Brasil

Aos 9 anos, brasiliense já tem livro publicado, hamburgueria e dá aulas

Metrópoles | 08/11/20 - 20h41
Hugo Barreto/Metrópoles

Escrever livros, dar aulas e montar o próprio negócio são exemplos de realizações que podem levar tempo para acontecer. Fazer as três coisas de uma vez é ainda mais complicado. Com apenas 9 anos, o pequeno Ryan Maia, no entanto, não só cumpriu toda a lista, como ainda quer mais. Ele é um caso de superdotação – ou alta habilidade – no Distrito Federal.

Os sinais de que o menino tinha um aprendizado acelerado foram verificados ainda na pré-escola e chamaram atenção dos pais e professores. “A primeira sinalização foi no jardim de infância, ele aprendia as coisas muito rápido. Tanto que, já na primeira série [atual segundo ano], encaminharam ele para fazer alguns testes”, explica Márcio Alan, o pai do garoto.

Foram seis meses de acompanhamento inicial. Após ter a dotação confirmada, Ryan passou a frequentar aulas na turma de altas habilidades da Secretaria de Educação. O intuito era não deixar que ele ficasse desestimulado com as aulas regulares. “Ele acabou passando para a turma de 12 anos. Tem aulas sobre ciência e outras coisas. Na escola ‘normal’, ele foi nomeado monitor da classe e, quando termina os exercícios mais rápido que todo mundo, vai nas carteiras ajudando os amigos”, diz Márcio.

O que deu grande reconhecimento ao garoto, no entanto, foi o livro Uma heroína e um Herói, publicado há dois anos, após grande esforço da família. A história rodou o Brasil e passou a ser utilizada por vários professores em salas de aula. Desde então, Ryan passou a ser requisitado para palestrar pelo país para contar a própria experiência.

Apesar da grande repercussão em cima do menino, ainda pequeno, Ryan afirma que não se sente incomodado. Eloquente, diz tratar com naturalidade os temas das diversas palestras. “Se é um assunto muito fácil, eu vou lá e falo. Se for algo mais difícil, como política, eu tenho um material para estudar”, explica.

Apesar da superdotação, o garoto faz questão de lembrar que ainda é criança. Gosta de brincar com amigos na rua onde mora, em Ceilândia, e assistir desenhos. Por sinal, foi assim que ele teve a ideia para lançar a hamburgueria Ryan Maia.

“Minha mãe queria abrir uma loja de doces, mas eu vi o Bob Esponja que trabalhava no Siri Cascudo e pensei: que tal termos uma lanchonete também? Fica a dica para os pais nunca dizerem que desenho não serve para nada”, diverte-se o menino.

Além de ajudar no empreendimento, criado com o próprio dinheiro arrecadado com palestras, ele estuda inglês, programação e oferece aulas pela internet. Mesmo com a agenda cheia, Ryan teve tempo de escrever novos livros. Um deles é continuação da obra de estreia e outro já está em fase final de produção: A Formiga Fora do Normal. “É a história de uma formiga que traça uma estratégia para afugentar o tamanduá do formigueiro onde ela mora”, adianta.

Dentre tantas coisas que Ryan já fez, ele revela um sonho ainda por realizar: ser ator. “Pretendo continuar como palestrante, mas ainda quero participar de um filme”, diz. Como protagonista”, ressalta.

Como desenvolver e lidar com a superdotação

O acompanhamento escolar de Ryan na turma de altas habilidades é feito pela professora Carla Oliveira, na Escola Classe 64 de Ceilândia (saiba mais no post abaixo). Ela conta que o aluno com superdotação comprovada é atendido até o ensino médio pela rede pública de ensino. “A gente faz um mapeamento dos interesses e habilidades do aluno para tentar desenvolver essas áreas com ele”, explica.


Carla afirma que Ryan tem facilidade não apenas com números: a oratória dele é fora do comum. “Ele sempre me surpreende nas respostas. Mesmo com a pandemia, manteve uma visão positiva sobre as coisas, dizendo que esse tempo em casa serviu para passar mais tempo com a família”, registra.

Para o psicólogo Igor Barros, é importante lembrar que as altas habilidades não se manifestam sozinhas. É necessário haver o estímulo do ambiente em que a criança está inserida. “A criança não acorda e aprender a ler. Ela precisa de estímulo visual, afetivo, de todos os tipos. Quanto antes desenvolver isso, melhor”, comenta Igor Barros.

Por esse motivo, é importante que aqueles que demonstram aprendizado fora do comum sejam levados a locais especializados, como o próprio acompanhamento da Secretaria de Educação.

Já a neuropsicóloga Múria Ribeiro destaca a necessidade de não se colocar muita pressão em cima da criança. “São altas habilidades, mas ela não tem todas as habilidades”, destaca.

Por esse motivo, é importante saber o limite de estímulo a ser dado a um superdotado. “Eles próprios já criam uma cobrança grande em cima deles. É preciso conversar bem e entender o que a criança gosta, para não ficar frustrada depois”, ensina a especialista.