Pesquisadores da Universidade de Cambridge alertam sobre os riscos de brinquedos com inteligência artificial que interagem com crianças pequenas, destacando a falta de padrões de segurança e a necessidade de regulamentação mais rigorosa.
O estudo, parte do projeto 'AI in the Early Years', revela que, apesar do potencial educacional, esses brinquedos falham em responder adequadamente às emoções das crianças, o que pode afetar seu desenvolvimento emocional.
Entre as recomendações estão a criação de normas específicas, testes obrigatórios com crianças antes do lançamento e maior transparência nas políticas de privacidade, visando proteger os usuários mais jovens e garantir interações saudáveis.
Um relatório inédito feito por pesquisadores da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, traz um alerta sobre os riscos associados a brinquedos com inteligência artificial (IA) que "conversam" com crianças pequenas. O estudo, publicado no dia 20 de fevereiro, argumenta que esses dispositivos ainda carecem de padrões robustos de segurança e exigem regulamentação mais rigorosa.
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O documento faz parte do projeto "AI in the Early Years", considerado o primeiro esforço sistemático para investigar como brinquedos com IA influenciam crianças de até cinco anos, uma fase crítica para o desenvolvimento cognitivo, social e emocional. A pesquisa foi conduzida por especialistas da área de Educação, e se baseia em observações diretas e entrevistas com crianças, pais e profissionais da área.
Promessas educacionais versus riscos emocionais
Embora parte dos educadores reconheça o potencial desses brinquedos para estimular linguagem e comunicação, os resultados mostram limitações importantes. Os sistemas frequentemente falham em interpretar emoções, responder adequadamente a interações afetivas e participar de brincadeiras sociais — elementos essenciais na infância.
Um exemplo citado no relatório descreve a resposta de um brinquedo a uma criança de cinco anos que disse “eu te amo”. Em vez de reciprocidade ou acolhimento, o dispositivo respondeu com uma mensagem técnica e impessoal. Em outro caso, ao ouvir “estou triste”, o brinquedo ignorou o conteúdo emocional e redirecionou a conversa. Para os especialistas, isso pode transmitir à criança que seus sentimentos não são relevantes.
A pesquisadora Emily Goodacre destaca, em comunicado, que essas interações podem ter efeitos indiretos preocupantes: “Crianças podem começar a compartilhar sentimentos com o brinquedo em vez de com adultos. Se a resposta for inadequada, elas ficam sem apoio emocional, tanto do brinquedo quanto de uma pessoa real”.
Vínculos artificiais
O estudo também identificou a formação de vínculos afetivos intensos. Durante os testes, crianças abraçaram, beijaram e declararam amor ao brinquedo, um fenômeno que levanta preocupações sobre relações “parassociais”, nas quais o afeto não é correspondido de forma genuína. Para alguns especialistas ouvidos, isso pode gerar confusão emocional. “As crianças podem acreditar que o brinquedo as ama de volta, mas não ama”, resume uma das profissionais ouvidas pela pesquisa.
A coautora Jenny Gibson reforça que a ausência de normas claras contribui para a desconfiança. “Há um sentimento recorrente de que empresas de tecnologia não farão o necessário sem regulação. Regras robustas aumentariam significativamente a confiança”, observa ela.
Outro ponto crítico envolve a coleta e o armazenamento de dados. Pais relataram preocupação com as informações captadas durante as interações, muitas vezes sensíveis, e com a falta de transparência das políticas de privacidade. Ao selecionar um brinquedo para o estudo, os próprios pesquisadores encontraram dificuldades para entender como os dados eram tratados. Isso evidencia um cenário grave de opacidade no setor.
Recomendações
Para os pais, a orientação é pesquisar antes de comprar, acompanhar o uso e manter os brinquedos em ambientes compartilhados da casa.
“A inteligência artificial está transformando a infância, mas ainda estamos começando a entender seus impactos. A regulamentação precisa acompanhar essa evolução para garantir proteção e equidade”, conclui Josephine McCartney, diretora executiva da The Childhood Trust, a organização beneficente que encomendou a pesquisa.
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