Câmera de segurança registra entrada e saída de 3 policiais de apartamento em que PM foi morta com tiro na cabeça

Publicado em 10/03/2026, às 13h59
Câmera de segurança registra entrada e saída de 3 policiais de apartamento em que PM foi morta com tiro na cabeça - Reprodução / TV Globo
Câmera de segurança registra entrada e saída de 3 policiais de apartamento em que PM foi morta com tiro na cabeça - Reprodução / TV Globo

Por g1

A morte da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, registrada como suicídio, levanta questionamentos após a entrada de três policiais mulheres no apartamento onde ocorreu o incidente, apenas horas depois do fato. As imagens de segurança mostram as agentes no local por cerca de 50 minutos, sem levar objetos, e elas serão ouvidas pela investigação.

Um laudo necroscópico revelou lesões no rosto e pescoço da vítima, indicando que ela pode ter desmaiado antes do disparo fatal. Depoimentos de socorristas contradizem a versão do marido da vítima, tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, que alegou estar no banho no momento do disparo, mas foi encontrado seco e sem marcas de água.

O tenente-coronel não é considerado suspeito até o momento, mas sua conduta e a presença de um desembargador no local após o disparo geram estranhamento. O caso continua sob investigação pela Polícia Civil e pela Corregedoria da Polícia Militar, com a defesa do oficial afirmando que ele está colaborando com as autoridades.

Resumo gerado por IA

Uma câmera de segurança registrou os momentos em que três policiais mulheres entraram e saíram do apartamento em que a soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana morreu com um tiro na cabeça. A quarta mulher que aparece no vídeo é uma funcionária do condomínio.

Segundo uma testemunha afirmou em depoimento à Polícia Civil, as agentes foram limpar o apartamento, no Brás, região central de São Paulo, cerca de 10 horas após a ocorrência. No imóvel, Gisele morava com o marido, o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos.

Ainda de acordo com a testemunha, as agentes chegaram ao prédio às 17h48 de 18 de fevereiro, o mesmo dia da morte, e entraram no local acompanhadas por uma funcionária do edifício. As policiais que fizeram a limpeza foram identificadas como uma soldado e duas cabos.

As imagens registradas mostram que as agentes ficaram cerca de 50 minutos no local. O vídeo não mostra as policiais entrando nem saindo com nenhum objeto. Elas serão ouvidas pela investigação.

O laudo necroscópico feito após a exumação do corpo de Gisele apontou que havia lesões no rosto e no pescoço da vítima. Segundo peritos, há sinais de que ela desmaiou antes de ser baleada na cabeça e que não apresentou defesa.

O documento, obtido com exclusividade pela TV Globo nesta terça-feira (10), diz que essas lesões eram "contundentes" e feitas "por meio de pressão digital e escoriação compatível com estigma ungueal" (marcas de unha).

Sd Gisele Alves (Foto: Reprodução)

Detalhes da ocorrência

No dia da morte de Gisele, uma vizinha do casal contou à polícia que acordou às 7h28 depois de ouvir um estampido único e forte vindo do apartamento. O horário é cerca de meia hora antes da primeira ligação feita pelo marido da vítima, o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, ao serviço de emergência. Na chamada registrada às 7h57, ele disse que a esposa havia se matado.

Depoimento de bombeiros

No mesmo inquérito da Polícia Civil, depoimentos de socorristas que atenderam a ocorrência levantam questionamentos sobre a versão apresentada pelo marido da vítima.

Em depoimento, o oficial afirmou que estava no banho no momento em que ouviu o disparo, mas os primeiros bombeiros que chegaram ao local disseram que ele estava seco e não havia marcas de água no chão do apartamento.
O tenente-coronel disse que entrou no banheiro para tomar banho por volta das 7h e, cerca de um minuto depois, ouviu um barulho que pensou ser de uma porta batendo. Ao sair do banheiro, afirmou ter encontrado Gisele caída na sala.

Um sargento do Corpo de Bombeiros com 15 anos de experiência relatou que, ao chegar ao apartamento, encontrou Geraldo de bermuda, sem camisa e inteiramente seco.

O declarante afirma que não havia nenhum tipo de pegada molhada que indicasse que o tenente-coronel teria saído imediatamente durante o banho, inclusive ele estava seco
— registrou o socorrista em depoimento.

Ele também disse que o chuveiro do banheiro do corredor estava ligado, mas não havia poças de água no chão ou no corredor.

A observação foi reforçada por um tenente da PM cuja equipe foi a primeira a chegar ao local. Ele apontou que nem Geraldo nem Gisele aparentavam estar molhados ou terem tomado banho antes do disparo.

Outro ponto que chamou a atenção da equipe de resgate foi o estado emocional do marido. O sargento do Corpo de Bombeiros afirmou que não viu nenhum tipo de desespero por parte do tenente-coronel nem o viu chorando.

Um segundo bombeiro também estranhou a conduta do marido porque ele "falava calmamente" ao telefone, questionava a todo momento o atendimento prestado pelos bombeiros e insistia que a vítima fosse retirada com pressa e levada imediatamente ao hospital.

Os socorristas também observaram que o oficial não apresentava nenhuma marca de sangue no corpo ou nas vestimentas, o que indicaria que ele não teria tentado prestar os primeiros socorros à esposa.

Outro questionamento é sobre o disparo. Um dos socorristas relatou que a arma parecia estar "bem encaixada" na mão da mulher, de uma forma que nunca havia visto em casos de suicídio. Por achar a cena incomum, decidiu fotografá-la.

O profissional também afirmou que o sangue já estava coagulado quando a equipe chegou ao apartamento e que não havia cartucho de bala no local.

Ligação para desembargador

Entre os contatos feitos por Geraldo na manhã da ocorrência, um deles foi considerado incomum pela família da policial: a ligação para o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP).

Ele chegou ao prédio às 9h07 e subiu para o apartamento com o tenente-coronel. O advogado da família, José Miguel da Silva Junior, questiona a presença do magistrado no local.

“Ele vai ter que explicar por que estava lá. Pelo relato que temos, o desembargador foi a primeira pessoa acionada após o disparo.”

  • 9h18: o desembargador reaparece no corredor.
  • 9h29: Após 11 minutos, o tenente-coronel surge com outra roupa.

O que dizem as defesas

Em nota, a defesa do tenente-coronel Geraldo Neto afirma que ele não é investigado, suspeito ou indiciado no processo até o momento. Segundo os advogados, o oficial tem colaborado com as autoridades desde o início e permanece à disposição para ajudar na elucidação dos fatos.

Já a defesa do desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan informou que ele foi chamado ao apartamento como amigo do tenente-coronel e que eventuais esclarecimentos serão prestados à polícia judiciária.

O caso, inicialmente registrado como suicídio, segue sob investigação da Polícia Civil e da Corregedoria da Polícia Militar.

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