A popularização da musculação e das redes sociais trouxe a creatina para o debate entre adolescentes, mas seu uso deve ser cauteloso e baseado em critérios médicos e nutricionais específicos. Especialistas alertam que a substância não é indicada para todos e seu uso indiscriminado pode ser prejudicial.
A creatina é bem estudada em adultos, mas há escassez de pesquisas sobre seus efeitos em adolescentes, o que exige uma avaliação cuidadosa. O uso é recomendado apenas para jovens com mais de 15 anos, que praticam esportes de forma estruturada e têm uma alimentação equilibrada.
Profissionais de saúde enfatizam que a creatina deve ser utilizada com acompanhamento e não como uma solução mágica para desempenho atlético. Para a maioria dos adolescentes, uma dieta adequada e treinamento regular são suficientes para garantir um crescimento saudável e desempenho esportivo eficaz.
A popularização da musculação entre jovens e a influência das redes sociais fizeram a creatina ganhar espaço nas conversas entre adultos, mas o assunto também ganhou espaço entre os adolescentes. Contudo, ao contrário do que muitos vídeos sugerem, a decisão não é simples e passa por critérios médicos e nutricionais.
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Não é proibido, mas também não é para todo mundo
A nutricionista materno-infantil Renata Riciati, de São Paulo (SP), explica que a substância é amplamente estudada em adultos, mas ainda há menos pesquisas de longo prazo em adolescentes. Por isso, é importante avaliar bem a necessidade de indicação. “A creatina é um suplemento bem estudado em adultos, mas em adolescentes os estudos ainda são mais limitados, o que exige maior cautela”, diz ela.
Segundo a especialista, a possibilidade de uso pode ser avaliada quando o adolescente:
Tem mais de 15–16 anos e já está em fase puberal mais avançada;
Pratica treinamento estruturado, como musculação ou esportes de força e potência;
Treina com frequência e técnica adequada;
Já segue uma alimentação equilibrada;
Tem objetivo esportivo claro;
Tem saúde renal normal.
Nessas situações, pode haver benefício em força e potência em esportes de alta intensidade. Fora desse contexto, o uso tende a ser desnecessário.
A pediatra Elisabeth Fernandes, membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), reforça que não se trata de um suplemento liberado indiscriminadamente.
“De forma geral, a creatina não é indicada como suplemento de rotina para adolescentes. Ela pode ser considerada apenas em situações muito específicas, normalmente em adolescentes mais velhos, que já passaram pela puberdade e praticam esporte de forma estruturada. Mesmo nesses casos, o uso precisa ser individualizado e acompanhado por profissionais de saúde”, explica.
Quando evitar o uso de creatina
O uso deve ser evitado em adolescentes antes da puberdade, quando o objetivo é exclusivamente estético ou quando não há acompanhamento médico e nutricional. A nutricionista Renata alerta para outro ponto importante: a motivação.
O suplemento não deve ser usado por pressão social, comparação corporal ou modismo. “A creatina não gera ganho muscular isoladamente e não compensa treino inadequado ou alimentação desorganizada”, diz ela. Ou seja: o suplemento não faz mágica.
Além disso, a substância não é indicada para adolescentes com doenças renais, condições crônicas ou uso de medicamentos que sobrecarreguem os rins. “Não há evidências robustas de dano renal em pessoas saudáveis, mas o cuidado na adolescência é maior porque o organismo ainda está em desenvolvimento e existem menos estudos de longo prazo nessa faixa etária”, afirma a nutricionista.
Alimentação costuma ser suficiente
Uma dúvida comum é se a creatina é realmente necessária na adolescência. Segundo as especialistas, na maioria das vezes, não. “O próprio organismo produz creatina e ela também está presente em alimentos como carnes, peixes, ovos e leite. Uma alimentação equilibrada costuma suprir as necessidades do adolescente, inclusive daqueles que praticam atividade física regularmente”, explica a pediatra Elisabeth.
Renata complementa, reforçando que o crescimento acelerado e o aumento natural da massa muscular já acontecem nessa fase por influência hormonal, mesmo sem suplementação.
Na prática clínica, os principais limitadores do desempenho costumam ser outros: ingestão calórica insuficiente, refeições puladas, baixo consumo de proteínas, sono inadequado e treino mal estruturado. Ou seja: antes de pensar em suplemento para adolescentes, é preciso organizar o básico.
Benefícios reais e mitos da creatina na adolescência
Os estudos disponíveis mostram que a creatina pode ajudar no desempenho em exercícios de curta duração e alta intensidade em alguns adolescentes atletas. Segundo Renata, pode, sim, haver melhora de força e potência e pequeno ganho de massa magra, sendo que parte do aumento inicial ocorre por retenção de água dentro do músculo.
Existem, no entanto, muitos exageros e desinformação. “Por outro lado, é mito que a creatina faça o adolescente crescer mais rápido, acelere a puberdade ou seja necessária para todos os jovens que praticam atividade física”, afirma Elisabeth. Também não é correto dizer que o suplemento “define” o corpo, emagrece ou substitui alimentação adequada.
Os principais erros no uso de suplemento para adolescentes
Entre os equívocos mais frequentes estão:
“O erro mais comum é pular etapas básicas, usando suplementos com alimentação desorganizada, sono insuficiente e treino irregular. Suplemento não corrige base fraca”, diz Renata. Outro ponto importante é a participação dos pais. A decisão não deve ser terceirizada, nem tomada apenas pelo adolescente. Vale reunir informações, conversar com profissionais e envolver a família.
Uso com acompanhamento x uso por conta própria
A diferença entre usar com acompanhamento e por conta própria é central nessa discussão. Com orientação, o profissional avalia idade, estágio da puberdade, rotina de treino, alimentação, histórico de saúde (especialmente renal) e objetivos reais. Sem acompanhamento, aumentam os riscos de uso inadequado, doses excessivas, produtos de baixa qualidade e uso prolongado sem necessidade.
“Apesar de a creatina ser um dos suplementos mais estudados em adultos, ainda existem poucos estudos avaliando os efeitos do uso prolongado em adolescentes”, diz a pediatra. “O maior risco está no uso sem critério, com doses inadequadas, produtos de baixa qualidade ou substituindo hábitos essenciais como boa alimentação, sono e treino adequados”, completa.
Renata acrescenta que, em adolescentes saudáveis e bem orientados, os riscos são baixos, mas, ainda assim, podem ocorrer desconforto gastrointestinal, retenção hídrica e problemas quando há doença renal não diagnosticada.
Então, adolescente pode tomar creatina?
A resposta mais responsável é: não como rotina, apenas em situações específicas, com avaliação individualizada e acompanhamento profissional. Para a maioria dos adolescentes, alimentação equilibrada, treino adequado, sono de qualidade e acompanhamento esportivo são suficientes para garantir evolução, força e crescimento saudável.
A creatina pode ser um recurso complementar em contextos bem definidos, mas não substitui o básico e definitivamente não é uma fórmula mágica para quem busca mudanças e resultados. Busque sempre uma avaliação de quem entende do assunto, antes de decidir incluir no dia a dia do seu filho.
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