Revista Crescer
Nos últimos dias, houve um aumento de buscas pelo termo “vacina russa contra o câncer”, o que gerou também muitas dúvidas. Afinal, teremos novos imunizantes para combater tumores malignos?
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Embora seja uma notícia animadora, na visão de especialistas, é preciso ter cautela! Na última segunda-feira (9), a agência de notícias estatal russa RIA Novosti anunciou que os médicos já selecionaram os primeiros pacientes que receberão a vacina contra o câncer colorretal chamada de Oncopept.
A informação foi divulgada por Veronika Skvortsova, chefe da Agência Federal de Medicina e Biologia (FMBA) da Rússia.
“Foram apresentadas solicitações de cerca de 400 pacientes, não apenas na Rússia, mas também em países vizinhos e distantes, incluindo EUA, Holanda, Israel e outros. Os primeiros pacientes foram selecionados por meio de juntas médicas, o material tumoral foi coletado e a criação das vacinas começou”, disse a chefe da Agência em coletiva de imprensa.
O que é a Oncopept?
Esse tipo de vacina é terapêutica — imunoterapia focada em tratar doenças já existentes. A tecnologia se baseia em uma análise minuciosa do material genético do tumor. Desse modo, os especialistas identificam mutações específicas e, com base nessa avaliação, sintetizam um conjunto personalizado de peptídeos (fragmentos curtos de proteínas).
Ao serem administradas nos pacientes, essas proteínas ensinam o sistema imunológico a reconhecer e destruir com precisão as células tumorais.
No final de novembro, o Ministério da Saúde russo aprovou o uso clínico da vacina terapêutica Oncopept personalizada contra o câncer para o tratamento do câncer colorretal. A expectativa é que a vacina comece a ser aplicada ainda no primeiro trimestre deste ano.
O que é a Enteromix?
Em paralelo, a FMBA também vem desenvolvendo outra vacina chamada Enteromix - com alvo no câncer colorretal também. Desenvolvida pelo Centro Nacional de Pesquisa Médica em Radiologia e pelo Instituto Engelhardt de Biologia Molecular, a vacina utiliza a tecnologia de mRNA — a mesma que impulsionou vacinas contra a Covid-19, como as da Pfizer e da Moderna.
Em entrevista ao India Today, Yulia Mikhailova, oncologista molecular afiliada à equipe de pesquisa, explica que essa vacina não é um produto genérico. “A Enteromix utiliza RNA extraído das próprias células tumorais do paciente para ensinar o sistema imunológico a atacar o câncer”, afirmou.
A vacina passou pelos ensaios iniciais de fase I, ou seja, primeira administração de um medicamento em seres humanos. Segundo os pesquisadores russos, o imunizante apresentou os seguintes resultados:
É preciso ter cautela
Apesar da empolgação do governo russo com as vacinas desenvolvidas contra o câncer colorretal, os especialistas pedem cautela.
Em entrevista à Newsweek em setembro, David James Pinato, cientista clínico e oncologista consultor do Imperial College London, demonstrou preocupação com a qualidade dos dados.
“Eu não consigo entender completamente em que estágio de desenvolvimento essa vacina russa [Enteromix] contra o câncer se encontra”, disse ele. O especialista ainda explicou que os testes pré-clínicos normalmente envolvem testes em animais, portanto, seriam necessários mais testes em humanos para confirmar quaisquer resultados de eficácia.
“O fato de uma vacina ter apresentado 100% de eficácia em animais [se for esse o caso] não significa absolutamente nada. Isso porque, muitas vezes, o sistema imunológico de modelos animais de roedores ou outras espécies usados para testar essas vacinas clinicamente não reproduz a complexidade do genoma do câncer ou do sistema imunológico humano”, destacou.
“Se estes forem realmente resultados pré-clínicos, é incrível, é interessante. É mais um daqueles resultados potenciais que podem levar a um medicamento no futuro, mas de forma alguma é algo que possa ser recomendado para uso clínico [ainda]”, disse ele.
