Surto de chikungunya mata indígenas e fecha escolas na maior reserva urbana no Brasil

Publicado em 27/03/2026, às 08h30
Atendimento em quadra de escola em Dourados (MS) diante do surto de chikungunya - Divulgação

Bárbara Sá / Folhapress

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O avanço da chikungunya na maior reserva indígena urbana do Brasil já deixou cinco indígenas mortos, fechou escolas nas aldeias Jaguapiru e Bororó e levou à montagem de um posto improvisado de atendimento dentro de uma quadra escolar em Dourados (MS).

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Segundo boletim epidemiológico da prefeitura, todos os mortos eram indígenas, entre eles dois bebês, de 1 e 3 meses, e três idosos. A crise está concentrada nas aldeias, onde se encontra a maior parte dos casos. A Reserva Indígena de Dourados é território federal.

Com uma área de 3.200 hectares, a área abriga cerca de 21 mil membros das etnias guarani, terena e caiuá.

O recorte indígena do boletim aponta 1.239 casos prováveis, 564 confirmações e 1.396 notificações. O próprio documento afirma que "o foco de maior preocupação ainda são as aldeias indígenas", embora a doença já avance para o restante do município.

Em meio ao avanço da doença, a região enfrentava falta de agentes de combate a endemias nas aldeias, responsáveis por ações de controle do mosquito.

Segundo o diretor da Força Nacional do SUS, Rodrigo Stabeli, não havia previsão de atuação desses profissionais no território indígena, e a contratação emergencial só foi iniciada após a escalada dos casos. "Diante da emergência, está sendo feita a contratação de agentes para atuar no combate."

Stabeli explica que a ausência desses profissionais está ligada a um impasse de responsabilidades entre município, estado e governo federal. "Os agentes de endemias são de responsabilidade do município, mas a área é território indígena federal, o que dificultou a atuação", disse.

O diretor relata que equipes passaram a atuar de forma emergencial com apoio da Força Nacional, estado e prefeitura.

Na semana passada, o avanço da doença levou à suspensão de aulas após professores, funcionários e alunos adoecerem. Na Escola Estadual Indígena Guateka Marçal de Souza, 12 dos 20 funcionários apresentaram sintomas, além de oito professores.

Na Escola Municipal Francisco Meireles, foram cinco professores, um funcionário administrativo e cerca de 30% dos alunos. Na Tengatui Marangatu, 32 funcionários e 30% dos estudantes tiveram sintomas.

Na Escola Municipal Ramão Martins, houve registro de sete professores, nove funcionários administrativos e 30% dos alunos com casos. Na Escola Municipal Lacuí, na Bororó, o índice chegou a 10% dos alunos.

A explosão de casos levou à criação de uma estrutura improvisada de atendimento na quadra da escola Tengatui Marangatu, onde foram instaladas macas para hidratação e avaliação de moradores.

O atendimento começou com profissionais do Hospital Universitário da UFGD e depois passou a contar com reforço do Ministério da Saúde. Stabeli explica que a resposta federal foi organizada em três frentes: assistência, controle do mosquito e diagnóstico da situação local.

Equipes passaram a fazer visitas domiciliares, busca ativa de pacientes e ações de eliminação de criadouros. "De cada 10 possíveis focos, 9 estavam contaminados", afirmou, ao descrever o nível de infestação nas aldeias.

Ele também aponta que as condições do território favorecem a transmissão. "Existe muito armazenamento de água em recipientes, por falta de abastecimento regular, e isso aumenta os criadouros do mosquito", disse.

O cacique Vilmar Martins Machado da Silva, da aldeia de Dourados, afirma que a situação segue crítica e sem redução no ritmo de casos. "Ela continua no mesmo pico que vinha, não abaixou", disse. De acordo com ele, a falta de coleta de lixo e de limpeza agrava o cenário. "A gente vem pedindo limpeza e coleta de lixo, mas não estava acontecendo."

O boletim da prefeitura aponta ainda que a epidemia já pressiona a rede de saúde. São 37 internações atuais por casos suspeitos e confirmados, ante 27 no dia anterior, além de taxa de ocupação hospitalar de 97%, com 345 dos 353 leitos ocupados.

O documento afirma que há sobrecarga na atenção primária, nas emergências e na rede hospitalar. Em Dourados como um todo, há 1.638 casos prováveis e 780 confirmações, com taxa de positividade de 78,15%, indicando alta circulação do vírus entre os sintomáticos.

Para o infectologista Júlio Croda, da Fiocruz e da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), o cenário já ultrapassa o patamar de alerta.

"Quando olhamos para Dourados, o número de casos já passa do que normalmente se usa como limiar para epidemia", afirmou. Croda detalha que a situação é ainda mais grave no recorte das aldeias, onde a população é menor e a concentração de casos é maior.

Em meio à crise, Mato Grosso do Sul deve receber 40 mil doses de vacina contra chikungunya em um projeto piloto do Ministério da Saúde. A aplicação, em dose única, será voltada a pessoas de 18 a 59 anos, mas ainda não há data definida.

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