Zona perigosa onde naufrágios ocorreram por séculos é localizada na Líbia

Publicado em 17/03/2026, às 22h27
- Artur Brzóska

Galileu

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Cientistas da Universidade de Varsóvia, na Polônia, anunciaram no último dia 12 de março a descoberta de restos de vários naufrágios antigos próximos à cidade histórica de Ptolemaida, no norte da Líbia. Segundo os pesquisadores, os vestígios se concentram em uma faixa submarina que ultrapassa 100 metros de extensão, o que sugere que diversas embarcações podem ter se perdido no local ao longo de séculos de navegação no Mar Mediterrâneo.

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A dimensão do campo de destroços indica que o trecho costeiro pode ter sido palco de recorrentes acidentes marítimos. Navios que se aproximavam do antigo porto vindos, sobretudo, do leste enfrentavam dificuldades para contornar a zona rochosa e rasa situada diante da cidade.

As novas descobertas fazem parte de uma série de escavações retomadas em 2023 por arqueólogos da Universidade de Varsóvia. Os trabalhos haviam sido interrompidos por 13 anos devido à guerra civil na Líbia, que dificultou o acesso de missões científicas estrangeiras ao país. Mas, desde o retorno ao sítio arqueológico, os pesquisadores identificaram anexos de uma antiga residência urbana dotada de um sistema de coleta de água potável, além de iniciar novas investigações na acrópole da cidade e nas áreas costeiras adjacentes.

Exploração subaquática

Durante a campanha mais recente, uma equipe de arqueólogos subaquáticos e mergulhadores realizou levantamentos na antiga zona portuária. Segundo conta Bartosz Kontny, da Universidade de Varsóvia, à agência de notícias oficial da Polônia, mudanças ambientais ocorridas ao longo de séculos explicam por que parte das estruturas antigas hoje se encontram submersas. “Ao longo do tempo, o nível do mar subiu ligeiramente e terremotos contribuíram para a erosão da costa” e, como resultado, elementos da antiga infraestrutura portuária acabaram submersos.

Nas áreas exploradas, os mergulhadores identificaram colunas antigas, trechos de estradas agora cobertas pela água, além de diversas âncoras abandonadas e instrumentos usados na Antiguidade para sondar o fundo do mar. Todo esse material deverá ser examinado com maior detalhe nas próximas temporadas de pesquisa.

A análise inicial dos destroços revelou fragmentos da carga transportada por algumas embarcações. Entre os achados mais notáveis está um equipódio – peça usada em balanças romanas – fundido em bronze e moldado na forma de uma cabeça feminina, preenchida com chumbo para funcionar como contrapeso.

Embora nenhum outro peso tenha sido encontrado até o momento, os arqueólogos também identificaram numerosas ânforas espalhadas pelo fundo do mar, além de outros elementos da carga dos navios. Em uma dessas ânforas, os pesquisadores acreditam ter encontrado vestígios de vinho cristalizado, que agora passa por análise laboratorial.

Descobertas na acrópole

Equipes de arqueólogos também realizaram missões em terra firme, com escavações na acrópole de Ptolemaida. Ali foi descoberta uma estrada até então desconhecida, construída para transporte terrestre e que conectava o interior da região ao topo do planalto onde se ergue a acrópole. Situado a cerca de 300 metros acima do nível do mar, o local domina a paisagem circundante e possuía clara importância estratégica.

A equipe também identificou vestígios de torres de observação ao longo do percurso, que possivelmente integravam o sistema defensivo da cidade e serviam para alertar a população sobre possíveis ameaças vindas do litoral ou do interior.

Entre os achados associados à estrada está ainda um marco quilométrico romano. O exemplar encontrado possui uma inscrição em grego datada do período da dinastia Severa e apresenta o numeral gama, indicando provavelmente uma das primeiras marcações do trajeto. Os pesquisadores estimam que a estrada tenha sido construída na primeira metade do século 3 d.C., período em que a cidade atingiu um de seus momentos de maior prosperidade.

Conservação e novas pesquisas

Paralelamente às escavações, especialistas da Academia de Belas Artes de Varsóvia trabalham na conservação de artefatos já descobertos em campanhas anteriores. Os conservadores estão avaliando o estado de preservação de pinturas murais removidas em 2008 da chamada Casa de Leukaktios e atualmente guardadas no museu local.

A equipe também realiza a restauração de uma pintura bizantina representando o rosto de um homem barbudo e produziu uma réplica funcional de um relógio de sol de pedra de dupla face descoberto por arqueólogos poloneses em 2010.

Quanto às pesquisas em Ptolemaida, elas ainda estão apenas no começo. Em 2026, a missão arqueológica da Universidade de Varsóvia celebra 25 anos de trabalhos na Líbia, mas grande parte da antiga cidade permanece inexplorada. Para Piotr Jaworski, da instituição, as descobertas demonstram o enorme potencial científico da região: “temos muitos anos de trabalho pela frente e queremos abrir o maior número possível de linhas de investigação para as futuras gerações de arqueólogos”, ele disse.

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