O aumento das dimensões dos veículos, especialmente SUVs e picapes, tem gerado conflitos em condomínios, onde muitos carros novos não cabem adequadamente nas vagas, resultando em incômodos e disputas entre vizinhos.
Especialistas afirmam que o uso da vaga deve respeitar os limites físicos e não prejudicar o espaço de outros condôminos, sendo que a violação desses limites pode caracterizar uso irregular da propriedade.
Embora o condomínio possa aplicar multas em casos de infração, isso depende de regras claras na convenção e do impacto concreto a terceiros, e mudanças nas normas internas devem ser aprovadas em assembleia sem restringir direitos já adquiridos.
Se você comparar o seu carro atual com o da sua família de dez anos atrás, há uma boa chance de ele ter "crescido" alguns centímetros. É uma tendência global, até um mesmo modelo costuma ficar maior a cada nova geração. O problema é que esse aumento não impacta só o espaço nas ruas. Dentro dos condomínios, ele começa a provocar um efeito colateral cada vez mais comum: conflito entre vizinhos.
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A cena tem se repetido em condomínios pelo país: o carro novo chega, geralmente um SUV ou uma picape maior, e logo aparece o primeiro problema. Ele simplesmente não cabe direito na vaga. O que começa como um ajuste vira incômodo. Depois, reclamação. E, em muitos casos, conflito direto entre vizinhos.
Mas até onde isso é só desconforto e quando vira infração?
O problema não é "passar da linha"
Apesar da impressão de que basta ultrapassar a linha da vaga para estar errado, a prática é mais flexível. Segundo especialistas, o ponto central não é apenas o limite físico, mas o impacto desse uso nas áreas comuns, nas vagas de outros vizinhos ou no espaço de manobra da garagem.
"O direito do condômino sobre a vaga de garagem não é absoluto, ele deve respeitar os limites físicos e a destinação daquele espaço", afirma a advogada Joyce Araújo.
Na prática, isso significa que nem todo carro maior será automaticamente um problema, mas situação muda quando o uso da vaga começa a afetar terceiros,
"Quando o veículo ultrapassa essa delimitação, seja invadindo área comum, seja comprometendo a vaga vizinha, caracteriza-se uso irregular da propriedade", explica o advogado Luiz Miguel Orihuela Dubal.
Multa não é automática
Mesmo quando há incômodo, o condomínio não pode simplesmente sair aplicando multa. "A penalidade será considerada válida quando houver previsão na convenção ou no regimento interno, comprovação de que o uso do veículo extrapola os limites da vaga ou causa prejuízo a terceiros, e observância do devido processo interno", afirma Dubal.
Na ausência desses critérios, a penalidade pode ser questionada. "A multa pode ser contestada se não houver regra clara, se não existir impacto concreto a terceiros ou se for aplicada de forma arbitrária, sem garantir o direito de defesa", diz Joyce.
Quando o problema é com o vizinho
Se o carro começa a afetar diretamente a vaga ao lado, o cenário muda de nível. "Há violação direta ao direito de uso e fruição da propriedade alheia", afirma Dubal. Nesses casos, a situação pode ir além do condomínio.
Segundo os especialistas, o problema pode gerar desde medidas internas até ação judicial para cessar a conduta e, eventualmente, indenizar prejuízos. A advogada Léa Saab Faggion afirma que esse tipo de situação já se tornou comum.
"A pauta é recorrente nos condomínios desde que os carros SUV caíram no gosto dos brasileiros. O aumento das dimensões dos veículos, aliados a projetos antigos com vagas mais compactas, tem gerado conflitos frequentes. Isso tem exigido maior detalhamento nas normas internas e atuação mais técnica da administração condominial para prevenir litígios e padronizar soluções", afirma.
Dá para mudar as regras?
Os condomínios podem tentar organizar melhor o uso das vagas, mas com limites. Na prática, isso significa que mudanças precisam passar por assembleia e não podem restringir direitos já incorporados ao imóvel.
"O condomínio pode, sim, ajustar normas no regimento interno para organizar melhor o uso das vagas, desde que não viole direitos já adquiridos", explica Joyce.
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