próprio dos EUA, ele não será adotado pela Fifa nos jogos da Copa no México e no Canadá, apesar da previsão de temporal para a abertura da competição, nesta quinta-feira, às 16h (de Brasília), entre México e África do Sul, na Cidade do México. Segundo o jornal português A Bola, autoridades meteorológicas mexicanas emitiram um alerta laranja para a capital do país, indicando a possibilidade de chuvas torrenciais e tempestade. Nos últimos dias, o local sofreu com alagamentos provocados por precipitações intensas.
Com suas rígidas medidas de segurança em relação às questões climáticas, os Estados Unidos irão sediar a grande maioria dos jogos da competição: são 11 estádios — três deles com teto retrátil, o que pode evitar as paralisações (AT&T Stadium, no Texas, NRG Stadium, em Houston, e Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta) — para receber 78 das 104 partidas do total. O México terá apenas três palcos, enquanto o Canadá, dois.
Há algum protocolo parecido no Brasil?
Apesar da importância do protocolo para a segurança das pessoas presentes um estádio de futebol, o Brasil não adota a mesma rigidez em casos de tempestade. Segundo a professora Rachel, o país tem recomendações da Defesa Civil para que pessoas deixem áreas abertas durante tempestades, mas não são regras ou normas nacionais padronizadas, como nos EUA.
Na prática, a decisão ficaria por conta da arbitragem em campo, da organização da competição e das autoridades locais de segurança.
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