A professora Soledad Palameta Miller foi presa por supostamente furtar amostras de vírus de um laboratório da Unicamp, o que representa um grave risco à saúde pública, já que o material estava em uma área de alta segurança biológica (NB-3). A Justiça a acusou de expor a vida de outras pessoas a perigo e de transporte irregular de organismos geneticamente modificados.
As investigações começaram após o desaparecimento de amostras virais em fevereiro, e a Polícia Federal encontrou o material em laboratórios da universidade, onde Miller tinha acesso com consentimento de outros pesquisadores. A movimentação inadequada e o descarte do material em lixeiras comuns expuseram a saúde de terceiros a riscos diretos.
Após a prisão, a professora foi liberada sob condições restritivas, incluindo a proibição de acessar os laboratórios envolvidos na investigação. A Unicamp instaurou uma sindicância interna e interditou temporariamente os laboratórios da Faculdade de Engenharia de Alimentos, enquanto a Polícia Federal conduziu as investigações necessárias.
As amostras de vírus que teriam sido furtadas do laboratório de virologia da Unicamp foram retiradas de uma área de nível 3 de biossegurança (NB-3), que exige protocolos rigorosos e é, atualmente, o nível mais alto possível para se estudar agentes infecciosos (como vírus e bactérias) em laboratórios no Brasil.
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A informação consta no Termo de Audiência que deu liberdade provisória à professora doutora Soledad Palameta Miller, suspeita pelo desaparecimento do material biológico. A pesquisadora vai responder por expor a perigo a vida e saúde de outras pessoas, por transporte irregular de organismo geneticamente modificado e por fraude processual, de acordo com a Justiça Federal.
Miller foi presa em flagrante nesta segunda-feira (23), depois que a Polícia Federal encontrou as amostras virais em laboratórios da universidade aos quais a professora conseguiu acesso com o consentimento de outros pesquisadores - veja os detalhes da ação abaixo. Na decisão judicial, o tipo de material - até então mantido em sigilo pelos órgãos públicos - é tratado como vírus.
A defesa da docente afirma que não há materialidade na acusação e que ela utilizava os laboratórios do Instituto de Biologia por não possuir estrutura própria.
Com a expedição do alvará de soltura, a professora responderá ao processo em liberdade, mas precisará cumprir regras determinadas pela Justiça:
Cronologia dos fatos:
Investigação
O início: A investigação começou quando uma pesquisadora autorizada notou, na manhã de 13 de fevereiro de 2026, o desaparecimento de caixas com amostras virais.
Local original: O material subtraído pertencia ao Laboratório de Virologia Animal e estava armazenado em uma área classificada como NB-3 (alta contenção biológica e rigorosos protocolos de biossegurança).
Tipificação penal: Soledad foi autuada em flagrante por três crimes: artigo 29 da Lei 11.105/2005 (produzir, armazenar ou transportar Organismos Geneticamente Modificados - OGM irregularmente), artigo 132 do Código Penal (perigo para a vida ou saúde de outrem) e artigo 347 do Código Penal (fraude processual).
O esquema e o risco envolvido
As investigações apontam que, como Soledad não possuía laboratório próprio nem acesso autorizado aos locais de segurança, ela usava a sua orientanda de mestrado para abrir as portas dos laboratórios para ela, inclusive em finais de semana.
A professora possuía o consentimento prévio de responsáveis por outros laboratórios para utilizar parte de seus freezers.
⚠ Riscos à Saúde: A movimentação e o armazenamento do material biológico sensível foram feitos em ambientes não controlados, segundo a apuração. Além disso, houve o descarte de material em lixeiras comuns, o que configurou exposição da saúde de terceiros a perigo direto e iminente, de acordo com o documento da Justiça.
Onde os materiais foram encontrados
A Polícia Federal localizou as amostras espalhadas em três locais diferentes:
Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA): foram encontradas diversas caixas com amostras dentro de tubetes em um freezer lacrado.
Laboratório de Doenças Tropicais (Instituto de Biologia): foram localizados tubetes manipulados e abertos no espaço reservado a Soledad dentro do freezer de outra professora. Próximo ao refrigerador, havia material descartado que provavelmente já havia passado por autoclave.
Laboratório de Cultura de Células (Instituto de Biologia): uma grande quantidade de frascos descartados foi localizada dentro de uma lixeira.
Quem é a pesquisadora
Segundo o portal do Docente e Pesquisador da Unicamp, Miller coordena, atualmente, o Laboratório de Virologia e Biotecnologia em Alimentos em linhas de pesquisa orientadas a vigilância epidemiológica e desenvolvimento de diagnósticos e terapias relacionadas aos vírus transmitidos por alimentos e água.
➡ A pesquisadora atuou como analista no Laboratório Nacional de Biociências do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) em projetos na área de engenharia de vetores virais, imunomodulação e anticorpos monoclonais dirigidos para terapia de câncer.
Realizou pós-doutorado no Laboratório de Virologia da Unicamp em projetos relacionados ao desenvolvimento de vacinas vetorizadas, protótipos de testes rápidos para diagnóstico de doenças aviárias e estabelecimento de modelos alternativos para diagnóstico e produção de vacinas veterinárias.
Interdição de laboratórios
Todos os laboratórios da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) foram interditados temporariamente por conta do crime na manhã de segunda-feira (23). De acordo com a PF, dois mandados de busca e apreensão foram cumpridos para localizar o material biológico furtado, que estava dentro da própria Unicamp.
A desinterdição dos laboratórios ocorreu no início da tarde de segunda-feira. Segundo a PF, a própria universidade comunicou o desaparecimento das amostras, o que levou à abertura do inquérito policial.
A reitoria da Unicamp afirmou, também na segunda-feira, que o furto ocorreu nas dependências do Instituto de Biologia, com possíveis consequências para as atividades da FEA.
"Em razão da gravidade do fato e da natureza do patrimônio científico envolvido, a Instituição acionou prontamente a Polícia Federal e Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a condução das investigações e procedimentos periciais necessários", informou.
As aulas na graduação e nos laboratórios de ensino foram mantidas.
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