Saiba mais sobre o cio em cadelas e gatas e o uso indiscriminado de anticoncepcionais para evitar filhotes

Publicado em 29/10/2025, às 07h33
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Deisy Nascimento

 

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O cio em cadelas e gatas ocorre muito cedo, geralmente elas têm o primeiro cio aos seis meses, mas há diferenças em relação a quantidade de cios durante o ano das cadelas e das gatas. Conversei, desta vez, com dois médicos veterinários, o Dr. Jarbas Correia e a Dra. Mariana Amaral, que vão tirar as dúvidas dos tutores que ainda não sabem detalhes sobre esse assunto. Aproveitei a oportunidade para falar com eles sobre o uso indiscriminado de anticoncepcionais para evitar a prenhez de cadelas e gatas e os malefícios à saúde delas.

Com relação ao cio das cadelas e gatas e os riscos do uso de anticoncepcional, a médica veterinária Mariana Amaral disse que saber identificar o cio, compreender sua frequência e conhecer os riscos de medicações “anticio” é essencial para cuidar da saúde do seu pet com segurança. “As cadelas costumam entrar em cio duas vezes por ano, com intervalos médios de seis meses entre um ciclo e outro. Esse período pode variar conforme o porte e o organismo de cada animal — raças pequenas, por exemplo, tendem a ciclar com mais frequência que as grandes. O cio dura em média entre 15 e 21 dias, sendo dividido em fases que incluem o sangramento, a receptividade ao macho e o retorno ao estado normal”, explicou.

Amaral pontuou que no caso das gatas o ciclo é diferente. Segundo ela, as gatas têm um comportamento reprodutivo bem particular. “Elas são poliéstricas estacionais, ou seja, podem entrar em cio várias vezes ao ano, especialmente nos meses quentes e com maior luminosidade. Além disso, a ovulação nas gatas é induzida pelo acasalamento, o que significa que, se não houver cópula (cruza), o ciclo pode se repetir em poucos dias — o que explica o comportamento vocal e agitado típico das felinas nesse período”.

Os riscos do uso de anticoncepcionais

O médico veterinário Jarbas Correia, cita abaixo os métodos anticoncepcionais usados em cães e gatos e as principais classes comumente discutidas na literatura e pelas diretrizes. São eles:

    •    Progestinas (ex.: megestrol acetate, medroxiprogesterona) — usadas historicamente para suprimir cio/ovulação. Podem ser administradas oralmente, injetáveis.
   
    Esterilização cirúrgica (ovariohisterectomia/ovariectomia) é um método definitivo, largamente recomendado como padrão de controle reprodutivo por benefícios de saúde e bem-estar em muitos contextos.  

Efeitos adversos do uso de anticoncepcionais e principais prejuízos:

A literatura e as diretrizes WSAVA destacam riscos que variam conforme o fármaco, dose, duração e momento do tratamento:
    •    Complicações reprodutivas uterinas (CEH → piometra): uso crônico de progestágenos está associado a hiperplasia endometrial cística e maior risco de piometra em cadelas e gatas. Isso é um efeito bem documentado.  
    •    Risco de lesões mamárias (hiperplasia / tumores mamários): administração de progestágenos, especialmente em doses altas ou por longos períodos tem sido associada a maior incidência de alterações mamárias; o efeito sobre o risco absoluto de neoplasia mamária varia entre estudos, mas é uma preocupação clínica reconhecida.  
    •    Efeitos metabólicos e endocrinológicos: progestinas podem induzir sinais de síndrome metabólica (ex.: diabetes mellitus em gatos) ou alterações endócrinas (alterações do eixo hipotálamo-hipófise-gônadas). Há relatos clínicos e estudos que documentam esses riscos. 
    •    Máscara de sinais / diagnóstico tardio de doenças ovarianas: anticoncepcionais hormonais podem mascarar sinais de cio ou complicar a identificação de alterações ovarianas (cistos, neoplasias), atrasando diagnóstico. 
   
    •    Riscos teratogênicosl: alguns fármacos (p. ex., prostaglandinas ou hormônios aplicados em determinadas janelas gestacionais) podem causar malformações  se usados durante organogênese — portanto uso em gatas/cadelas gestantes é contraindicado.

O médico veterinário, cita também o que as diretrizes WSAVA recomendam:
    •    A WSAVA (2024) publicou diretrizes amplas sobre controle reprodutivo, enfatizando que a esterilização cirúrgica é o método mais consolidado em termos de controle populacional e muitos benefícios de saúde.

Quais são os riscos do medicamento conhecido popularmente como “vacina do cio” ou “anticio”?

Dra. Mariana Amaral reforça que muitos responsáveis pelos animais recorrem a injeções ou comprimidos para evitar o sangramento e o comportamento do estro, cio, mas o uso desses produtos é altamente desaconselhado. “Esses hormônios sintéticos podem causar piometra (infecção uterina grave e potencialmente fatal), além de alterações mamárias como hiperplasia, além de diabetes e problemas hepáticos. O risco aumenta quando o medicamento é aplicado sem avaliação veterinária ou repetidamente. Uma única aplicação pode provocar efeitos colaterais sérios, que podem colocar a vida do animal em risco”.

Cuidados e prevenção segura:

A forma mais eficaz e segura de evitar crias indesejadas e doenças reprodutivas é a castração cirúrgica. Além de prevenir tumores e infecções, a cirurgia contribui para o bem-estar e para o controle populacional de cães e gatos.

Em resumo:
• Cadelas entram em cio cerca de 2 vezes ao ano.
• Gatas podem ciclar várias vezes por ano.
• “Anticio” não é método contraceptivo seguro.
• Castração é a melhor escolha para a saúde da sua pet.

Referências-chave:
    •    WSAVA — Guidelines for the Control of Reproduction in Dogs and Cats (2024/2025).  
    •    Romagnoli S., Progestins to control feline reproduction (revisão/PMCID).  
    •    Lucas X., Clinical use of deslorelin (GnRH agonist) in companion animals (revisão).  
    •    Kutzler MA., Estrous cycle manipulation in dogs (revisão clínica).  
    •    Revisões sobre métodos contraceptivos e riscos (e.g., Contraception in Dogs and Cats — review).

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