Uso de canetas emagrecedoras exige cuidados redobrados em idosos, alertam médicos

Publicado em 21/01/2026, às 15h37
Uso de canetas emagrecedoras exige cuidados redobrados em idosos, alertam médicos - Karime Xavier / Folhapress

Giulia Peruzzo / Folhapress

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O uso de medicamentos agonistas do GLP-1, popularmente apelidados de canetas emagrecedoras, têm feito sucesso também em idosos pela promessa de controle do peso e de doenças associadas, como diabetes tipo 2 e hipertensão. Por outro lado, seus efeitos colaterais devem ser monitorados com cautela nessa população.

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Apesar de serem seguros para todas as faixas etárias, especialistas explicam que as condições clínicas ligadas ao envelhecimento podem tornar os efeitos adversos potencialmente mais graves.

O uso da medicação aumenta a sensação de saciedade, diminuindo tanto o apetite quanto a sede. A nutricionista Simone Fiebrantz Pinto, especialista em gerontologia e membro do conselho consultivo da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia) diz que esse comportamento já é comum em idosos, fazendo com que surjam riscos de comprometimento renal e infecção urinária por desidratação, quanto de hipoglicemia por ficar longos períodos sem comer.

Uma revisão de literatura que analisou dez estudos sobre os efeitos dos agonistas do GLP-1 concluiu que eles reduzem a ingestão calórica em 16% a 39%, apesar de poucos estudos avaliarem de fato a composição da dieta. Outra pesquisa apontou que os participantes que utilizaram esses medicamentos não ingeriram vários dos nutrientes vitais recomendados.

Além desta questão, o endocrinologista Fernando Valente, diretor da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), afirma que o principal efeito colateral desses remédios são gastrointestinais.

"A pessoa pode ter náuseas, vômito, intestino preso ou diarreia", diz. "Então ela não só come menos e bebe menos água, como pode perder nutrientes por diarreia ou vômitos."
Paciente de Valente, Terezinha Herzog, 76, faz uso de tirzepatida (Mounjaro) há cerca de seis meses. Quando iniciou o tratamento, estava com síndrome do metabolismo, colesterol, triglicérides e glicose altos. De lá para cá, emagreceu 10 kg e controlou os níveis de seus exames de sangue sem, segundo ela, nenhum efeito colateral.

Porém, em uma viagem recente para a praia com a família, contraiu uma virose que gerou sintomas como vômito e diarréia. Nesse período, foi recomendado que ela interrompesse o uso de Mounjaro.

A recomendação nesse momento visa preservar a hidratação da paciente e regular os sintomas gastrointestinais. "Essa é a importância do acompanhamento para ajuste de dose do Mounjaro, observação de perto dos efeitos e ajuste de outros remédios", explica o endocrinologista.

Para reduzir os riscos de desnutrição e desidratação, a nutricionista da SBGG recomenda a ingestão de pelo menos 30 ml de água por kg. Por exemplo, um adulto que pese 70 kg deve, no mínimo, beber 2,1 l de água por dia. Em relação a comida, o ideal é fracionar a frequência alimentar, comendo pequenas porções de alimentos mais vezes ao dia.

"Principalmente lembrar da questão proteica, porque o alimento proteico tem um tempo de saciedade maior. Então, a orientação é primeiro comer na refeição fonte de proteína para garantir que vai atingir as quantidades desse nutriente que a pessoa precisa", afirma.

É essa recomendação que a professora universitária Sônia Moraes, 66, vem seguindo. Em três anos, ela perdeu 70 kg, combinando a cirurgia bariátrica e o uso dos medicamentos agonistas do GLP-1. No início, fazia uso da semaglutida, com fortes efeitos colaterais de náusea, o que cessou quando passou a usar a tirzepatida.

Sem demais efeitos colaterais, busca comer priorizando a proteína, seguida de grãos e saladas. "E bastante água. Eu vivo sempre com a minha garrafinha por perto, e não era um hábito que eu tinha", diz.

Mas, assim como Terezinha, Sônia não segue uma rotina de exercícios físicos, o que pode ser um problema considerando outro efeito colateral potencializado pela idade: a perda de massa muscular.

Emagrecer, em qualquer faixa etária, também faz com que cerca de um terço desse peso perdido seja de massa magra. Com a idade, existe também a perda de massa muscular chamada de sarcopenia, que pode levar a mais quedas, internações hospitalares, à dificuldade em caminhar, usar o banheiro e outras coisas do cotidiano. Estudos estimam que a perda é de 1% de músculo ao ano a partir dos 40 anos de idade.

O geriatra Leonardo Oliva, presidente da SBGG, explica que, nos idosos, a repercussão dessa perda é muito maior, pois pode afetar a funcionalidade, autonomia e a independência no envelhecimento.

Para ele, o exercício físico resistido, como a musculação e o pilates, é a única forma de evitar que esse processo seja prejudicial. O médico diz que um parâmetro que tem sido estudado para avaliar a quantidade e qualidade do músculo é a velocidade da marcha, ou seja, o quão rápido uma pessoa consegue caminhar; mas também o como a pessoa consegue levantar, subir escadas e se estão acontecendo quedas.

"Se a gente não fizer essa união da medicação com um bom acompanhamento nutricional [para controlar a ingestão de proteína] e com fisioterapeuta ou educador físico, essa perda de peso não necessariamente vai refletir no ganho de saúde", afirma, reiterando que não há a indicação da medicação para fins estéticos.

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