O julgamento dos mandantes dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes trouxe à tona o nome de Edmilson Oliveira da Silva, conhecido como Macalé, que foi executado em 2021, sendo apontado como intermediário no crime. Sua morte é considerada uma queima de arquivo, evidenciando a atuação de milícias no Rio de Janeiro.
Investigações revelaram que Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, pode ter sido o mandante do assassinato de Macalé, e ele foi preso em uma operação policial em Cabo Frio. Documentos encontrados em um celular de um policial militar envolvido no caso indicam que Macalé foi alvo de um estudo prévio, com informações detalhadas sobre sua rotina.
As autoridades estão apurando os motivos por trás da ordem de Adilsinho para matar Macalé, que podem incluir disputas territoriais no comércio ilegal de cigarros. O matador de Adilsinho, conhecido como Sem Alma, permanece foragido, enquanto o inquérito sobre o caso continua em andamento.
Um dos nomes mais citados durante o julgamento no Supremo Tribunal Federal dos mandantes dos homicídios da vereadora Marielle Franco e de Anderson Gomes foi o de Edmilson Oliveira da Silva, o Macalé. O miliciano, apontado pelo delator e assassino confesso Ronnie Lessa como intermediário na contratação do crime, estaria no banco dos réus se não tivesse sido executado, em 6 de novembro de 2021.
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Investigações da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) indicam que o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, pode ter sido o mandante da morte de Macalé. O contraventor foi preso ontem numa ação conjunta das polícias Federal e Civil, escondido em uma mansão casa em Cabo Frio, na Região dos Lagos.
Por meio da quebra de sigilo telemático solicitada pela DHC e autorizada pela Justiça, referente ao braço direito de Adilsinho, o policial militar Rafael do Nascimento Dutra, conhecido como Sem Alma, os investigadores chegaram a uma pasta intitulada “Anotações” que estava em arquivos do celular. Nela, havia informações relevantes para o inquérito do homicídio do policial militar da reserva Macalé. O miliciano foi assassinado em Senador Camará, na Zona Oeste do Rio, quando caminhava em direção a seu carro, uma BMW, com três gaiolas de passarinhos nas mãos.
Os dados foram extraídos da conta de Sem Alma. O objetivo inicial da investigação era obter provas sobre homicídios atribuídos a Sem Alma, como os de Marco Antônio Figueiredo Martins, o Marquinho Catiri, e de seu segurança Alexsandro José da Silva, o Sandrinho, supostamente a mando de Adilsinho. No entanto, os policiais encontraram essa pasta, analisada por peritos da Polícia Civil, que continha um levantamento prévio de dados sobre Macalé.
A prática é comum entre matadores de aluguel: realizar um estudo prévio do alvo, reunindo dados pessoais, hábitos e rotinas. O material encontrado incluía nome, endereço, telefones e outras informações. A polícia acredita que os dados tenham sido extraídos de algum banco cadastral. Algumas anotações, inclusive, foram inseridas dias antes do assassinato.
Chamam atenção os registros sobre o veículo da vítima — modelo, cor e placa. Tratava-se de uma BMW X5 branca.
Os dados passaram a integrar o conjunto de evidências reunidas no inquérito conduzido pela Delegacia de Homicídios da Capital.
Queima de arquivo
De forma categórica, o relator do caso, ministro Alexandre de Moraes, afirmou no julgamento que condenou os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão — conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio (TCE-RJ) e ex-deputado federal, respectivamente — que Macalé foi vítima de queima de arquivo:
— Macalé foi morto em queima de arquivo, foi assassinado, executado. Não teve infarto, tropeçou na rua, bateu a cabeça e morreu. Foi executado em clara demonstração de queima de arquivo, clássica, histórica e tradicional de organizações criminosas. E como atuam também, infelizmente, as milícias no Rio de Janeiro.
Segundo o delator Ronnie Lessa, Macalé “conhecia muita gente”. No acordo de colaboração firmado com a Polícia Federal e o Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio, Lessa relatou que ele, Macalé e Chiquinho se conheceram em um criatório de pássaros na Praça Seca, em Jacarepaguá, na Zona Oeste. Uma testemunha que morava no local confirmou a versão.
De acordo com as investigações da PF, teria sido Macalé quem apresentou a Lessa a proposta dos irmãos Brazão para matar a vereadora. O ex-PM afirmou que o miliciano, cujo reduto ficava em Osvaldo Cruz, na Zona Norte, chegou a acompanhá-lo no monitoramento da vereadora. Em uma ocasião, segundo o delator, os dois estiveram prestes a executar a parlamentar, mas Macalé teria desistido.
Mesmo assim, Lessa acertou com ele a divisão do que receberia como recompensa pela morte. Segundo o colaborador, ele, o miliciano e os irmãos Brazão seriam sócios em um loteamento na Praça Seca, com cerca de mil unidades. Metade ficaria com os irmãos; a outra parte, com ele e Macalé.
Sociedade em loteamento
Nas contas apresentadas por Lessa à PF, a venda dos lotes poderia render cerca de R$ 100 milhões ao grupo, além da exploração de serviços típicos de milícia. O valor seria dividido entre quatro. Com a prisão de Lessa, o plano não avançou e a área é atualmente dominada pelo Comando Vermelho. O miliciano era descrito como uma espécie de “corretor da morte”, responsável por conseguir os “trabalhos” para o atirador.
Adilsinho e Macalé
Investigadores buscam esclarecer qual teria sido o interesse de Adilsinho em mandar matar Macalé. Uma das hipóteses é disputa territorial ou rivalidade no comércio ilegal de cigarros paraguaios.
Sem Alma atuaria praticamente como matador exclusivo do bicheiro, que, no ramo da máfia de cigarros, também é investigado pela Polícia Federal por suposto uso de mão de obra de trabalhadores vindos do Paraguai, com entrada clandestina no país e submetidos a condições análogas à escravidão.
Segundo investigadores, Adilsinho não tolera divisão de lucros nem aproximação de subordinados com rivais. As mortes dos sócios Fabrício Alves Martins de Oliveira e Fábio Alamar Leite, em outubro de 2022, são apontadas como exemplo. Fábio foi assassinado logo após o enterro de Fabrício. A suspeita é que ambos tenham sido executados por transportarem carga de cigarros para um adversário do bicheiro.
Em 20 de dezembro do ano passado, a DHC indiciou Adilsinho e Sem Alma pela morte do policial penal Bruno Kilier da Conceição, ocorrida em 2023, que também atuava no comércio ilegal de cigarros. Até o momento, o Ministério Público do Rio ainda não ofereceu denúncia.
O matador de Adilsinho, Sem Alma, continua foragido da justiça.
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