Nesta série especial, o TNH1 apresenta trajetórias de pessoas com Transtorno do Espectro Autista que fizeram da neurodivergência e suas singularidades um caminho para expressão, independência e pertencimento social. Vozes que mostram como o ecossistema empreendedor pode favorecer competências e habilidades, e que diversidade não é obstáculo, é potência.
Ao agendar uma conversa com o primeiro entrevistado dessa série de reportagens que o TNH1 inicia hoje, a primeira surpresa: um pedido para ver as perguntas com antecedência. Hábito incomum no trabalho da imprensa, a reportagem não se opôs, e foi assim que comecei o bate-papo para conhecer a história de João Felipe Torreiro. Um homem autista de 33 anos, pai de três crianças também neurodivergentes, que tem desbravado o mundo do empreendedorismo por meio da produção de brinquedos sensoriais com impressoras 3D em casa mesmo, no bairro de Guaxuma, em Maceió.
No mês de conscientização sobre o TEA, o TNH1 apresenta esta série de três reportagens com trajetórias de pessoas com Transtorno do Espectro Autista, que transformaram suas singularidades em caminhos de autonomia, expressão e inclusão por meio de negócios e inovação.
"Eu penso muito em meus filhos. Eu penso de que maneira esses projetos podem ajudá-los a se desenvolver seja agora ou no futuro".
Formado em Direito, João começou advogando até perceber que estava lutando contra um sistema cheio de falhas e brechas, onde seu talento de enxergar "fora da caixa" parecia subaproveitado. Após um sério problema de saúde, ele repensou a vida e não teve dúvida: "Vou fazer o que me faz bem, vou fazer o que eu quero, do jeito que eu quero". Nasceu assim a iniciativa de empreender.
Pai de três crianças autistas: João Pedro, de 2; João Miguel, de 7 e Maria Júlia, de 10 anos, João Felipe diz que a ideia de produzir os "stim toys", ou brinquedos sensoriais (traduzindo do inglês), surgiu da necessidade diária de meios para ocupar e educar sua família atípica.
"A impressão dos brinquedos começou de uma necessidade. Além de autista, eu tenho três filhos autistas também. Muitos de nós temos TDAH associado e temos essa necessidade de nos manter em movimento. Comecei a pensar em como poderia criar recursos que ajudassem nisso", conta, enquanto faz uma demonstração da impressão de um dos modelos, tarefa que demora, em média, 6 horas.
Os brinquedos, indicados por especialistas para desenvolver, nas crianças, habilidades cognitivas, criativas e de resolução de problemas, são feitos em PLA (ácido polilático), material biodegradável derivado do bagaço de cana-de-açúcar. "Eu queria sair dos brinquedos 2D para os 3D. Fiz testes com diversos materiais até chegar ao PLA. Hoje o entrave para uma produção maior, além do tempo, são as licenças ou patentes de cada produto. Isso complica as coisas", afirma.
COMERCIALIZAÇÃO - Depois de muitos testes e da propaganda boca a boca, João iniciou a comercialização online dos brinquedos sensoriais. "Chegamos a vender na escola dos meus filhos, mas fomos proibidos. Minha filha, que também tem uma veia empreendedora, chegou a vender alguns no início. Agora lançamos uma loja virtual, onde estão disponibilizados os modelos que já passaram pelo controle de qualidade", explica.
Para o "test drive" dos produtos, ninguém melhor do que os três filhos: "Comprei uma impressora para testar e hoje temos 3. A impressão em 3D é um processo lento, cheio de testes, e o meu controle de qualidade são meus filhos. Quando concluo uma peça, jogo nas mãos deles; se eles gostarem e o brinquedo durar, tá aprovado", conta João, com um largo sorriso quando fala dos filhos, um deles, inclusive, exigindo o tempo todo a atenção do pai durante a entrevista.
Os brinquedos "stim" são projetados para tornar o aprendizado mais divertido e dinâmico ...
eles permitem que as crianças desenvolvam habilidades cognitivas e a resolução de problemas...
os brinquedos estimulam a comunicação e a linguagem, especialmente para crianças não verbais...
ao proporcionar estímulos sensoriais que ajudam na regulação emocional e na exploração do ambiente.
João: "entender o hiperfoco e usar a seu favor"
"A impressão 3D virou um hiperfoco. Mas se eu tivesse só usado pra mim, eu ia estar limitando tudo aquilo que estava na minha mente. Eu acordava, almoçava e dormia pensando em impressão 3D. Então veio essa ideia de transformar em um negócio", diz o empreendedor, aconselhando famílias que tenham pessoas com TEA a valorizar mais os talentos dos filhos ou familiares. Hiperfoco no autismo é uma característica que se manifesta como uma capacidade intensa e prolongada de concentração em um tema ou atividade específica.
"È entender o hiperfoco e usar isso a favor. Se eu tenho um filho que é hiperfocado em futebol, ele pode ser um jogador, um técnico, um jornalista esportivo. É necessário ler o hiperfoco, ler aquilo que está causando maior interesse pra você e usar a seu favor", conta João, que desde os 18 anos se identificava com o autismo quando via reportagens na TV, mas só foi diagnosticado anos depois, quando já estava casado.
