Vacina em spray nasal promete proteção contra Covid, gripe e pneumonia

Publicado em 25/02/2026, às 09h22
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CNN Brasil

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Um coquetel inusitado de substâncias químicas, preparado por uma equipe de especialistas em imunologia, virologia e desenvolvimento de vacinas, pode se transformar na tão sonhada vacina universal. Ainda em fase experimental, o spray nasal promete bloquear infecções virais — como o SARS-CoV-2 — e também bacterianas por vários meses.

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Diferente dos imunizantes conhecidos, que usam antígenos (marcadores biológicos) de um microrganismo invasor, essa nova fórmula combina três ingredientes singulares — dois potentes adjuvantes que ativam o sistema imune e uma proteína da clara do ovo, para recrutar células T, criando uma defesa multivalente e duradoura.

Descritos na revista Science, os resultados laboratoriais mostraram que os camundongos que receberam o spray nasal mantiveram seu peso e saúde mesmo após exposição a doses não letais de variantes de coronavírus e Staphylococcus aureus. O grupo de controle adoeceu, mas os vacinados demonstraram resistência notável e pouca inflamação pulmonar.

As vacinas convencionais são geralmente desenvolvidas para combater um patógeno específico, pois são feitas com fragmentos moleculares daquele microrganismo, como se fosse uma espécie de “molde” de chave. A partir daí, o sistema imune aprende a reconhecer aquela "fechadura" específica e monta defesa só contra ela.

Mas o grande diferencial dessa pesquisa é justamente romper com essa lógica. Para isso, a equipe liderada por Bali Pulendran, da Universidade de Stanford, criou uma fórmula sem antígenos derivados de patógenos — como se fosse uma chave mestra — capaz de proteger os animais vacinados contra uma grande variedade de vírus e bactérias.

O segredo do coquetel imunológico

A ideia por trás do sucesso do coquetel imunológico chega a ser desconcertante. Em vez de treinar o sistema imunológico para reconhecer um inimigo específico, a nova vacina aposta na cooperação entre seus dois braços: o inato (defesa imediata e ampla) e o adaptativo (defesa específica e de longo prazo). Assim, o organismo fica em um estado geral de alerta.

Quando os adjuvantes são aplicados no nariz, funcionam como uma sirene que grita "Perigo!" para os macrófagos, células residentes nos pulmões. Eles engolem invasores, destroem células infectadas e, crucialmente, apresentam fragmentos dos invasores às células T, atuando como mensageiros que recrutam o sistema imune adaptativo.

Já a ovalbumina é uma proteína da clara do ovo que age como antígeno real, porém inofensivo. Ela atrai e ativa células T de forma inespecífica, sem apontar para nenhuma doença concreta. Essas células T, uma vez ativadas, retroalimentam os macrófagos, mantendo-os em estado de vigilância elevada e contínua.

O grande achado dos autores foi descobrir que, se usassem apenas os adjuvantes, como alarme, a proteção durava pouco. Mas, ao introduzir a ovalbumina como um alvo fake para as células T, a proteção nos pulmões durava meses. De acordo com o estudo, a proteína do ovo será trocada por uma proteína do próprio coronavírus para entregar um alvo mais específico.

Enquanto tentativas anteriores de estimular apenas a imunidade inata duravam cerca de um mês, esta nova abordagem estendeu a proteção para pelo menos três meses. O segredo da longevidade parece ser a imunidade adaptativa, que permitiu uma resistência a seguidos desafios infecciosos. Com um alvo para se preocupar — mesmo inócuo —, as células T criaram uma barreira duradoura.

Entendendo a proteção estendida das vacinas

Há tempos, a ciência já sabe que a imunidade inata pode ser duradoura, fenômeno observado na vacina BCG contra tuberculose. Dados indicam que ela protege cerca de 100 milhões de bebês vacinados anualmente contra diversas infecções além do alvo original, sugerindo uma defesa cruzada por meses.

Esse mecanismo só se tornou mais bem compreendido em 2023, justamente pelos estudos de Pulendran. Estudando camundongos, a equipe descobriu que a BCG gera uma resposta inata persistente nos pulmões. O segredo reside na cooperação: células T do sistema adaptativo enviam sinais constantes para as células inatas, conhecidas por atacar qualquer coisa que pareça estranha.

Os autores descobriram que, mesmo sem distinguir o vírus da Covid, da gripe ou de uma bactéria, essa linha de frente do sistema imune (como os macrófagos) protegeu os camundongos contra o SARS-CoV-2 e outras infecções por coronavírus.

Normalmente, as células inatas combatem invasores rapidamente e depois se acalmam. O estudo descobriu que as células T prolongam esse estado de alerta por meses, enviando sinais químicos — as citocinas — que mantêm os macrófagos continuamente ativados e prontos para reagir.

Embora os testes em humanos ainda não tenham começado, Pulendran já vislumbra a vacina universal: “Imagine ter um spray nasal nos meses de outono que proteja contra todos os vírus respiratórios, incluindo covid-19, gripe, vírus sincicial respiratório e resfriado comum, além de pneumonia bacteriana e alérgenos do início da primavera”.

 

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