O Globo
O pé amputado de um servidor público baiano foi encontrado dentro da própria mochila dele, a cerca de 350 metros do local onde foi socorrido, um dos principais elementos que levaram a Justiça a concluir que ele simulou um crime para tentar receber R$ 1,5 milhão em indenizações de seguradoras. O caso ocorreu em 2019 e, após o trânsito em julgado do processo, o condenado começou a cumprir pena em maio deste ano.
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Vanderley dos Santos Gomes, que atuava em Amélia Rodrigues, no Recôncavo baiano, afirmou à Polícia Civil que havia sido vítima de um assalto seguido de sequestro. Segundo seu relato, ele foi abordado por homens armados ao deixar uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em Cruz das Almas, colocado à força em um carro, agredido e levado para uma estrada de terra, onde teria tido o pé amputado pelos criminosos.
A versão, porém, começou a ruir durante a investigação. A perícia encontrou a mochila do servidor nas proximidades de onde ele foi localizado. Dentro dela estavam todos os objetos que ele alegava terem sido roubados, incluindo celular, relógio e outros pertences, além do próprio pé amputado. Para investigadores e magistrados, o achado contradizia diretamente a narrativa apresentada por Vanderley.
Contradições levaram à condenação
Ao analisar o caso, a Justiça apontou outras inconsistências consideradas decisivas. Os magistrados classificaram como "ilógica" a hipótese de sequestradores amputarem o membro da vítima sem exigir resgate ou demonstrarem qualquer outra motivação. Também pesou contra o servidor o fato de ele não conseguir explicar detalhes essenciais do suposto ataque, como o instrumento utilizado na amputação, sem saber dizer se teria sido uma foice, um facão ou uma serra.
Outro ponto destacado foi a contratação simultânea de quatro seguros de vida apenas seis semanas antes da perda do pé. Para os juízes, a sequência dos acontecimentos indicava planejamento financeiro prévio com o objetivo de obter as indenizações.
Perícias médicas também concluíram que a amputação não era compatível com a dinâmica descrita pelo servidor. Segundo Adriano Scattini, da Advocacia Zacarelli, escritório que representou as seguradoras envolvidas, os exames apontaram que o procedimento não poderia ter sido realizado por meio de golpes violentos durante um assalto.
— Quem ajudou ele tinha conhecimento de técnicas cirúrgicas, o que invalidou a versão de violência e do assalto — afirmou o advogado.
Scattini classificou o episódio como um dos mais emblemáticos do setor de seguros. Segundo ele, as empresas conseguiram identificar a fraude por meio do compartilhamento de informações entre companhias do mercado. — Casos como esses são detectados porque as empresas operam de maneira integrada, que é o melhor meio de combater a epidemia de fraudes contra os seguros — disse.
Condenado por estelionato em primeira e segunda instâncias, Vanderley recebeu pena de dois anos de reclusão, posteriormente convertida em 720 horas de prestação de serviços à comunidade e pagamento de R$ 7.590. A defesa tentou levar o caso ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), mas a Justiça da Bahia entendeu que todas as questões levantadas já haviam sido analisadas ao longo do processo. Sem possibilidade de novos recursos, a condenação tornou-se definitiva.
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