Um terço dos homens da geração Z diz que esposas devem obedecer maridos, aponta estudo

Publicado em 07/03/2026, às 08h01
Imagem meramente ilustrativa - Pixabay

Giulia Peruzzo / Folhapress

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Uma pesquisa global conduzida pelo King’s College London e pela Ipsos mostrou que homens da geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) possuem visões mais tradicionais sobre papéis de gênero do que os baby boomers (que nasceram entre 1946 e 1964). Os dados, que reúnem 23 mil participantes de 29 países, indicam que quase um terço dos jovens acredita que as esposas devem obedecer os maridos.

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Para a psicanalista Camila Menezes, a onda conservadora nos homens mais jovens está ligada a um sentimento de ameaça do empoderamento feminino, além de indicar uma necessidade de pertencimento a um grupo, buscando também a validação masculina.

"Se sou um homem a favor da igualdade, vou ser visto como menos masculino, vou parecer fraco. Se aquele homem me entender como mais fragilizado, então não vou ser aceito", analisa. Isso acontece também na apropriação de tarefas que são tradicionalmente vistas como femininas. Na pesquisa, 21% dos homens da geração Z acham que homens que cuidam de crianças são menos masculinos.

O estudo mostra que há discrepância entre algumas crenças individuais, que tendem a ser mais igualitárias, e as atribuídas à sociedade. Enquanto apenas 17% das pessoas acreditam que as mulheres devem assumir o cuidado dos filhos, 35% (mais do que o dobro) acreditam que a sociedade espera que elas sejam as principais cuidadoras.

O padrão se repete em outras frentes. Sobre tarefas domésticas, 16% defendem que o trabalho de casa seja majoritariamente feminino, mas 35% acreditam que essa é a expectativa social dominante.

Sobre o sustento financeiro, 24% acham que o homem deve ser o principal provedor, enquanto 40% sentem que é isso que a sociedade espera. E sobre autoridade no lar, 21% concordam que o homem deve ter a palavra final, mas 31% acreditam que essa é a visão predominante ao redor deles.

O psicólogo José Carlos Ferrigno, autor do livro "Da Infância à Velhice: O Fenômeno Cultural das Gerações", aponta em sua obra a ascensão da extrema-direita política em diversos países como uma influência para como as relações de gênero têm sido percebidas pelas novas gerações.

Nesse contexto, grupos de direita, diz Beatriz Besen, pós-doutoranda no Núcleo de Estudos em Psicologia Política da PUC-SP e pesquisadora associada do Núcleo de Estudos da Violência da USP (Universidade de São Paulo), têm conquistado maior pertencimento.

"Certas tendências que emergiram nos grupos de direita se tornaram muito mais sistemáticas", diz. Ela exemplifica com o antifeminismo, que é um movimento organizado, com influenciadores e a presença de uma série de jovens políticos que mobilizam discursos de papéis de gênero tradicionais.

Na pesquisa da King’s College, quase um quarto (24%) dos homens da geração Z acredita que uma mulher não deve parecer "independente ou autossuficiente demais". Em contrapartida, eles também são os mais propensos (41%) a considerar que mulheres com carreiras de sucesso são mais atraentes.

Besen afirma que há a presença de contradições dentro dessa geração. "Não existe uma completa coerência interna sobre o que é afirmado", diz, retomando que o pertencimento tem sido maior nos grupos de direita também porque a cobrança por coerência é menor.

Outro dado expressivo é que mais da metade (59%) dos homens da geração Z diz no estudo que se espera demais deles para apoiar a igualdade. O Brasil, que teve cerca de mil entrevistados, registrou o maior índice (70%) nessa crença.

Além disso, 57% dos homens jovens acreditam que a promoção da igualdade feminina chegou ao ponto de discriminar os homens. No geral, metade da população mundial (50%) acredita que os esforços pela igualdade já foram longe o suficiente.

Besen diz que esses dados podem ilustrar a pressão e a sobrecarga que recai para todos os envolvidos com os papéis de gênero tradicionais. Ela cita outra pesquisa feita pelo King's College, sobre o sucesso do movimento das tradwives.

"Justamente porque, como você não transformou os papéis de gênero masculinos, você não tem só a expectativa de que a mulher vá para o mundo do trabalho, ela continua tendo toda a carga da casa", afirma. "Então, uma parte dessa ideia de um retorno aos papéis tradicionais seria uma resposta a essa sobrecarga."

No entanto, ela reitera que o debate de como direcionar a ideia de pressão social precisa mostrar que as raízes estão nos papéis tradicionais de gênero, e não que eles sejam a solução. Menezes concorda, defendendo que é preciso construir uma imagem masculina que inclua cooperação, cuidado e admiração por mulheres autônomas.

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