Amostras de vírus furtadas na Unicamp estavam em laboratório com maior nível de biossegurança disponível no Brasil

Publicado em 25/03/2026, às 15h27
A professora doutora Soledad Palameta Miller foi presa suspeita de furtar material biológico de um laboratório na Unicamp - Reprodução
A professora doutora Soledad Palameta Miller foi presa suspeita de furtar material biológico de um laboratório na Unicamp - Reprodução

Por g1

A professora Soledad Palameta Miller foi presa por supostamente furtar amostras de vírus de um laboratório da Unicamp, o que representa um grave risco à saúde pública, já que o material estava em uma área de alta segurança biológica (NB-3). A Justiça a acusou de expor a vida de outras pessoas a perigo e de transporte irregular de organismos geneticamente modificados.

As investigações começaram após o desaparecimento de amostras virais em fevereiro, e a Polícia Federal encontrou o material em laboratórios da universidade, onde Miller tinha acesso com consentimento de outros pesquisadores. A movimentação inadequada e o descarte do material em lixeiras comuns expuseram a saúde de terceiros a riscos diretos.

Após a prisão, a professora foi liberada sob condições restritivas, incluindo a proibição de acessar os laboratórios envolvidos na investigação. A Unicamp instaurou uma sindicância interna e interditou temporariamente os laboratórios da Faculdade de Engenharia de Alimentos, enquanto a Polícia Federal conduziu as investigações necessárias.

Resumo gerado por IA

As amostras de vírus que teriam sido furtadas do laboratório de virologia da Unicamp foram retiradas de uma área de nível 3 de biossegurança (NB-3), que exige protocolos rigorosos e é, atualmente, o nível mais alto possível para se estudar agentes infecciosos (como vírus e bactérias) em laboratórios no Brasil.

A informação consta no Termo de Audiência que deu liberdade provisória à professora doutora Soledad Palameta Miller, suspeita pelo desaparecimento do material biológico. A pesquisadora vai responder por expor a perigo a vida e saúde de outras pessoas, por transporte irregular de organismo geneticamente modificado e por fraude processual, de acordo com a Justiça Federal.

  • Classe de risco 3 é aquela em que o agente infeccioso apresenta alto risco para o indivíduo e risco moderado para a comunidade. São agentes que podem causar doenças graves ou letais, transmitidos especialmente pelo ar, e podem se espalhar na comunidade, embora existam medidas de prevenção e tratamento.
  • Exemplos: Bacillus anthracis e vírus da imunodeficiência humana (HIV). O Orion, primeiro laboratório do Brasil com nível 4 (máximo) de biossegurança está em construção em Campinas, com previsão de ficar pronto em 2027.

Miller foi presa em flagrante nesta segunda-feira (23), depois que a Polícia Federal encontrou as amostras virais em laboratórios da universidade aos quais a professora conseguiu acesso com o consentimento de outros pesquisadores - veja os detalhes da ação abaixo. Na decisão judicial, o tipo de material - até então mantido em sigilo pelos órgãos públicos - é tratado como vírus.

A defesa da docente afirma que não há materialidade na acusação e que ela utilizava os laboratórios do Instituto de Biologia por não possuir estrutura própria.

Com a expedição do alvará de soltura, a professora responderá ao processo em liberdade, mas precisará cumprir regras determinadas pela Justiça:

  • A docente fica obrigada a comparecer mensalmente à 9ª Vara Federal, pagar uma fiança no valor de dois salários-mínimos, e está proibida de deixar a cidade de Campinas por mais de cinco dias e de sair do país sem autorização prévia
  • Além disso, foi determinado que ela está proibida de acessar os laboratórios da Unicamp envolvidos na investigação
  • A Unicamp informou que instaurou uma sindicância interna para apurar o caso.

