Um estudo da Universidade de Bristol revela que bebês podem demonstrar comportamentos enganosos antes de falar ou andar, desafiando a ideia de que mentir requer habilidades linguísticas avançadas. Cerca de 25% das crianças mostram sinais de compreensão do engano aos dez meses, aumentando para 50% aos 17 meses.
A pesquisa, que envolveu mais de 750 famílias em quatro países, identificou que a habilidade de mentir se desenvolve de forma gradual e não súbita, com comportamentos simples como esconder objetos e fingir não ouvir os pais já observados em crianças a partir de oito meses.
Os pesquisadores destacam que o engano é uma parte normal do desenvolvimento infantil, com a complexidade das mentiras aumentando com a idade. As descobertas também oferecem novas perspectivas teóricas sobre a natureza do engano, sugerindo que a capacidade de mentir pode ser mais instintiva do que se pensava.
Mesmo antes de falar ou andar, alguns bebês já demonstram sinais iniciais de comportamento enganoso. Pelo menos, é o que indica um estudo liderado pela Universidade de Bristol, no Reino Unido, que identificou formas rudimentares de dissimulação em crianças com menos de um ano de idade — um achado que desafia a ideia de que mentir depende de habilidades linguísticas avançadas.
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De acordo com a pesquisa, publicada no dia 5 de março na revista Cognitive Development, cerca de um quarto das crianças começa a apresentar indícios de compreensão do engano por volta dos dez meses, número que sobe para metade aos 17 meses. Em alguns casos, os pais e responsáveis relataram reconhecer esse tipo de comportamento já aos oito meses de idade.
Baseado em entrevistas com mais de 750 famílias no Reino Unido, Estados Unidos, Austrália e Canadá, o estudo traçou um panorama detalhado de como o engano se desenvolve desde os primeiros meses até os quatro anos de idade. Os dados mostram que, longe de surgir de forma repentina, a habilidade de mentir e ludibriar aparece cedo e se torna progressivamente mais sofisticada ao longo da infância.
Segundo a professora Elena Hoicka, autora principal do estudo, os resultados ampliam o entendimento sobre o tema. “Foi fascinante descobrir como a compreensão e o uso do engano pelas crianças evoluem desde uma idade surpreendentemente jovem”, afirma, em comunicado. Até então, predominava a visão de que mentir exigia domínio da linguagem e uma compreensão elaborada da mente dos outros.
Ludíbrio antes das palavras
Logo nos primeiros anos de vida, a trapaça não se manifesta como mentiras elaboradas, mas como estratégias simples. Entre os comportamentos mais comuns estão fingir não ouvir os pais, esconder objetos ou consumir alimentos proibidos sem ser visto. Essas atitudes não dependem necessariamente da fala.
Para chegar a tal conclusão, a equipe se baseou em estudos sobre comportamento de chimpanzés e aves, que demonstram práticas enganosas mesmo sem linguagem estruturada. Isso sugere que a base da mentira pode ser mais instintiva e anterior ao desenvolvimento verbal.
“Não é como se essa capacidade surgisse do nada aos três ou quatro anos”, explica Hoicka. “As formas mais precoces estão mais ligadas a tentar escapar de uma situação ou conseguir algo desejado.”
A partir dos dois anos, a mentira passa a envolver ações mais intencionais e respostas verbais simples. Isso inclui, por exemplo, negar algo que fizeram ou evitar tarefas fingindo distração. Por volta dos três anos, há um avanço significativo. Nessa fase, as crianças começam a elaborar histórias, exagerar, omitir informações e até inventar explicações completas, como culpar um personagem imaginário por algo que fizeram.
Os pesquisadores identificaram 16 tipos diferentes de engano, evidenciando uma progressão clara em complexidade. Esse desenvolvimento está associado ao avanço da linguagem e à capacidade de compreender que outras pessoas têm pensamentos e percepções próprias.
Frequência e naturalidade
O estudo também aponta que o comportamento de tentar ludibriar é frequente entre os bebês. Entre as crianças já classificadas como capazes de enganar, metade havia feito algo furtivo no dia anterior ao levantamento.
Para os autores, isso reforça que mentir ou enganar é parte do desenvolvimento típico. “Os pais podem ficar tranquilos: trata-se de um aspecto normal”, afirmou Hoicka, destacando que conhecer essas etapas pode ajudar adultos a lidar melhor com as situações do cotidiano.
Além das aplicações práticas, os resultados também têm impacto teórico. Para a filósofa Jennifer Saul, coautora do estudo, a pesquisa amplia o debate sobre a natureza do engano. “Os filósofos sempre focaram em adultos. Este estudo mostra quanta complexidade foi ignorada”, avalia ela.
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