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Caso Naja: entenda como funcionava a rede de tráfico de animais no DF

Metrópoles | 22/08/20 - 15h52 - Atualizado em 22/08/20 - 15h59

Indiciado 23 vezes pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), o estudante de medicina veterinária Pedro Henrique Santos Krambeck Lehmkuhl, 22 anos, contou com a ajuda direta de outras seis pessoas num esquema de tráfico internacional de animais exóticos e silvestres na capital do país, segundo a investigação.

O modus operandi dos indiciados foi ilustrado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e juntado aos inquéritos encaminhados ao Tribunal de Justiça do DF e dos Territórios (TJDFT). O Metrópoles teve acesso com exclusividade ao organograma preparado pelos fiscais.

Veja como operavam os investigados:



As autoridades policiais e ambientais colocam Pedro como peça-chave na suposta rede de tráfico. De acordo com o relatório, coube ao jovem “revelar uma rede de uso ilegal de animais silvestres, em especial serpentes”.

“Ficou evidente a conexão com o tráfico. Existem fortes evidências de que parte dos espécimes de espécies silvestres exóticas possa ser oriunda de reprodução no Brasil”, afirma o Ibama no texto.

Ligados ao jovem, o instituto coloca os também graduandos de medicina veterinária Gabriel Ribeiro de Moura e Luiz Gabriel Félix Menezes. Ambos teriam, segundo o relatório, participado ativamente na ocultação de provas e dos animais criados clandestinamente.

Ao primeiro, coube a função de transportar os bichos, enquanto Luiz Gabriel foi o responsável por encontrar o local onde as espécies seriam escondidas. O pai de Gabriel, Ricardo Pereira Henriques de Moura, também é citado.

Segundo as investigações, Ricardo é o dono da propriedade onde parte das serpentes foram escondidas. O pai do jovem chegou a ser conduzido à 14ª Delegacia de Polícia (Gama), após a PCDF encontrar, durante cumprimento de mandado de busca e apreensão, peles de jiboia e de surucucu, penas de arara e uma carcaça de tatu galinha na propriedade dele.

Ajuda familiar

Outra ligação reforçada pelas autoridades esmiúça a participação do padrasto e da mãe de Pedro Henrique na ocultação de provas que viessem a incriminar o universitário pelo crime.

Coronel da Polícia Militar do DF (PMDF), Clovis Eduardo Condi “ajudou a esconder os animais e dificultou a ação fiscalizatória do Ibama” nos primeiros dias de investigação do caso. O relatório coloca Rose Meire como cúmplice do companheiro na tentativa de burlar as apurações.

A sexta conexão de Pedro Henrique Kambreck é com a clínica Exotic Life, onde, segundo os autos, o estudante já estagiou. O Ibama ressalta que não foi a primeira vez em que fiscais encontraram irregularidades no trabalho realizado pelos veterinários do local. “Em suas redes sociais apresentam-se inúmeros animais indubitavelmente ilegais para a manutenção doméstica”, afirma o documento do órgão ambiental.

O Ibama é enfático: “A empresa se esconde atrás de atendimento veterinário, mas suas postagens demonstram claramente que consideram normal a manutenção de animais ilegais, já que acobertam a atividade”. “Expõem, orgulhosos, animais que sabem ser ilegais”, acrescenta o instituto.

Trabalho interno

O último nome citado na lista é o de Adriana da Silva Mascarenhas. Ela é servidora do Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres do Ibama. Segundo o próprio órgão, a funcionária é “uma das responsáveis por esconder as serpentes de Pedro”.

Após decisão judicial da 9ª Vara Federal Cível da Justiça Federal do Distrito Federal, Adriana foi afastada do cargo.

Informações sobre a servidora dão conta de que ela é suspeita de liberar licenças para pessoas criarem animais silvestres na capital do país, além de ter expedido licença de coleta, captura e transporte de serpentes que não pertencem à fauna brasileira.

Trecho da decisão diz que há fortes indícios de seu envolvimento com fatos investigados relacionados à organização de tráfico internacional de animais silvestres, bem como de prática de ato de improbidade na emissão de licenças para transporte de animais.

A Exotic Life, citada pela reportagem, pediu espaço para esclarecimentos. Segundo nota enviada ao Metrópoles, a empresa “não compactua com o tráfico de animais, de nenhum tipo, e jamais se envolveu em nenhum negócio ilícito. Nosso papel é acolher os animais trazidos por seus tutores, tratá-los e orientar seus donos em relação as leis brasileiras que regem a fauna silvestre”.

Também garante que jamais comercializou nenhum tipo de animal, que os espécimes são mostrados nas redes sociais com autorização dos tutores e que não foi aberto nenhum inquérito policial envolvendo a clínica ou os colaboradores atuais. “Sobre o ex-estagiário Pedro Henrique Santos Krambeck Lehmkuhl, informamos que ele foi selecionado por currículo, estagiou de agosto a novembro de 2018, assim como centenas de estagiários que já passaram pela clínica”, conclui o comunicado.

Quem são os indiciados ?

Além da “rede direta” de Pedro Henrique Krambeck, outras cinco pessoas foram indiciadas pela PCDF. Saiba quem são e por quais crimes devem responder.

– Pedro Henrique Santos Krambeck Lehmkuhl: responderá por tráfico de animais, associação criminosa e exercício ilegal da medicina;
– Rose Meire dos Santos Lehmkuhl: fraude processual, corrupção de menores, tráfico de animais, maus-tratos e associação criminosa;
– Clovis Eduardo Condi: tráfico de animais, fraude processual, maus-tratos e associação criminosa;
– Gabriel Ribeiro: posse ilegal de animal silvestre, maus-tratos, fraude processual e corrupção de menores;
– Julia Vieira: posse ilegal de animal silvestre e corrupção de menores;
– Fabiana Sperb Volkweis: fraude processual;
– Raynner Leyf: posse ilegal, fraude processual e associação criminosa;
– Major Joaquim Elias: prevaricação, fraude processual, associação criminosa, coação no curso do processo;
– Silvia Queiroz: fraude processual;
– Luiz Gabriel: favorecimento real;
– Gabriel Moraes: associação criminosa e maus-tratos.

A Naja kaouthia, uma Víbora-Verde-de-Vogel e cinco cobras-do-milho (Corn Snake) mantidas pelo universitário ficaram inicialmente no Jardim Zoológico de Brasília. Depois, foram transferidas para o Instituto Butantan, em São Paulo, onde permanecem em quarentena. Ainda não se sabe se elas serão exibidas ou se ficarão à disposição para pesquisas científicas.