Cronologia dos fatos:

  • 13 de fevereiro: amostras de vírus somem do laboratório de virologia do Instituto de Biologia da Unicamp
  • 23 de março: após investigação, PF encontra material em laboratórios da Faculdade de Engenharia de Alimentos, onde Soledad atuava
  • 23 de março: os laboratórios ficam interditados para cumprimento de mandados e a pesquisadora é presa
  • 24 de março: Justiça concede liberdade e menciona em decisão que trata-se de vírus

Investigação

O início: A investigação começou quando uma pesquisadora autorizada notou, na manhã de 13 de fevereiro de 2026, o desaparecimento de caixas com amostras virais.

Local original: O material subtraído pertencia ao Laboratório de Virologia Animal e estava armazenado em uma área classificada como NB-3 (alta contenção biológica e rigorosos protocolos de biossegurança).

Tipificação penal: Soledad foi autuada em flagrante por três crimes: artigo 29 da Lei 11.105/2005 (produzir, armazenar ou transportar Organismos Geneticamente Modificados - OGM irregularmente), artigo 132 do Código Penal (perigo para a vida ou saúde de outrem) e artigo 347 do Código Penal (fraude processual).

O esquema e o risco envolvido

As investigações apontam que, como Soledad não possuía laboratório próprio nem acesso autorizado aos locais de segurança, ela usava a sua orientanda de mestrado para abrir as portas dos laboratórios para ela, inclusive em finais de semana.

A professora possuía o consentimento prévio de responsáveis por outros laboratórios para utilizar parte de seus freezers.

⚠ Riscos à Saúde: A movimentação e o armazenamento do material biológico sensível foram feitos em ambientes não controlados, segundo a apuração. Além disso, houve o descarte de material em lixeiras comuns, o que configurou exposição da saúde de terceiros a perigo direto e iminente, de acordo com o documento da Justiça.

Onde os materiais foram encontrados

A Polícia Federal localizou as amostras espalhadas em três locais diferentes:

Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA): foram encontradas diversas caixas com amostras dentro de tubetes em um freezer lacrado.

Laboratório de Doenças Tropicais (Instituto de Biologia): foram localizados tubetes manipulados e abertos no espaço reservado a Soledad dentro do freezer de outra professora. Próximo ao refrigerador, havia material descartado que provavelmente já havia passado por autoclave.

Laboratório de Cultura de Células (Instituto de Biologia): uma grande quantidade de frascos descartados foi localizada dentro de uma lixeira.

Quem é a pesquisadora

Segundo o portal do Docente e Pesquisador da Unicamp, Miller coordena, atualmente, o Laboratório de Virologia e Biotecnologia em Alimentos em linhas de pesquisa orientadas a vigilância epidemiológica e desenvolvimento de diagnósticos e terapias relacionadas aos vírus transmitidos por alimentos e água.

➡ A pesquisadora atuou como analista no Laboratório Nacional de Biociências do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) em projetos na área de engenharia de vetores virais, imunomodulação e anticorpos monoclonais dirigidos para terapia de câncer.

Realizou pós-doutorado no Laboratório de Virologia da Unicamp em projetos relacionados ao desenvolvimento de vacinas vetorizadas, protótipos de testes rápidos para diagnóstico de doenças aviárias e estabelecimento de modelos alternativos para diagnóstico e produção de vacinas veterinárias.

Interdição de laboratórios

Todos os laboratórios da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) foram interditados temporariamente por conta do crime na manhã de segunda-feira (23). De acordo com a PF, dois mandados de busca e apreensão foram cumpridos para localizar o material biológico furtado, que estava dentro da própria Unicamp.

A desinterdição dos laboratórios ocorreu no início da tarde de segunda-feira. Segundo a PF, a própria universidade comunicou o desaparecimento das amostras, o que levou à abertura do inquérito policial.

A reitoria da Unicamp afirmou, também na segunda-feira, que o furto ocorreu nas dependências do Instituto de Biologia, com possíveis consequências para as atividades da FEA.

"Em razão da gravidade do fato e da natureza do patrimônio científico envolvido, a Instituição acionou prontamente a Polícia Federal e Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a condução das investigações e procedimentos periciais necessários", informou.

As aulas na graduação e nos laboratórios de ensino foram mantidas.

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