O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto está sendo investigado pela morte de sua esposa, Gisele Alves Santana, ocorrida em 18 de fevereiro, com indícios de feminicídio e manipulação da cena do crime para simular um suicídio.
Geraldo relatou gastos significativos com a família, mas mensagens indicam um relacionamento abusivo, culminando na decisão de Gisele de se separar, o que gerou uma discussão no dia do crime, quando ela foi encontrada morta com um tiro na cabeça.
O Ministério Público denunciou o oficial, que está preso preventivamente, e a defesa alega irregularidades no processo, enquanto investigações continuam para esclarecer os detalhes do caso e a possível culpabilidade de Geraldo.
Em uma conversa com um dos policiais que atenderam a ocorrência da morte de Gisele Alves Santana, no dia 18 de fevereiro, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto relatou os gastos financeiros que tinha no local em que eles moravam no Brás, região central de São Paulo.
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No vídeo, registrado pela câmera corporal do PM, o agente senta ao lado de Geraldo e o indaga sobre o que havia ocorrido. O tenente-coronel conta sobre a relação entre ele e sua esposa e logo depois fala dos gastos que tinha com Gisele.
Ele afirma que pagava o colégio da filha de sua esposa, com um custo de mais de R$2 mil. Segundo ele, o pai da criança contribui apenas com o pagamento de uma pensão de apenas R$ 500.
Geraldo segue listando os gastos e diz pagar R$3.600 de aluguel, mais R$1.400 de condomínio e cerca de R$1 mil em água, luz e internet. Ele ainda conta que dava a Gisele uma quantia entre R$1.5 mil e R$2 mil por mês para ajudá-la.
Confira o relato:
Veja a cronologia do caso
Casados desde 2024 e vivendo juntos desde o ano anterior, eles dividiam o imóvel com a filha de Gisele, de 7 anos. Mensagens indicam que o oficial exercia forte domínio sobre a companheira, com exigências de submissão, nos quais condicionava o pagamento das despesas da casa à manutenção de relações sexuais.
Gisele então decidiu encerrar o relacionamento. No dia 13 de fevereiro, cinco dias antes do crime, ela entrou em contato com os pais pedindo ajuda e afirmou que pretendia se divorciar. A filha também demonstrava medo do ambiente, relatando constantes brigas no apartamento.
Na manhã do dia 18, segundo a versão apresentada pelo tenente-coronel, o casal teve uma discussão após ele comunicar a intenção de se separar. Ele afirmou que a esposa se exaltou, o expulsou do quarto e que, momentos depois, ouviu um disparo enquanto tomava banho, encontrando-a caída com um tiro na cabeça e a arma na mão.
No entanto, uma vizinha relatou ter ouvido o disparo exatamente às 7h28, enquanto o pedido de socorro só foi feito cerca de 30 minutos depois.
De acordo com o Ministério Público, o tenente-coronel teria manipulado o local para simular um suicídio. Entre os indícios apontados está a posição da arma na mão da vítima, considerada incompatível com casos dessa natureza. Socorristas relataram que o objeto estava solto, sem a rigidez esperada.
Mesmo orientado por policiais a preservar vestígios para exames periciais, Geraldo insistiu em tomar banho ainda no apartamento, o que, segundo a investigação, comprometeu possíveis provas, como resíduos de pólvora. Além disso, o estojo da munição disparada não foi localizado.
Horas depois, três policiais militares à paisana foram ao imóvel e realizaram uma limpeza completa do local, o que também passou a ser investigado.
A análise do padrão de sangue indicou que o corpo da vítima foi movido após o disparo. Exames realizados após a exumação identificaram sinais de agressão física anteriores ao tiro, incluindo marcas de pressão no rosto e no pescoço, compatíveis com imobilização.
Outro elemento foi o resultado do exame com luminol, que detectou vestígios de sangue na bermuda do tenente-coronel e no banheiro do apartamento, indicando contato direto com a vítima enquanto ela ainda sangrava.
Com base nesse conjunto de provas, o delegado responsável pelo caso concluiu o inquérito apontando que Gisele não cometeu suicídio. O Ministério Público denunciou o oficial por feminicídio qualificado e fraude processual.
Geraldo está preso preventivamente no Presídio Militar Romão Gomes e aguarda julgamento pelo Tribunal do Júri.
Leia nota da defesa na íntegra
"O escritório de advocacia MALAVASI SOCIEDADE DE ADVOGADOS, contratado para assistir o Tenente-Coronel GERALDO LEITE ROSA NETO no acompanhamento das investigações relativas ao suicídio de sua esposa, vem a público prestar esclarecimentos.
Ante o recente decreto dúplice de prisão do Tenente-Coronel pelos mesmos fatos tanto perante a Justiça Militar quanto pela Justiça Comum, a defesa encontra-se estarrecida pela manutenção da competência de ambas as jurisdições.
Informa que sabedor dos pedidos de prisão em seu desfavor desde a data do dia 17/3 não só não se ocultou, como forneceu espontaneamente comprovante de endereço perante a Justiça, local onde foi cumprido o mandado de prisão, ato ao qual, embora manifestamente ilegal pois proferido por autoridade incompetente, não se opôs, tendo mantido a postura adotada desde o início das apurações de colaboração com as autoridades competentes.
Informa, por fim, que já ajuizu Reclamação perante o STJ contra o decreto oriundo da Justiça castrense e que estuda o manejo de habeas corpus quanto à decisão da 5ª Vara do Júri da Capital.
Reitera que seguem sendo divulgadas informações e interpretações que alcançam aspectos de sua vida privada, muitas vezes por meio de conteúdos descontextualizados, ocasionando exposição indevida e repercussões que atingem sua honra e dignidade.
A intimidade, a vida privada, a honra e a imagem constituem direitos fundamentais assegurados pela Constituição Federal (art. 5º, X), razão pela qual a divulgação de elementos pertencentes a essas esferas encontra limites nas garantias constitucionais, sendo certo que, no momento oportuno, sua equipe jurídica irá reprochar toda e qualquer divulgação ou interpretação que venha vilipendiar tais direitos em relação ao Tenente-Coronel.
Por fim, o escritório reafirma sua confiança na atuação das autoridades responsáveis pela condução das investigações e reitera que o Tenente-Coronel aguarda a completa elucidação dos fatos."
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