"De alguma forma, o autista consegue ver padrões e modificá-los, querendo mudar o que todo mundo já está acomodado a aceitar. Grande parte vive numa engrenagem como um robô e aceita daquela forma, e o autista geralmente observa e pensa fora da caixa", analisa.
Advogado adaptou um dos cômodos de sua própria casa para montar a produção em 3D.
Empreendimento começou com uma impressora, chegou a 3 e em breve será ampliado.
Fabricação depende de patentes ou licenças para modelos dos brinquedos sensoriais.
Mas, se por um lado o hiperfoco impulsionou o lado empreendedor de João, a neurodivergência cria também alguns obstáculos nesse mesmo universo. De início, ele sequer conseguia cobrar aos amigos e vizinhos pelos primeiros brinquedos produzidos.
"Tenho dificuldade de entrar no campo comercial. A coisa do networking mesmo", explica. "Já tive ideias como levar os brinquedos para expor na Rua Fechada, na orla, mas não rolou. Essa coisa de eventos, panfletagem, por exemplo, eu não gosto", afirma.
Coisas comuns do dia a dia de um empreendedor podem causar estresse para o autista. "Uma hipótese. Se no começo de uma reunião alguém me diz que chegamos a um resultado que seria 4 somando dois mais dois, e depois essa pessoa diz que chegou ao resultado somando 1+1+1+1, isso já me trava. Mas eu me policio", explica.
"Eu me aceitei como autista. Para a sociedade eu sou funcional. Mas, se tirar os medicamentos, eu tenho muitos toques. Muitos tiques. Mas aprendi a conviver com isso, e hoje eu tenho uma vida", explica.
A SEMENTE PARA UM FUTURO COM MENOS OBSTÁCULOS
Consciente de estar desbravando um caminho que poderá ser trilhado pelos três filhos e por outras crianças, João Felipe acredita em um futuro menos limitante para os autistas no mercado de trabalho.
"Acredito que nós autistas adultos, diante do autoconhecimento, diante da aceitação do diagnóstico e do tratamento têm tudo para desbravar e melhorar o que as próximas gerações vão encarar diante de preconceitos no mercado de trabalho. A gente tem tudo para plantar a semente de uma inovação, da aceitação e contra o preconceito para que as próximas gerações não sofram tanto quanto a nossa sofreu diante das limitações", afirma, com otimismo.
"Eu penso muito em meus filhos. Eu penso de que maneira esses projetos podem ajudá-los a se desenvolver, seja agora ou no futuro."
O AUTISMO IMPORTA: "LUCRO NÃO É O FOCO"
Durante a conversa com o TNH1, João enfatizou, diversas vezes, que lucro não é o principal foco do seu negócio.
Todo o lucro, afirma o empreendedor, será revertido em investimentos em um verdadeiro ecossistema que João e sua esposa, a psicóloga Lívia Rocha, vêm montando desde 2023: o Neuro Universo TEA, uma plataforma de suporte a pais e profissionais autistas, gratuitamente.
"A plataforma oferece cursos e treinamentos de qualidade na área. Formamos uma espécie de rede social segura para troca de experiências e divulgação profissional na área de TEA. É um grande espaço para famílias se organizarem e acompanharem os profissionais", explica João, entusiasmado.
"Não penso no lucro em si. Tudo que vier das vendas será revertido para melhorar o sistema e ampliar o acesso. Temos o Instituto Lívia Rocha, que atende desde a criança até o adulto autista. Inclusive, o autismo na fase adulta é um outro tabu que devemos tratar", afirma.
APLICATIVO, O PRÓXIMO PASSO
Empolgado, João Felipe conta os próximos passos de seus planos empreendedores. A ideia é criar uma plataforma gratuita voltada ao cuidado neurodivergente. Serviços que foram iniciados em formato de site, no endereço www.neurouniversotea.com.br
"Em breve vamos transformar o site em aplicativo. Estamos na fase de testes. O aplicativo vai agregar, em um só lugar, toda essa rede de fortalecimento e cuidado com as pessoas autistas e neurodivergentes", comemora.
Para isso, o empreendedor pretende buscar ajuda em programas de startups e de órgãos como o Sebrae. "Pretendo entrar em algum programa de incentivo a startups, pois gosto muito desse universo de tecnologia e inovação", afirma, otimista, com um olhar no futuro.
Mariana: "Ambiente autônomo favorece um ambiente de controle para que energia seja direcionada para a produção e criatividade"
Seja por conta do hiperfoco ou como alternativa ao mercado de trabalho tradicional, a psicologia explica alguns dos motivos que levam pessoas autistas a empreender.
O TNH1 conversou com a psicóloga Mariana Monteiro, que atua na área de educação especial, para entender melhor como identificar no autismo elementos que possam impulsionar a veia empreendedora nessa fatia da população, que hoje já passa dos 2 milhões de pessoas diagnosticadas.
