Cinco dias antes de ser morta, PM Gisele avisou estar 'praticamente solteira' e tenente-coronel ameaçou: 'Jamais! Nunca será!'

Publicado em 19/03/2026, às 15h50
Gisele Alves escreveu que marido deixou de ser 'príncipe'. Ele respondeu que era 'Rei, Religioso', 'Bonito, Gostoso', 'Provedor, Soberano' - Reprodução
Gisele Alves escreveu que marido deixou de ser 'príncipe'. Ele respondeu que era 'Rei, Religioso', 'Bonito, Gostoso', 'Provedor, Soberano' - Reprodução

Por g1

A soldado Gisele Alves foi morta pelo tenente-coronel Geraldo Neto em 18 de fevereiro, após uma discussão, e a investigação revelou que ele havia ameaçado a esposa cinco dias antes, demonstrando um comportamento controlador e abusivo.

As mensagens trocadas entre o casal indicam que Geraldo não aceitava a separação e se via como um 'macho alfa', impondo regras rígidas e exigindo submissão de Gisele, o que caracteriza um ambiente de violência psicológica e machismo.

Geraldo foi preso e se tornou réu por feminicídio e fraude processual, com o Ministério Público solicitando uma indenização de R$ 100 mil aos familiares da vítima, enquanto o caso deve ser julgado na Justiça comum devido à natureza do crime.

Resumo gerado por IA

Cinco dias antes de ser morta, a soldado Gisele Alves havia dito ao marido dela, o tenente-coronel Geraldo Neto, que estava "praticamente solteira". O oficial prontamente ameaçou: "Jamais! Nunca será!" O crime foi cometido em 18 de fevereiro.

Segundo a polícia, troca de mensagens revela que Geraldo Neto ameaçou Gisele Alves cinco dias antes do crime. Ele a proibiu de se separa (Foto: Reprodução)

É o que aponta a conclusão da Polícia Civil sobre a troca de mensagens por WhatsApp entre o tenente-coronel e a soldado. As conversas que estavam nos telefones dos dois comprovam, segundo a investigação, que o Geraldo não queria se separar da esposa e não iria permitir isso.

Ele foi preso preventivamente na quarta-feira (18) acusado de matar Gisele com um tiro na cabeça após uma discussão no apartamento do casal, no Brás, Centro de São Paulo. O oficial está detido no presídio militar Romão Gomes, na Zona Norte da capital.

No mesmo dia a Justiça o tornou réu por feminicídio (assassinato de mulher por razões de gênero —como violência doméstica e familiar ou menosprezo e discriminação à condição feminina) e fraude processual (porque alterou a cena do crime para simular um suicídio).

De acordo com o Ministério Público (MP), Geraldo matou Gisele no contexto de uma "relação marcada por abuso psicológico, machismo, controle financeiro, ciúme patológico e a decisão firme da vítima de pedir o divórcio."

'Macho Alfa', se definiu

Numa das mensagens, Gisele escreveu para Geraldo: "Quero o divórcio". E pediu para ele mandar os documentos da separação naquela mesma semana. Depois reafirmou sua decisão: "Se considere divorciado".

Ainda nas conversas entre o casal, Geraldo se descrevia como um “macho alfa” e cobrava que a esposa fosse "fêmea beta obediente e submissa".

Tenente-coronel Geraldo Neto se definiu como 'macho alfa' e obrigava esposa ser 'fêmea beta obediente e submissa' (Foto: Reprodução)

"Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa. Com amor, carinho, atenção e autoridade de Macho Alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser", escreveu o coronel.

Segundo os investigadores, o teor das conversas demonstram um perfil autoritário e controlador de Geraldo sobre Gisele. O oficial condenava a independência dela, proibindo-a, por exemplo, de cumprimentar outros homens e de vestir roupas justas.

"Não cumprimentar homens com beijo no rosto e abraços", escreveu Geraldo. "Lugar de mulher é em casa cuidando do marido e não na rua caçando assunto" e "Rua é lugar de mulher solteira a procura de macho."

Coronel dizia ser 'soberano' e exigia 'sexo'

Em outra mensagem, ele impõe regras à vítima:

"Enquanto vc estiver casada comigo e vivendo na minha casa, na minha comanda, as coisas serão do meu jeito... Mulher casada comprometida e que o marido é o único provedor do lar tem regras a cumprir", escreveu. "Se você quer ter liberdade, não fique casada" e "são as minhas regras e do meu jeito".

Alegando sustentar a casa, Geraldo cobrava que a esposa mantivesse relações sexuais com ele. "Eu contribuo com o dinheiro, sou o provedor. Você contribui com carinho, atenção, amor e sexo".

Quando Gisele alegou que o marido havia deixado de ser "príncipe", "cavalheiro, romântico", o coronel respondeu que era "mais que um príncipe". Escreveu "Sou Rei, Religioso, Honesto, Trabalhador, Inteligente, Saudável, Bonito, Gostoso, Carinhoso, Romântico, Provedor, Soberano".

Indenização de R$ 100 mil

Futuramente, a Justiça comum e a Justiça Militar decidirão quem será responsável por julgar o caso. Como o feminicídio é considerado crime doloso contra a vida e não um crime militar, a tendência é que o processo siga na Justiça comum.

Coronel mandou mensagem a esposa ordenando que ela seguisse as regras dele e que 'jamais' seria solteira (Foto: Reprodução)

Nesse caso, o oficial poderá ser julgado pelo Tribunal do Júri, onde sete jurados decidirão se ele deve ser condenado ou absolvido.

A Promotoria pediu ainda que, em caso de condenação, seja fixada indenização mínima de R$ 100 mil a ser paga aos familiares da vítima.

Na denúncia, o MP afirma que o oficial matou Gisele “por razões da condição do sexo feminino”, no contexto de violência doméstica, por motivo torpe e com recurso que dificultou a defesa — o que caracteriza o crime de feminicídio.

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