Terreno bastante fértil para a corrupção

Publicado em 22/02/2026, às 11h00

Flávio Gomes de Barros

Do jornal "O Estado de São Paulo":

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"A retrospectiva de 2025 do Brasil para o Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional descreve um verdadeiro annus horribilis. Como resumem os pesquisadores, foi 'um cenário especialmente crítico, marcado pela intensificação da atuação do crime organizado, pelo avanço de esquemas de macrocorrupção e por disputas institucionais que colocaram à prova os mecanismos de controle, transparência e responsabilização'. O Brasil parece estar consolidando um estágio avançado de captura institucional do sistema político e judiciário. A degradação é profunda, cumulativa e endêmica. Remédios existem, mas são frequentemente neutralizados.

As fraudes multibilionárias do Banco Master oferecem um raio-X da engrenagem da corrupção. Acumulam-se evidências de que seu controlador, Daniel Vorcaro, costurou a bom preço redes de influências nas instâncias de poder para explorar brechas regulatórias. Técnicos do Banco Central se viram isolados quando suas decisões contrariaram interesses poderosos.

O que deveria seguir o roteiro trivial das crises de liquidez bancária converteu-se em anomalia institucional: interferências atípicas, deslocamentos de competências, sigilos injustificáveis e uma mobilização incomum de instâncias que, em episódios anteriores, preservaram distância das decisões técnicas do regulador.

Os descontos ilegais, igualmente multibilionários, em aposentadorias do INSS por sindicatos e associações expuseram a corrupção como rotina administrativa. O roubo não dependeu de obras estatais faraônicas ou propinas cinematográficas, mas prosperou na gestão ordinária do Estado, aproveitando-se da fragilidade de controles internos e da inércia administrativa ante alertas reiterados.

A CPMI que deveria esclarecer responsabilidades e corrigir falhas estruturais tornou-se refém de constrangimentos e se mostra incapaz de atacar os núcleos decisórios. O escândalo ilustra um padrão: o crime se espalha no tempo, envolve múltiplos governos e atravessa espectros partidários num verdadeiro festival de 'telhados de vidro, diluindo a responsabilização e desmobilizando o ímpeto corretivo.

A degradação do combate à corrupção não decorre de um único Poder, mas de vícios do Legislativo, Executivo e Judiciário que se retroalimentam. Por vias distintas, cada um contribui para um ambiente de baixa responsabilização e alta tolerância institucional.

No topo da Justiça, as anulações em massa das condenações da Lava Jato, as mudanças jurisprudenciais erráticas, a concentração do poder e a naturalização de conflitos de interesses fizeram com que o Judiciário deixasse de ser uma instância de contenção e passasse a operar como fator de desestabilização do sistema anticorrupção. Não necessariamente por corrupção direta, mas por perda de credibilidade, previsibilidade e imparcialidade.

O Executivo trata a corrupção como um problema de reputação, não como risco sistêmico. Órgãos de controle são enfraquecidos, aliados suspeitos são escudados em nome da “governabilidade”, os discursos não se traduzem em prioridades administrativas e as respostas aos escândalos são tardias e defensivas.

O Congresso se mostra como um epicentro da corrupção, não necessariamente – ou não só – por crimes isolados, mas pela institucionalização de incentivos perversos: opacidade, dispersão de responsabilidades, blindagem corporativa. Proliferam mecanismos nebulosos de gasto público e robustece-se a resistência a medidas de integridade, como regras de rastreabilidade ou eficácia. As CPIs são esvaziadas e instrumentalizadas para encenação política ou chantagem recíproca.

O balanço não é inteiramente sombrio. A Operação Carbono Oculto atingiu as engrenagens financeiras do crime organizado; o Supremo Tribunal Federal (STF) busca resgatar alguma racionalidade sobre as emendas parlamentares; o Senado, sob pressão popular, abortou a chamada 'PEC da Blindagem'. Os anticorpos existem, mas estão debilitados e atuam em desvantagem.

Na soma dos fatores, prevalecem um Executivo conivente, um Legislativo opaco e um Judiciário desmoralizado como árbitro imparcial, criando um terreno fértil para que o câncer da corrupção prospere."

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