Para a psicóloga, a escolha pelo empreendedorismo pode ser uma estratégia de adaptação ambiental, considerando que, nas atividades autônomas, o autista tem mais controle de todo o ecossistema em que se insere sua rotina de trabalho.
"O empreendedorismo não é um refúgio, acaba sendo realmente uma estratégia de adaptação ambiental, porque, no mercado tradicional, a pessoa com autismo gasta muita energia tentando traduzir os códigos sociais, gerenciar sobrecargas sensoriais que não pertencem ao seu trabalho real, porque eles são muito práticos, objetivos, e aqueles rituais sociais que existem nos grupos de colegas de trabalho, tudo isso acaba por sobrecarregá-los", afirma.
"Quem está dentro do espectro, ao empreender, ganha o controle de todo esse ecossistema, acaba criando um espaço de trabalho que respeita as suas necessidades sensoriais e seu ritmo de funcionamento. Tudo isso implica a qualidade do processo produtivo. O ambiente autônomo favorece esse controle, e aí a pessoa pode redirecionar a sua atenção, sua energia, para a produção, para a criatividade", explica.
Ela destaca, ainda, que se sentir em um ambiente controlado pode diminuir problemas como ansiedade social.
"Pessoas autistas, num ambiente de trabalho tradicional, têm mais chance de desenvolver ansiedade social, pela constante necessidade de interpretar alguns subentendidos ou até mesmo políticas institucionais muito rígidas. Então acaba gerando essa ansiedade, e o ambiente autônomo reduz isso e facilita o melhor desenvolvimento", diz.
"Quem está dentro do espectro, ao empreender, ganha o controle de todo esse ecossistema, acaba criando um espaço de trabalho que respeita as suas necessidades sensoriais e seu ritmo de funcionamento".
Mariana Monteiro - Psicóloga
'O hiperfoco pode ser um hobby, mas para outros o hiperfoco pode ser uma área de domínio técnico, e é ali que a gente encontra, muitas vezes, a única via de acesso àquela pessoa, na construção de vínculo, na construção de uma comunicação e também na construção de uma prática profissional", analisa.
A psicóloga observa a importância da família nesse processo de descoberta de talentos e aptidões. "A família, por estar ali no dia a dia, ela consegue identificar esse modo de processamento, o modo como aquela pessoa funciona, sem tanto desgaste, de uma maneira mais prazerosa. Ele [o autista] acredita que outras pessoas, que as pessoas que estão ao seu redor, também têm aquela facilidade, também executam naquela mesma forma, do mesmo jeito, então ele naturaliza aquela habilidade, não reconhecendo como um talento seu", diz.
Pessoas com diferenças neurológicas, comportamentais, de comunicação e aprendizagem fora do padrão esperado pela sociedade.
É um tipo de neurodivergência assim como o TDHA e a bipolaridade. Abrange prejuízos na comunicação, comportamentos restritos e repetitivos.
Sebrae: capacitações e fortalecimento de redes, sempre considerando realidades e desafios específicos. (Foto: Kelvin Gomes)
O avanço do debate sobre inclusão produtiva tem colocado o empreendedorismo no centro de uma discussão mais ampla sobre acesso ao trabalho, incluindo-se aí as pessoas com TEA. Em um cenário ainda marcado por barreiras estruturais, como bem observou nosso entrevistado João Felipe, iniciativas institucionais buscam abrir caminhos mais flexíveis e adaptáveis às diferentes realidades. É nesse contexto que o Sebrae vem já há algum tempo incorporando a diversidade como eixo estratégico em programas como o Sebrae Plural.
Segundo Erica Pereira, analista e gestora do Sebrae Plural em Alagoas, o movimento parte de uma lógica clara: ampliar o acesso democrático ao empreendedorismo. "O Sebrae Plural tem sido uma iniciativa estratégica para ampliar o alcance das ações junto a públicos historicamente sub-representados no ambiente de negócios, promovendo capacitações, mentorias e fortalecimento de redes, sempre considerando as realidades e desafios específicos", explica.
Erica Pereira diz que não tem observado a busca de pessoas autistas pelo suporte fornecido pelo Sebrae. "No entanto não observamos uma participação crescente desse público nas diversas nas soluções do Sebrae, , mas entendemos a importância de tornar os ambientes de aprendizagem cada vez mais acessíveis, acolhedores e adaptados. Pois entendemos que o empreendedorismo se apresenta não apenas como uma alternativa de renda, mas como um caminho de autonomia, protagonismo e inclusão produtiva", avalia.
Na segunda reportagem da série "Empreendedores no espectro" você vai conferir a história de Milla Pasan, que se descobriu autista já adulta, e com o diagnóstico em mãos partiu para uma uma história de resistência e muitos êxitos.
Uma das primeiras moradoras do Benedito Bentes, parte alta de Maceió, Milla tem em seu portfólio consultoria em economia criativa e artes visuais, advocacia, entre outros talentos. Ela criou o "Método Pasan", que une propriedade intelectual, artes, estratégia e negócio, ajudando outros artistas a empreender.
e mais...
Na próxima reportagem você também vai saber mais sobre o Sebrae Plural, em entrevista com a Gerente Nacional do programa, Georgia Nunes.