VITOR HUGO BATISTA/Folhapress
Testemunhas de Jeová flexibilizaram a orientação sobre doação e recebimento de sangue. Agora, os fiéis poderão decidir individualmente se querem doar componentes do sangue para outras pessoas, bem como se aceitam receber componentes do sangue de doadores.
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A mudança foi anunciada na última sexta-feira (18) por meio do Boletim do Corpo Governante dos fiéis. A transfusão de sangue total permanece proibida.
A alteração diz respeito especificamente aos glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plasma e plaquetas. Até então, a orientação determinava que seus fiéis não deveriam receber ou doar esses quatro componentes. O site das Testemunhas dizia que as Escrituras "claramente nos ordenam a nos abster de sangue".
"Cada cristão precisa tomar sua própria decisão sobre o uso desses quatro componentes principais em qualquer situação médica ou cirúrgica", disse Geoffrey Jackson, integrante do Corpo Governante das Testemunhas de Jeová, em vídeo divulgado na sexta.
Em março, o grupo religioso já havia atualizado suas diretrizes e passou a permitir que os fiéis utilizassem o próprio sangue em tratamentos médicos, desde que ele fosse previamente retirado e armazenado.
Com sede nos EUA, as Testemunhas de Jeová estão no imaginário popular global, com banquinhas itinerantes, onde ofertam panfletos sobre sua fé. No Brasil, eram 1,4 milhão de adeptos no Censo de 2010, o dado oficial mais atualizado sobre a religiosidade nacional.
A organização tem algumas orientações que foram alvo de críticas ao longo dos anos, como não celebrar aniversários, por ser um costume que teria origem pagã. Também orienta não celebrar o Natal, porque "Jesus nos mandou comemorar sua morte, não seu nascimento", e nem sequer haveria provas de que ele nasceu num 25 de dezembro. Há instruções para não votar em qualquer candidato nem concorrer a cargos políticos.
A posição do grupo religioso sobre sangue é baseada principalmente na interpretação de textos bíblicos que determinam que os cristãos devem se abster de sangue. Em Gênesis 9:4, Deus diz a Noé: "Somente não comam a carne de um animal com seu sangue, que é a sua vida".
Já em Atos 15:28-29, os apóstolos orientam os cristãos a se "absterem" de sangue. "Pois pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não impor a vocês nenhum fardo além destas coisas necessárias, que persistam em se abster de coisas sacrificadas a ídolos, de sangue, do que foi estrangulado e de imoralidade sexual".
A partir dessas passagens, as Testemunhas de Jeová historicamente entenderam que seus integrantes não deveriam consumir sangue, doá-lo nem recebê-lo em transfusões. Essa interpretação também foi aplicada aos quatro principais componentes do sangue.
Essa orientação era uma das mais criticadas, o que levou à Justiça a casos como o dos pais que recusaram o procedimento para a filha recém-nascida prematura - o juiz descartou o argumento de liberdade de crença.
O novo entendimento parte de novas interpretações. Segundo Jackson, a Bíblia não especifica como os cristãos devem lidar com o uso médico desses componentes. Ele cita Gálatas 6:5, que diz: "Cada um levará sua própria carga."
Também menciona 1 Coríntios 4:6, usado para sustentar a ideia de que não caberia à liderança religiosa estabelecer regras que ultrapassem aquilo que está escrito nas Escrituras.
Outro trecho citado é 2 Coríntios 1:24: "Não é que sejamos os donos da sua fé, mas somos colaboradores para a sua alegria, pois é pela sua fé que vocês estão de pé."
A partir desses princípios, o Corpo Governante afirma que a decisão sobre os quatro componentes deve ser tomada individualmente, depois de reflexão e oração.
Na prática, um membro da religião poderá decidir, a partir de agora, de acordo com a própria consciência, se aceita ou não os componentes do sangue, bem como doá-lo.
A organização afirma que alguns fiéis podem continuar rejeitando todos os produtos derivados do sangue, enquanto outros podem aceitar determinados componentes ou frações.
O boletim cita Romanos 14:12 para reforçar essa responsabilidade individual: "Cada um de nós prestará contas de si mesmo a Deus".
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