Alguns veículos de notícias relataram que a vacina passou pelos testes clínicos de fase 1. No entanto, o pesquisador do Imperial College London argumenta que isso ainda não é suficiente. “Esses são estudos conduzidos em humanos pela primeira vez e servem para demonstrar se um medicamento é seguro, não se é eficaz.”
“Se os estudos em animais forem concluídos, a primeira autorização possível seria para utilizar esta vacina no contexto de um ensaio clínico em ambiente de pesquisa, certamente não para uso clínico.”
O especialista ainda mencionou que não conseguiu encontrar muitas informações sobre há quanto tempo o tratamento está sendo testado. “Também não consegui encontrar em que locais os resultados foram apresentados, se houve algum tipo de revisão por pares dos resultados, se estamos convencidos de que esse tipo de tecnologia será realmente implementado em humanos.”
Assim como os especialistas internacionais, Maria Isabel de Moraes-Pinto, infectologista do Alta Diagnósticos e coordenadora em vacinas na Dasa, reforça que as etapas de pesquisa das vacinas existem para garantir dois pilares fundamentais: segurança e eficácia.
“Antes de qualquer produto chegar à população, ele precisa passar por estudos pré-clínicos e por ensaios clínicos em humanos (fases 1, 2 e 3), que avaliam desde a dose adequada e os eventos pós-vacinação mais comuns até a real capacidade de proteger ou tratar a doença,” a especialista explicou em entrevista à CRESCER.
“Quando uma vacina ou terapia é anunciada sem essa comprovação científica consolidada, os riscos incluem reações adversas imprevisíveis, toxicidade, respostas imunológicas inadequadas ou até o agravamento da condição do paciente, além de criar falsas expectativas. Em saúde, independente da área em estudo, a validação científica rigorosa pela comunidade científica não é burocracia: é o que protege pacientes e garante que um tratamento realmente faça bem, sem riscos para quem o receber”, afirmou.
Em entrevista ao site sérvio NIN, o professor Vladimir Jakovljević, especialista em fisiologia da Sérvia, comentou que a vacina mRNA foi aprovada para ser aplicada no primeiro paciente.
“Eles aprovaram esse tipo de terapia para melanoma maligno, mas, em teoria, ela poderia ser aplicada a outros tumores também, porque é uma terapia personalizada. Veremos como se desenvolve. Os procedimentos deles, assim como em outros países poderosos do Leste Europeu, podem ser lentos, mas são viáveis. E quando acontecem, tendem a ser bons. Por enquanto, ainda não há dados de um número maior de pacientes que possam nos dar um resultado definitivo”, disse Jakovljević.
Já Emina Milošević, imunologista do Instituto de Microbiologia e Imunologia da Faculdade de Medicina de Belgrado, presume que o uso da vacina na Rússia provavelmente faz parte de algum tipo de ensaio clínico, e não de uma prática estabelecida, porque ainda não há dados publicados.
“Eles não são os únicos. Vários centros estão trabalhando nisso. A BioNTech e a Moderna, entre outras, vêm desenvolvendo vacinas contra o câncer em plataformas de RNA há décadas. O CEO da BioNTech, Uğur Şahin, trabalha com vacinas contra o câncer desde a década de 1990. Então veio a pandemia, e as empresas redirecionaram essa plataforma para um agente infeccioso e uma de suas proteínas”, explicou Milošević.Já existem vacinas contra o câncer?Sim! A vacina contra o HPV é uma aliada contra o câncer de colo de útero. Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — passou a indicar o imunizante Gardasil 9 também para prevenir mais três tipos de cânceres: de orofaringe, cabeça e pescoço.
A nova recomendação foi aprovada para o público de homens e mulheres de 9 a 45 anos de idade. A vacina já era usada como forma de prevenção de cânceres do colo do útero, da vulva, da vagina e do ânus; lesões pré-cancerosas ou displásicas; verrugas genitais e infecções persistentes causadas pelo papilomavírus humano (HPV).
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