A AFD (Agência Francesa de Desenvolvimento) negocia com o BRDE (Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul) uma nova linha de crédito para financiar projetos voltados para resiliência climática na região Sul do Brasil.Receba as notícias do TNH1 em se
A AFD (Agência Francesa de Desenvolvimento) negocia com o BRDE (Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul) uma nova linha de crédito para financiar projetos voltados para resiliência climática na região Sul do Brasil.
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A cifra pode chegar a 150 milhões de euros (cerca de R$ 864 milhões), sendo 50 milhões de euros (R$ 288 milhões) direcionados exclusivamente ao Rio Grande do Sul -estado severamente atingido por inundações no mês passado.
A nova operação de crédito já vinha sendo discutida entre as instituições de fomento antes mesmo da tragédia, que afetou 2,3 milhões de pessoas e resultou em pelo menos 172 mortes até agora, mas o tema ganhou tração devido aos danos provocados pelas enchentes.
No início das tratativas, o montante correspondia a 100 milhões de euros (cerca de R$ 576 milhões), a ser dividido igualmente entre Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Além do valor adicional de 50 milhões de euros para o estado gaúcho, agora também é negociada a ampliação do escopo de investimentos para ações que possam mitigar os efeitos da catástrofe na região e prevenir novos desastres.
Segundo Marie-Pierre Bourzai, diretora da AFD para América Latina, a ideia é financiar investimentos que permitam que autoridades públicas e instituições privadas previnam riscos de desastres naturais e se adaptem às consequências das mudanças climáticas em áreas particularmente vulneráveis no sul do Brasil.
A nova linha de crédito vai privilegiar projetos que, por exemplo, tratam de infraestruturas de proteção costeira, sistemas de drenagem, desenvolvimento de terrenos agrícolas, recuperação de terrenos degradados e pequenas instalações urbanas.
A realocação de pessoas e a transformação de áreas de risco em parques ou equipamentos públicos também entram nesse contexto.
Leonardo Busatto, diretor de Planejamento do BRDE, espera assinar o novo contrato com a AFD nas próximas semanas. Segundo ele, a agência francesa está disposta a acelerar os trâmites para a liberação de recursos o mais rápido possível.
A expectativa da instituição brasileira é que a nova operação tenha início entre setembro e outubro. "Vai ser quando os investimentos de maior robustez, já visando um médio e longo prazo, vão começar a surgir. Então, ainda é um momento adequado", diz.
As condições da nova linha de crédito ainda estão em negociação entre a AFD e o BRDE. Se seguir os moldes de operações anteriores, o prazo para pagamento do financiamento fica em torno de 15 anos, com carência de dois a três anos.
De acordo com o banco brasileiro, captações anteriores foram feitas a uma taxa de 2,3% ao ano mais o juro europeu -a taxa Euribor a seis meses, que hoje está em torno de 3,7% ao ano. Isso significaria uma taxa de 6% ao ano. "Para o cliente final, a gente ainda tem a parte do BRDE, porque toda a garantia da operação, a documentação, a burocracia, é responsabilidade do BRDE", afirma o diretor.
Entre as ações de curto prazo que estão sobre a mesa está o redirecionamento de uma linha de crédito já existente no BRDE, de 33 milhões de euros (cerca de R$ 190 milhões), para ações de reparação aos danos causados pelas inundações no Rio Grande do Sul.
"A curto prazo, estamos nos mobilizando mais rapidamente para remediar os problemas encontrados", diz a diretora da AFD para América Latina à Folha de S,Paulo.
Busatto, do BRDE, diz que a agência francesa sinalizou formalmente estar de acordo com a flexibilização da destinação do crédito. A ideia é que os recursos, até então restritos a investimentos em projetos de transição energética, possam ser redirecionados para atender às necessidades de empresas e municípios, como compra de equipamentos e matérias-primas e reformas de postos de saúde e escolas.
"A gente tem orientação e aprovação por parte da AFD de usar de maneira um pouco mais livre esse recurso justamente entendendo que o momento agora não é para conseguir fazer projetos de longo prazo, projetos de infraestrutura de fôlego, e sim tentar ajudar, na medida do possível, as empresas voltarem a funcionar, as prefeituras voltarem a estabelecer os serviços públicos", diz.
Os europeus também deram sinal verde à prorrogação do pagamento de parcelas de financiamentos com vencimento nos próximos 12 meses para clientes afetados pelas inundações. O "refinanciamento" é uma forma de dar alívio a empresas e municípios para que possam se reorganizar financeiramente.
O diretor-executivo da área de Geografias da AFD, Philippe Orliange, ressalta a parceria de longa data com os estados do Sul do Brasil. "Nos parece natural que no quadro desta parceria com o BRDE possamos, se nos pedirem, participar de um esforço coletivo de reconstrução do Rio Grande do Sul onde for preciso", afirma.
Segundo ele, há uma discussão "bastante avançada" com a cidade de Porto Alegre. Em dezembro de 2022, foi acordado um empréstimo de 52 milhões de euros (cerca de R$ 300 milhões) ao município gaúcho, em cofinanciamento com o Banco Mundial.
Por se tratar de uma operação de crédito com garantia da União, depende de aprovação do Senado Federal. É esperado que o aval do Congresso Nacional seja dado nas próximas semanas, de acordo com a diretora da AFD para América Latina.
Esse também é o cenário envolvendo o município de Rio Grande após acordo realizado em setembro de 2023 para um empréstimo de 59 milhões de euros (cerca de R$ 340 milhões) na área de transportes.
"As intempéries tiveram menos impacto nessa cidade, então, há menos necessidade de ações de remediação, mas estamos discutindo atualmente com a União para acelerar a assinatura para, ao menos, fornecer à municipalidade os meios financeiros para realizar o projeto planejado para a cidade", diz Bourzai.
Operando no Brasil desde 2007, a AFD já investiu mais de 3,5 bilhões de euros (R$ 20 bilhões) no país. Na América Latina, entre 2018 e 2023, realizou 300 projetos em nove países, envolvendo um montante de 7 bilhões de euros (cerca de R$ 40 bilhões). O Brasil, com 18% dos compromissos firmados, aparece em segundo lugar na região, atrás apenas da Colômbia (21%).
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