Igor Gielow / Folhapress
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, escalou ainda mais o conflito em torno da posse da Groenlândia com seus aliados europeus nesta terça-feira (20). Criticou o Reino Unido e vazou mensagens recebidas do presidente da França, Emmanuel Macron, e do secretário-geral da Otan, Mark Rutte.
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Além disso, ele ameaçou na noite de segunda (19) o francês com 200% de tarifas de importação sobre o vinho e o champanhe do país europeu caso ele não aceite ingressar no chamado Conselho da Paz para a Faixa de Gaza, iniciativa do americano que visa escantear a ONU na reconstrução do território palestino.
A ilha autônoma dinamarquesa tem grande valor estratégico e econômico e, embora os EUA já tenham lá uma importante base militar e acesso a recursos minerais desde 1951, agora Trump a tornou uma prioridade. "Não tem volta", escreveu na sua rede Truth Social, sobre o desejo de anexá-la.
Literalmente desenhando suas intenções, postou duas imagens. Numa, produzida por inteligência artificial, ele planta a bandeira americana na ilha ao lado do secretário Marco Rubio (Estado) e do vice, J. D. Vance, com uma placa indicando: "Groenlândia - Território dos EUA - Estabelecido em 2026".
Noutra, a ilha aparece sob a bandeira americana no local onde havia um mapa da Ucrânia em reunião que Trump teve sobre a guerra com líderes europeus na Casa Branca, no ano passado. Mais: Canadá, que ele já disse querer ver como estado americano, e Venezuela, atacada recentemente, também.
Em outra postagem nesta madrugada, Trump mirou o Reino Unido, ironicamente chamado de "brilhante aliado" na Otan. Disse que a decisão britânica de ceder o arquipélago de Chagos, no Índico, às Ilhas Maurício, foi "um ato de grande estupidez".
"Não há dúvidas de que China e Rússia notaram esse ato de total fraqueza", disse. A base estratégica de Diego Garcia, operada por britânicos e americanos, fica no local, mas ela não é afetada pelo acordo de 2025: na realidade, ele garantiu o controle do local pelos aliados, evitando um despejo que se desenhava na Justiça em Londres.
"Os americanos aplaudiram a decisão", lembrou em nota o governo do premiê Keir Starmer. Na postagem, Trump relaciona o caso à Groenlândia. "Isso é outra de uma longa lista de razões de segurança nacional" pelas quais a ilha precisa ser adquirida.
Além disso, o americano apostou na "diplomacia do vazamento", na prática uma antidiplomacia já que o sigilo é a base da confiança entre negociadores, buscando pressionar ainda mais a Europa -países do continente que defendem o direito dinamarquês sobre a ilha foram objeto de imposição de 10% de tarifas sobre suas exportações aos EUA no sábado (17).
Na véspera, Trump havia sido exposto indiretamente de forma semelhante. A rede PBS revelou que ele havia ligado, ao responder a uma mensagem do premiê da Noruega sobre a Groenlândia, o fato de não ter ganhado o Nobel da Paz à sua belicosidade. Jonas Gahr Store confirmou e mostrou os textos, mas não o fez espontaneamente.
O alvo maior foi Macron, um presidente enfraquecido politicamente que tenta se colocar como antípoda de Trump. O americano vazou uma mensagem de texto do francês na qual ele diz: "Eu não entendo o que você está fazendo na Groenlândia".
Nela, Macron sugere dois encontros na quinta (22) em Paris, após o Fórum de Davos (Suíça), ao qual ele compareceu nesta terça e Trump comparece na quarta (21). Primeiro, um encontro do G7 que inclua russos e ucranianos para discutir a guerra e, depois, um jantar privado com o americano.
O francês foi criticado à esquerda porque, antes de falar sobre o Ártico, disse que está "alinhado" com Trump sobre a Síria, onde o americano bombardeou posições do Estado Islâmico no dia 10 passado, e disse que "podemos fazer grandes coisas no Irã" -os EUA estão mobilizando forças em meio à repressão aos protestos no país.
Antes da postagem, Trump havia feito a ameaça tarifária e ironizado o mau momento político do francês, cujo mandato expira em maio de 2027. Questionado por jornalistas sobre a recusa relatada do presidente de integrar o Conselho da Paz, o presidente disse que "ninguém quer ele porque ele estará fora do cargo logo".
"Eu vou colocar uma tarifa de 200% nos seus vinhos e champanhes e ele vai aderir, mas ele não tem de fazer isso", afirmou. Nesta terça, o Ministério da Agricultura da França chamou a fala de chantagem.
Por fim, Trump tratou do holandês Rutte, um dos líderes europeus que mais buscam adular o líder americano. Disse ter tido uma "ótima conversa" por telefone com ele sobre o caso da Groenlândia e que irá realizar uma reunião sobre o tema em Davos.
Expondo Rutte, publicou o que parecia ser uma mensagem do em que os EUA atacaram a Síria. Nela, o chefe da Otan diz estar "comprometido em encontrar uma forma de avançar sobre a Groenlândia" e, no seu melhor estilo, completa: "Mal posso esperar para te ver."
A montanha-russa de declarações e ameaças do americano ocorre antes da cúpula da União Europeia de quinta, na qual será decido um pacote de retaliação comercial às tarifas extras devido à questão groenlandesa.
Os russos, que são ao lado dos chineses acusados por Trump de cobiçar a Groenlândia, têm mantido uma posição de distanciamento da crise, celebrando a rixa entre os apoiadores de Kiev na guerra iniciada por Vladimir Putin há quase quatro anos.
Mas nesta terça o chanceler Serguei Lavrov insinuou uma mudança de tom, lembrando o passado colonial da Groenlândia. "Ela não é um parque natural da Dinamarca", disse, sugerindo um apoio a Trump apesar de que o Kremlin já disse que considera o território dinamarquês e que não tem interesse nele.
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